"ROMPER COM A UNIÃO EUROPEIA", JÁ!
Os pequenos partidos dizem-se "excluídos" do debate público. Os pequenos partidos queixam-se de que ninguém quer ouvi-los. Os pequenos partidos reclamam-se como autores de propostas inovadoras e capazes de combater com eficácia a abstenção.
Os pequenos partidos exigem tempo de antena.
Pois a SIC Notícias deu-lhes tempo de antena. Um generoso tempo de antena, diga-se. Na terça-feira da semana passada, vi parte de um longo debate entre os cabeças de lista de alguns desses partidos. Ainda esperei ver lá também a Laurinda Alves, do novíssimo MEP, que primou pela ausência. Ignoro porquê. Mas os que estavam chegaram e sobraram para sobressaltar o mais pachorrento dos telespectadores.
Carmelinda Pereira – do POUS, partido recordista absoluto de derrotas eleitorais em Portugal – candidata-se ao Parlamento Europeu porque concluiu ser urgente "romper com a União Europeia". Orlando Alves, do MRPP, avança por este motivo: "É preciso gente de fato-de-macaco na Europa." Pedro Quartin Graça, do MPT, desviou-se de Bruxelas para o rectângulo português preconizando que "a população deve regressar ao interior, nem que sejam os imigrantes". O que lhe valeu um pronto remoque de Humberto Nuno, do PNR: "O que interessa, sobretudo, é um Portugal dos portugueses e não um Portugal dos estrangeiros." Luís Filipe Guerra, do PH, dava esta estimulante achega: "Os fluxos migratórios regulam-se como os mercados de capitais." E mais esta: "No futuro não pode haver trabalho subordinado. Tem de haver sobretudo colaboração entre iguais." O que fez entusiasmar Carmelinda: "Os trabalhadores têm o direito de controlar a gestão das empresas!"
O "debate" atingiu o zénite quando Orlando Alves, em tom grave e sombrio, lançou a seguinte advertência: "Estamos mais perto da guerra do que alguma vez pensámos." Para justificar tão negro vaticínio, levantou a ponta do véu: "Basta ver que a relação de forças a nível dos Estados Unidos e da China está a sofrer alterações muito plausíveis."
A tal ponto plausível que logo eu, que tinha fugido de um daqueles intermináveis debates sobre pontapé-na-bola, tratei de zapar da SIC N, procurando refúgio no tal canal concorrente em que se discutia se o árbitro X tinha roubado o clube W num jogo passado em milnovecentos-e-troca-o-passo. Mas antes ainda ouvi uma última proclamação da camarada Carmelinda, candidata da "classe operária": "Precisamos da cooperação solidária de outros governos, de Espanha, da Europa e do mundo."
Extraordinário: primeiro pretende-se "romper" com a UE, depois exige-se a "cooperação solidária" da Europa. Bastam pequenos minutos de intervalo para defender tudo e o seu contrário.
Ainda bem que podemos contar com os pequenos partidos para o "debate" sobre a Europa. Ainda hei-de saber também qual é a opinião da Laurinda Alves. Se a guerra entre Washington e Pequim não começar antes, como o precatado camarada Orlando avisou.



Aproveitando a tua achega naquela altura (na sequência do diálogo aqui travado), aquilo parecia mais um concurso à melhor frase do ano!
Perante aquelas cenas, razão tem Vital Moreira: a campanha para o Parlamento Europeu deve ser só para debater temas europeus. Como seja a renovação da maioria socialista nas próximas legislativas…
Ehehehehe! Isso ainda vai dar pano para muitas mangas, lá mais para o segundo semestre, compadre.
O que esse debate me sugeriu foi um desabafo triste: Se o xaile está mau, as franjas não estão nada melhores. Haja Deus!
:))
Essa frase é um excelente resumo do debate, Maria do Sol.
Oh Pedro Correia: Estão todos todos na RTP1. Por sorteio a Carmelinda abre o debate e a Laurinda fecha! Mas a Carmelinda começou a dizer qualquer coisa sobre acabarem fisicamente com os trabalhadores (não sei se foi exactamente assim) que mudei.
🙂
Sortuda. Já eu não posso mudar porque depois vou escrever sobre o blablá europar(a)lamentar.
Boa sorte e muita paciência. A sério. E sou sortuda sim, porque depois posso lê-lo …
:)))
Delirante, absolutamente delirante, o que eu me ri (devia chorar bem sei) a ler isto.
O melhor é mesmo rir, Ariel.
Parece que a Laurinda A. «declinou o convite», pelo que foi dito no iníco do programa.
Quanto ao debate – inenarrável.
Joana: confesso que sou um incorrigível idealista. Sintonizei o debate na expectativa de que algum daqueles candidatos me convencesse, como tenho feito tantas outras vezes. Frustração total: nenhum se aproximou disso. Os ‘pequenos’ têm os defeitos dos grandes – e mais alguns.
Brilhante, em particular a do fato-macaco! Finalmente a voz do povo!
Ninguém há-de calar a voz da classe operária! (tirando eventualmente a III Guerra Mundial)
O problema é que somo quase todos operários, embora não tenhamos a consciência disso.
Hoje estamos quase todos proletários.
Como não vi o debate da SIC, hoje terei oportunidade de ver na RTP ( enquanto aguentar…).
De qualquer modo a RTP na sua programação desta noite já lança o aviso para o que pode sair dali. Simbolicamente, colocou programas a anteceder o debate, cujos títulos são muito elucidativos:
“Cuidado com a Língua” e “Duelo Final”. E há, ainda o “Notas Soltas” que deve servir de resumo ao qu se irá passra num debate com 13 candidatos. Ou 12, caso Laurinda Alves volte a não comparecer, por ser supersticiosa e não se sentar em mesas de 13 pessoas.
A Laurinda lá está, Carlos. E até é ela a encerrar o debate. A coisa promete.
Boa sorte… Eu só aguentei as duas primeiras frases da Carmelinda!
:))
Fora as considerações brilhantes sobre as frases e que dispensam comentários extra, fica sempre a pergunta habitual em mim: como é que um país que defende a saída da UE pode ser candidato às eleições para o PE? E isto vale também para partidos que lá estão representados, claro…
É uma excelente pergunta, João.
O Pedro admita que o formato do debate inviabiliza qualquer racionalidade : estivesse lá o maior génio, no mínimo passaria incógnito. Suspeito que a Laurinda Alves fez bem em não aparecer.
Abraço
Caro João: se o problema era do formato, neste debate da SIC N, então não sei o que se passará esta noite, no debate da RTP, conduzido pela Fátima CF, que promete juntar os TREZE cabeças de lista. “O maior debate eleitoral de sempre”, disse a Fátima. Lá está a Laurinda, desta vez. Não parece ser supersticiosa.
Pois…embora com roupagens mais humildes, os pequenos a fazerem o que os crescidos fazem e não admira, afinal até Pacheco Pereira começou no PCP-ML.
Pois claro. Isto anda tudo ligado. Começa-se no ML (PCP) e acaba-se na MFL. Foi só juntar mais uma letra.
Mas tb temos qualidade nos pequenos partidos. Ouvir o Pedro Arroja e o Paulo Sande é um regalo. São civilizados, sabem falar e são uma mais valia para o debate. Já os representantes dos grandes segundo li, gritaram até mais não uns com os outros , falando ao mesmo tempo sem qualquer pudor ou respeito pelos telespectador. Cá por mim, que não vou votar, é-me igual. Para demagogos e pançudos chegam-me os da assembleia nacional.
Erro cronológico seu. Aqui falamos da campanha europeia realizada dez anos antes.