
O pensamento é inevitável. Mesmo quem pensa mal, pensa sempre. É o que define a nossa existência como seres pensantes e, dizem, o que nos separa dos outros animais.
“Não quero pensar nisso”, dizemos, como se não pensar fosse uma decisão que se toma e pronto. Não é fácil, não pensar. Requer uma série de mecanismos, de artimanhas de resultado duvidoso, que levem a mente a divagar por becos e ruelas longe da praça principal. Nem sempre funciona, mas enquanto se tenta, estamos embrenhados na intenção.
Este ano entrou louco, correu assustador e chegou à recta final com aquela calma de quem venceu uma guerra com as mãos vazias. Mas somos gratos por cada dia em que cada pequeno passo contribuiu para esta primeira grande vitória.
Dezembro entrou e já começa a parecer-se bastante com o Natal. Há muitos anos que as cadeiras se vêm tirando de volta da mesa nas comemorações familiares, para não marcarem os lugares vazios onde ninguém se quer sentar. Já fomos muitos.
É inevitável construir uma linha temporal que nos remete à infância, ao primeiro Natal, ao bulício atarefado da cozinha, aos sorrisos dos convivas, ao calor da ternura. Ao amor. Tanta gente, tanta alegria.
A alegria continua nos sorrisos das nossas crianças, o calor, a ternura, o amor não se perderam nem se diluíram no passar dos anos. Apenas no nosso coração, por mais transbordante que esteja, dói a falta de todos aqueles lugares por preencher. Embora o seu espírito viva luzente nas nossas memórias, a saudade é sempre pungente e cresce doida a cada ano que passa.

Tão verdade…
A saudade é o maior de todos os ditadores…
Dá pensamento da semana, Dulce. Pode agendar para dia 8, se quiser.
(Fica a sugestão…)
Vou escrever, Pedro. Obrigada.
gostava mais da minha juventude. dia 5 fazia anos minha falecida MÃE e ninguém a substitui.
Quando éramos jovens, tínhamos connosco os nossos “velhos”. Agora somos nós os ” velhos” dos nossos filhos, pelo tempo que Deus deixar.
Eu agora pura e simplesmente não tenho Natal. Com os meu pais falecidos e os pais da minha mulher de relações cortadas com ela (por causa de uma questão de partilhas), é assim.
Não ter Natal seria para mim negar a minha ascendência e os valores que me passaram e que eu faço por transmitir à posteridade. Enquanto houver um sorriso, por muito que a saudade bata, terei de ter sempre Natal.
Para a Dulce ter Natal precisa de ter filhos já independentes e, de preferência, casados e com filhos, os quais se reúnem na casa da Dulce no Natal.
A Dulce tem tudo isso. Eu não tenho nada disso.
Tenho os meus dois filhos, que ainda vivem comigo. Na noite de Natal jantarei com eles da mesmíssima forma que em todas as outras noites.
Cozerei bacalhau, que também cozo noutras noites.
Será uma noite igual a tantas outras.
Já consoei com o meu marido e com a minha mãe, apenas os três, e fizemos por ser divertido dentro do possível, principalmente as lembranças de bloopers de outros natais …
Ainda não sendo velhota, tenho na minha lista
de contactos vários que já partiram e não eram
velhotes. Uma tristeza.
Nem consigo apagar os contactos nem as mensagens .
Vou ter que o fazer mas falta-me a coragem.
Também sofro do mesmo mal, Kika. O contacto da minha mãe, com um ícone com moranguinhos ainda continua onde o pus. Presentemente somos oito ou nove, na mesa da Consoada. Já fomos trinta e tal…
No Norte ainda há o costume de não se levantar a mesa na noite de Consoada.
Os néscios pensam que é superstição…
Pessoalmente, como sou quem cozinha, não fico muito tempo sentada. Mas respeito todas as superstições.
Nota: “se levantar a mesa”, e não “se levantar da mesa”. 🙂
Tem razão! Falha minha…
Como sou filha única e sem filhos
ficamos só eu e a minha mãe á mesa.
Depois do jantar, ficamos á lareira com
os doces habituais e uns licores a passar
o serão. Os silêncios são inevitáveis mas
as chamas e o calor da lareira ajudam-me
a passar esses momentos delicados.
Enfim… cada um com as suas histórias.
Se por um lado a saudade dói e rói , por outro aviva sempre as memórias, principalmente as mais gratas, Kika.
Certíssimo ! A vida é como andar de bicicleta
temos que continuar a pedalar para guardar
o equilíbrio.
Isso mesmo.
Sugestão: A Sublime Arte de Envelhecer, por Anselm Grün.
“O poder que o passado tem sobre mim depende da opção que eu fizer; sou eu que determino.”
Bom, literatura motivacional há-a às resmas e abrange todos os aspectos da vida. O “sou eu que determino” seria fantástico se fosse sempre possível. Não é. Acredite, eu sei.
O livro é muito sensato e mete o dedo em muitas feridas.
A frase citada, sendo uma piroseira, eu procuro tomá-la a sério.
Nós nem teríamos presente se não o fundametássemos no passado. Pode-se aligeirar a saudade, como nós fazemos, falando sobre os ausentes e sobre algumas pequenas histórias de vida mais hilariantes. Uma lagriminha ao canto do olho, um sorriso rasgado e uma pequena semente de memória.
Talvez o problema sejam as expectativas: venderam-nos a ideia de que o Natal é sinónimo de esfusiante alegria e animação a rodos. Esperamos, gostaríamos que assim fosse; convencemo-nos de que tem de ser, que no passado assim foi.
Lembro-me bem de ler um artigo num periódico que tinha como título: O direito à tristeza no Natal. Foi um abre-olhos.
Tendo sido o meu Natal durante muitos anos sinónimo de festa em família, amigos, colegas e vizinhos e esfuziante alegria, não comprei gato por lebre.
O direito à tristeza no Natal assiste todos os que se agarram à infelicidade como causa e não como efeito. Mas é um direito, claro.
O viver de comparações (com outros tempos, com outras pessoas) é meio caminho andado para a infelicidade.
Não é comparação, é saudade mesmo. Pura, dura e crua. Não me diga que nunca teve saudades dos seus tempos de criança, que eu reservo-me no direito de duvidar muito.
Sinto também saudades, mas mantenho alerta a consciência para o facto das minhas memórias se misturarem com fantasias e serem por estas bastas vezes distorcidas.
Posso encontrar algum consolo doloroso em recordar natais passados pintados a cor-de-rosa, mas a realidade é que foram sempre policromáticos. Tal como irá ser o que se avizinha, se mo for dado a viver.
A idade pode ajudar a confundir as coisas, mas memórias para mim nunca foram fantasias, nem pintadas de cor de rosa. Tenho-as boas, tenho-as más, tenho-as péssimas e tenho-as maravilhosas.
Os Natais então, nada tiveram de monocromáticos nem traumáticos, porque doesse por onde doesse, a memória dos ausentes sempre foi para preservar, como eles gostariam que fosse.
Ainda faço tal e qual o meu pai fazia. Principalmente os coscorões
Natal , cada vez mais a “comemoração” das Ausências…
JSP
Ausências que doem cada vez mais. Principalmente quando tentamos explicá-las aos mais novos.
Eu queria escrever um comentário bonito e cheio de esperança sobre o Natal, mas, com franqueza, não sou capaz… Por coisas muito minhas, a verdade é que detesto o Natal…
Não sou capaz de afirmar Esperança, Paz e Amor, quando não acredito nessas bondades, só por ser Natal…
Confesso o meu enjoo com músicas de Natal, anúncios de Natal e decorações de Natal, alguns começaram logo em Outubro, com óbvios intuitos meramente consumistas e comerciais…
Confesso o meu enjoo com todas as obrigações, sim muitas obrigações, e corridas de Natal, quase sempre aliadas a muita ansiedade e abundante stress: compras, comidas, compras, comidas, compras, comidas…
Confesso o meu enjoo com as aparências do Natal, como alguns discursos muito delicodoces, onde quase sempre entram as palavras Paz e Amor, proferidos, muitas vezes, por pessoas que, notoriamente, durante os restantes 364 dias do ano não respeitaram o próximo, nem se preocuparam com ele…
No Natal fazem de conta que se preocupam, sacam de discursos que soam a falsidade e a hipocrisia, mas o que fica realmente sobre si serão sempre as suas acções, praticadas ao longo de cada ano…
Lamenta-se, mas, na verdade, o Natal não costuma anular a maldade das pessoas más e também não as torna melhores…
Afinal, no dia 26 de Dezembro a “normalidade” será certamente retomada: quem é mau continuará mau e quem é bom assim continuará…
Há uns tempos deparei-me com esta afirmação, num qualquer sítio da Internet:
– “No Halloween as pessoas fingem ser más, no Natal fingem ser boas”…
E não é que será mais um menos isso? Talvez seja…
E será possível contrariar os rituais consumistas e comerciais do Natal? Talvez não seja…
Seja como for, confesso que o meu espírito natalício deve estar parecido com o de uma anémona…
Num esforço derradeiro para não arruinar por completo a suposta magia do Natal, o que quer que isso seja, direi isto:
– Deixemos que, pelo menos, as crianças possam acreditar no Natal…
Com ou sem espírito natalício, votos de boa Saúde, física e mental, para todos, incluindo aqueles que, como eu, se pudessem, saltariam esta época do ano…
Em particular nesta altura, subscrevo esta Prece de Fernando Pessoa:
“Senhor, protege-me e ampara-me.
Dá-me que eu me sinta teu.
Senhor, livra-me de mim.” (Fernando Pessoa)
É verdade que o Natal se tornou consumista e tudo isso que a Paula diz. Agora é assim. Nem sempre foi. É desses Natais, de momentos únicos, que a saudade também se alimenta para nos fazer sofrer. Porque não se agarram, não se repetem. Porque estamos cada vez mais velhos e sós.
O meu Natal passou a ser o das “guardas partilhadas” e dos meus pais também separados. Não saber onde, com quem e quando, passo o Natal é o meu novo normal. Pode não ser um drama quando é possível estar, nem que seja só um bocadinho, com aqueles que mais amamos.
Os bocadinhos podem ser pedras preciosas na nossa vida. É acarinhar e aproveitar ao máximo o que se pode ter. O valor não está na quantidade, está no sentimento.
Na noite de Natal passo sozinho com a minha aparelhagem de som em altos berros para chatear os vizinhos depois estes chamam a polícia e eu armo uma escandaleira. É um Natal bem divertido.
Parabéns !!
Demonstra ser um homem civilizado.
Se se sente feliz assim… mas pense que os vizinhos podem ter um aNatal tranquilo se a Ana dizar… e a Polícia também. [º<:}}}]
Já que falou em pensar, a maior parte das pessoas não pensa. Este texto está cheio de nada e alguns comentam como se tivesse algo. Quem não tem assunto para escrever, não escreva.
Mas este não é caso único, é quase tudo assim. Vemos por todo o lado textos e mais textos sem substancia alguma. Que desilusão!
Tem razão. Se o anónimo pensasse, não teria escrito esse comentário completamente oco que escreveu. Quem não tem assunto para comentar, comenta porquê?
Faço anos(70) a 23 deste mês, o meu pai fazia a 25. Em 1997, fui eu que preenchi o seu lugar, que ficara vazio, como escreveu David Mourão Ferreira, na sua Elegia dos Póstumos Natais. Passei a ser, como ele me dissera anos antes, o próximo que subia a escada da trincheira. É inevitável, mas nunca, verdadeiramente, nos habituamos.
E la nave va
Cumprimentos
Digo muitas vezes ao meu irmão que agora somos nós a linha da frente. Até quando Deus quiser. Boa semana, Fernando.
Muito obrigado pela atenção, óptima senana, também
Texto maravilhoso. Escreveu aquilo mesmo que sinto. Obrigada por isso
Sou eu quem agradece.
Cara Maria Dulce Fernandes…
“A Christmas Carol”?
Cumprimentos.
João Barros da Costa