Entretanto, nas Honduras…


Carlos Barbosa de Oliveira,

Continua  a hipocrisia internacional. Perante o silêncio da UE e dos EUA, Micheletti  faz o que lhe apetece. Embora não passe de um golpista, ameaça o Brasil e lança um ultimato: se até dia 6 de Outubro não esclarecer qual o estatuto de Zelaya – o presidente eleito pelos hondurenhos que se encontra na embaixada brasileira – retira o direito do Brasil à sua missão diplomática. Não informou com que direito o faz, mas todo o mundo sabe – embora a comunicação social portuguesa finja não saber – que o faz respaldado nos milhões de dólares que os EUA estão a enviar para as Honduras, através do FMI, apoiando assim os golpistas.

É verdade que, hoje mesmo, Micheletti  recuou nas suas intenções e afirmou que não atacará a embaixada brasileira, mas isso aconteceu porque Zelaya  falou à Assembleia Geral da ONU, através de telemóvel, pedindo  “o fim da ditadura fascista de Micheletti” , o que causou algum embaraço

Perante o silêncio da comunidade internacional, alguns pensarão que Zelaya é mais um daqueles  “perigosos comunistas” democraticamente eleitos, que pretendem  defender o seu povo, libertá-lo do jugo americano e restituir-lhe a dignidade a que tem direito. Mas não. Como escreve Maurice Lemoine no  “Le Monde Diplomathique” , Zelaya  é um fazendeiro eleito pelo centro-direita que cometeu dois pecados: aumentou o salário mínimo e fez algumas reformas com o objectivo de retirar da miséria as classes mais desfavorecidas. Bem, é verdade que cometeu um terceiro pecado, mais relevante. Aliou-se aos países sul-americanos que pretendem libertar-se do jugo político e militar dos EUA. Ora Obama, tal como Bush, não admite que lhe estraguem o recreio onde gosta de brincar às guerras.

Entretanto, Micheletti declarou o recolher obrigatório, suspendeu as liberdades cívicas e políticas e autorizou a prisão de qualquer pessoa que seja considerada “suspeita”. Não satisfeito, encerrou uma estação de rádio e um canal de televisão, supostamente apoiantes de Zelaya, ou seja, da legalidade democrática.  Como não é Chavez, nem Morales, tudo bem cá pela urbe de idiotas encartados. Desde que apoie os EUA, permita a instalação de bases militares americanas, coarcte as liberdades cívicas em nome do superior interesse americano, passa de perigoso comunista a democrata num ápice.

Há uma coisa que não percebo de todo. Por que razão é que a direita  europeia  tem tanto medo da democracia na América Latina?  O país pode estar  à beira de uma guerra civil, graças à hipocrisia de um grupo de néscios, para quem o mercado é o único bem sagrado. Mas se a guerra eclodir, todos se vão armar em carpideiras. Só me apetece recordar aquela canção do Zeca :

“(…) Os pretos, os comunistas

Os Índios, os turcomanos

Morram todos os hirsutos!

Fiquem só os arianos!"

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