Entre a liberdade e a servidão


Pedro Correia,

 

Alexis de Tocqueville era um visionário.

Escreveu ele na primeira parte da sua monumental obra Da Democracia na América, publicada em 1835:

«Os anglo-americanos confiam no interesse pessoal para levarem a cabo os seus objectivos e dão carta branca à energia autónoma e ao bom senso do povo; os russos centralizam toda a autoridade da sociedade num único braço. O principal instrumento dos primeiros é a liberdade e o dos últimos a servidão. O seu ponto de partida é diferente e os seus percursos não são os mesmos; contudo, ambos parecem escolhidos pela vontade divina para agitarem os destinos de metade do globo.»

Há quase duzentos anos já antevia o mundo de hoje com notável precisão. 

15 comentários em “Entre a liberdade e a servidão”

  1. 1835 são 5 anos antes da infame guerra do ópio em que os narcotraficantes britânicos extorquiram Hong-Kong como indemnização por as autoridades chinesas de Cantão terem pegado ao armazém em que guardavam o ópio que comercializavam na China. Nessa altura a China parecia que iria ser pasto para a América, Europa e Rússia e a Índia era a Jóia da Coroa do império Britânico. Agora a Rússia é um anão económico em comparação com a China cujo poderio político militar e económico continua em ascensão. O mundo está no mínimo tripolar e a Índia está a recuperar a importância da sua demografia.

    1. Um mundo tripolar que faz lembrar as 3 grandes potências de 1984 com os EUA a serem a Oceânia, a Rússia a Eurásia e a China a Lestásia…

    2. A China pagou o preço do isolamento. Capitalistas ou comunistas, as nações e povos só avançam com um misto de cooperação e competição entre elas.
      Neste momento são a Potência a ter em conta, têm a força militar suficiente para os EUA os deixarem sossegados, têm a demografia, a finança e a tecnologia. A letargia europeia já nos colocou fora de jogo nas balanças de poder, o trumpismo tem tudo para arrasar um país que, mesmo que neguem, vive de imigrantes. O covid já deu um cheirinho do que é vida sem chineses…

  2. Outra pessoa que “antevia o futuro com notável precisão” era James Madison:

    “James Madison believed that war was a profound danger to public liberty, a threat that could empower the executive, inflate government, and erode citizens’ freedoms. He argued that war allows the executive to control physical force, dispense patronage, and unlock public treasures, making it a “nurse of executive aggrandizement”.

    Recorde-se que, de acordo com o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, a Europa está em guerra contra a Rússia. Ele lá sabe porquê – provavemente para obter aquilo que James Madisou previu.

      1. Tocqueville deixei-o na faculdade (e há certa presunção minha em escrevê-lo, pois foi estudo assaz superficial).
        Já esse “o mundo de hoje” remete-me para O Mundo de Ontem, de Zweig. Coisa pouco lida. Bem menos do que deveria ser (e ter sido). Porque a História se repete.

  3. Os anglo-americanos confiam no interesse pessoal para levarem a cabo os seus objectivos e dão carta branca à energia autónoma e ao bom senso do povo

    Disparate monumental. Tanto os ingleses como os americanos sempre adoraram o poder do Estado para levarem a cabo os seus objetivos. Nomeadamente, o poder do Estado levar a cabo guerras. Os ingleses e os americanos apoiaram os seus Estados entusiasticamente nas guerras que estes promoveram. Por exemplo, na guerra do ópio referida num comentário anterior, ou nas guerras dos EUA contra o México e, mais tarde, a Espanha ainda no século 19. Dizer que “os anglo-americanos confiam no interesse pessoal” é uma asneira total – eles confiam mais no interesse do seu Estado do que no interesse pessoal.

    1. O Tocqueville era da IL, via liberdade em todas as folhas de relva

      Não tira mérito ao livro, com seis meses de visita tirou um retrato bem perceptivo, mas passadas três décadas os industriais deram com o estado na cabeça dos agrícolas que julgavam que aquilo das liberdades era a sério. Mas era uma salada, não o bife.

      1. Eu já li em diversos sítios trechos do livro de Tocqueville e nunca me pareceu que fosse um retrato bem percetivo dos EUA atuais. Vivi nos EUA três anos, não os conheço bem mas também não os conheço propriamente mal, e confesso que não vi ainda nada no livro de Tocqueville que mereça o trabalho que deve dar lê-lo.
        Também não é para mim nada claro que Tocqueville fosse liberal.

        1. > nunca me pareceu que um retrato bem percetivo dos EUA atuais.

          Para isso tem o Gore Vidal, já morreu mas ainda estão a desenrolar-se coisas que anteviu, como um razoavelmente bom artigo do New Statesman apontou há dois dias.

          É claro que o Tocqueville só retratou a matriz original, não estava a fazer futurologia. Mas os americanos têm o livro na estante, e às vezes até o lêem, porque como o Tocqueville observou “os povos democráticos gostam que lhes falem deles próprios” em vez de os maçarem com coisas longínquas.

  4. Até Trump talvez. Agora, com Trump no poder, os EUA podem transforma-se em algo parecido com a Rússia. Sim, continuarão a agitar a “sua” metade do globo”, porém muitos americanos estão a mudar de “instrumento”. Não diria que estejam a substituir a liberdade pela servidão, mas pela adulação cega ao líder (algo que acho que nunca aconteceu antes neste país), o que poderá levar a um estado de subserviência permanente como modo de vida, o que acontece na Rússia, infelizmente para russos e também para a vizinhança!

  5. Tocqueville escreveu sobre os anglo-americanos porque viveu na glória do Império Britânico, que se supunha eterno, como todos os Impérios anteriores e posteriores, incluindo o famigerado e bastante sui generis Reich dos Mil Anos.
    Reproduzia um conceito de “liberdade” que nada tem a ver com o actual, que ainda incluía escravatura e direitos civis diferenciados e censitários, apenas como exemplos de realidades hoje inimagináveis numa sociedade livre. E que no entanto era liberdade, comparativamente ao estado de facto de servidão feudal em que vivia a grande massa do povo russo à época.

    Quero dizer, hoje inimagináveis talvez já nem tanto; porque se diria que recaímos inexoravelmente num retorno a uma “idade das trevas” civilizacional, uma espécie de tempo de pousio histórico cíclico que esquece o brilho e as sementes de progresso plantadas em eras anteriores – assim como a Idade Média perdeu selectivamente a memória do sistema democrático Ateniense.

    Deixaram de ser inimagináveis em sentido absoluto porque nem precisamos propriamente de usar a imaginação: sem grande esforço podemos assistir ao vivo à acelerada regressão civilizacional do nosso mundo “livre”.
    A “energia autónoma” transformou-se em apropriação de riqueza numa escala grotesca, baseada no conceito de que tudo e todos têm o seu preço. Quanto ao “bom senso do povo”, bastará olhar para as aberrações das redes sociais ou para as multidões fascinadas pelos flautistas de hamelin a seguirem-nos para o abismo para perdemos todas as ilusões.

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