Europeias (3)


Patrícia Reis,

  

 

GENTE DE POUCA FÉ

 

Ao apostarem nas melhores figuras das suas bancadas parlamentares para as eleições europeias, PSD e CDS revelam implicitamente que não depositam grande esperança numa vitória nas legislativas que lhes permita reeditar a coligação governativa 2002-05. Prescindir a um tempo de Paulo Rangel, que tem confirmado como líder parlamentar dos sociais-democratas as qualidades de tribuno que já antes demonstrara, e da dupla Nuno Melo-Diogo Feio, democratas-cristãos que são dois dos melhores deputados em São Bento, é indício de pouca fé dos católicos Manuela Ferreira Leite e Paulo Portas, mais apostados num brilharete nestas europeias – onde, por norma, os partidos da oposição costumam capitalizar votos – do que numa onda avassaladora que afaste José Sócrates do poder lá para Outubro. No fundo, por ironia, ambos desejam um acentuado crescimento da esquerda – único factor decisivo, segundo as sondagens, para retirar a maioria absoluta ao PS. O problema é que a esquerda tem receitas alternativas – boas ou más, o que constitui matéria para outra discussão – enquanto por parte da presidente do PSD só se conhece a sua obsessão pelo défice e a sua firme oposição actual ao TGV. Que haverá nela, verdadeiramente, de alternativa a Sócrates que possa incutir alguma esperança aos portugueses?

A resposta é-nos fornecida pela própria ex-ministra das Finanças: se ela pensasse seriamente vir a ser poder daqui a seis meses, não despacharia agora para Bruxelas o deputado que escolheu em Junho de 2008 para liderar a bancada do seu partido. Há gestos que valem mais que mil palavras.

16 comentários em “Europeias (3)”

  1. Uma excelentíssima receita alternativa das esquerdas e da reconfiguração da esquerda e dos debates da esquerda e das políticas de esquerda é aquele poeta do tiro-aos-pratos, um que costuma usar óculos escuros no plenário da A.R.

  2. Quem a D. MFL devia ter mandado para Bruxelas era o Santana Lopes, lá isso é que era.

    Mais a sério, poderá ser que, numa lista de deputados que tenha o «dedo» dela, arranje com mais facilidade que da outra vez um novo líder parlamentar (se bem me recordo, Rangel até estava com o mandato de deputado suspenso).

    Mas que Rangel tem sido, ao contrário de vários vice-presidentes do PSD, que não atinam, uma boa ou mesmo excelente escolha (como líder parlamentar, com um desempenho que tem melhorado a olhos vistos), com isso concordo.

  3. Oh…
    Esta gente joga xadrez, não é?
    E depois de tanta coreografia, de esquiva esgrima e de tais jogos, em que acreditar?
    Falar de ‘fé’ nestes meandros é risível (mas eu tinha-a) e perspectivas assim lançam cada vez mais os cidadãos para tudo o que os distraia destes palcos.

    1. Margarida,
      Pelo contrário – acho que o problema da actual direcção do PSD é não ter lá ninguém que saiba jogar xadrez. Além de pretenderem só converter os já convertidos, o que demonstra também não terem muitos conhecimentos literários, nem sequer da Bíblia.

      1. … tá a ver porque prefiro ficar quietinha no meu canto a recitar versos e a apaixonar-me por aí?!
        É que nestas coisas não acerto uma! (e nas outras, sabe Deus…)

  4. Não pertenço ao PSD (nem a outro partido, aliás) mas preocupa-me este desequilíbrio de forças que a agonia lenta do PSD está a causar. Era um partido importante de mais para não se notar a sua ausência (ou impotência, pelo menos) no jogo político. Nem com fé lá vai, Pedro.

  5. Excelente post. Concordo. Também a mim me faz imensa confusão a escolha do CDS, agora corroborada pela do PSD.

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