Escadas


Maria Dulce Fernandes,

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O meu pai costumava dizer que a vida era como uma escadaria que tínhamos de subir, degrau a degrau. Quantos revezes não nos fizeram descer um lance por cada degrau que subimos… A verdadeira sabedoria, aquela que só se adquire com o tempo e alguns trambolhões, ensina-nos duas coisas importantíssimas: para cair, basta estar de pé e cabe a cada um de nós o saber reerguer-se. Já subi e desci incontáveis escadarias, escadas e degraus. As primeiras de que tenho recordação são as da casa da minha Avó em Belém, escuras, de madeira e que rangiam debaixo dos pés de quem me transportava ao colo na subida. Depois havia as escadas que levavam ao sótão, onde a luz do sol que entrava por entre as telhas brincava alegremente nos degraus, tornando aquele lugar um reino encantado cheio de brilhos e cor. A “casa velha” da minha mãe tinha uma escadinha de pedra que desembocava num quintal ridiculamente pequeno, mas sempre florido, onde existia um tanque de pedra. Aí já subia pelo meu pé, amparada pela mão de alguém. A “casa nova” da mãe, na mesma rua, novinha a estrear, era um 3.º andar com a vista para o Tejo mais bonita que eu já vi em toda Belém. Nessas escadas, de ascensão desgastante, na subida já estava entregue a mim própria.

Os meus castelos tinham obviamente escadas, mas felizmente não tive o prazer de travar grande conhecimento com elas, tampouco fazer amizade porque ao melhor estilo “beam me up, Scotty”, subimos sem mexer os pés, naquela maravilhosa invenção da tecnologia chamada elevador, versão urbana/familiar e melhorada do fantástico Elevador de Santa Justa, obra de Mesnier de Ponsard, que nos ascende para uma vista espectacular da Baixa de Lisboa. Outras escadas houve que marcaram a minha vida, como a maravilha de “Stairway to Heaven”, dos Led Zeppelin (paixoneta habitual pelo Robert Plant), que ouvia, e ouvia, e ouvia… gratas as despreocupações de uma adolescência feliz, ou todas as escadas que povoam o expectante e inquietante imaginário dos filmes de Hitchcock. As Escadas da Bica, as Escadinhas de Alfama, o Bom Jesus, a Penha, Montmartre, a escada em caracol com quase duzentos degraus do Arco do Triunfo, e a outra espiral no Vaticano, os quase quatrocentos degraus de Notre Dame, a Piazza di Spagna…. Foi sempre a subir, degrau a degrau, e tantas vezes à beira de desistir a meio.

Subo a escada no trabalho todos os dias, tanto em termos de hierarquia, como para chegar ao andar de cima (como na anedota da galinha) – o que eu costumo dizer que vale por uma ida diária ao ginásio, por tantas serem as vezes que me obrigo degraus arriba. Subo o pequeno escadote que tenho na cozinha, para poder alcançar os apetrechos que não utilizo todos os dias, tabuleiros, formas para bolos e pudins.

Espero que, quando chegar a minha vez de enfrentar a última grande escadaria, me seja concedido o direito de a poder subir, e eu, que nessa altura não devo estar mesmo com pressa nenhuma, vou pé ante pé, devagarinho, degrau a degrau.

8 comentários em “Escadas”

  1. Mas qual era a profissão do seu pai para subir degraus e não uma simples caminhada da evolução profissional ? É que estar a subir degrau a degrau é cansativo.
    Também cansativo é subir a escadaria, ou escadório, do Santuário da Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego.
    Estava hospedado no hotel a trinta metros da Igreja, e vi chegar uma mulher nova que tinha subido aqueles 500 (?) degraus de joelhos. Aproveitei a presença do padre, próximo, e questionei ‘sr. padre que pecados tão graves teria cometido aquela mulher pra tão penosa promessa?’. Não sabemos se fora por pecados ou por alegrias o cumprimento da promessa, respondeu-me ele. E ainda deu uma volta ao adro antes de se erguer, entrar e rezar dentro da igreja. Calhando, outras promessas eram cumpridas oferecendo um ramo de flores à Nossa Senhora dos Remédios.

  2. Morei num 4º andar ( talvez 70 degraus) sem elevador uns 12 anos. Pois com 26 anitos na boa.
    Asneiras que a idade não resolveu foi subir a 18 Maio 2021 a Torre dos Clérigos com degraus apertadíssimos e altos. Uns subiam outros.
    Pior ainda com a mão a apertar a barriga porque tinha uma hérnia. Pouco juízo dá nisto.

    1. A casa da minha mãe em Belém ficava num terceiro andar, virado para o Tejo, com a vista mais bonita de que tenho memória. Também foi a escada de habitação mais difícil de subir numa base diária, de que tenho memória. Quando era mais nova, ir à terra do meu marido e não subir o Bom Jesus era sacrilégio. A última vez que me vi aflita, foi em Marrakech no ano passado. No deserto de Agafay havia uma “pequena” colina com vista panorâmica e uma escadaria de truz. Jurei para nunca mais, mas isso foi no ano passado …

    2. Ui, se bem me lembro, na Torre dos Clérigos aquilo é tudo muito estreito e apertado e nunca mais acaba. Acho que tenho um bocado de claustrofobia.

      1. Quase todos os monumentos antigos com espectaculares vistas panorâmicas, são claustrofóbicos de subir. Também deveriam ser claustrofóbicos de descer, mas as descidas parecem diferentes mesmo quando o acesso é o mesmo nos dois sentidos.

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