BE: ‘AUSCULTAÇÃO DOS POVOS’
Li o programa do Bloco de Esquerda às eleições europeias.
Principais propostas:
– Um novo Tratado Europeu, em moldes democráticos
– Um Pacto para o Emprego e o Desenvolvimento sustentável
– Um Banco Central Europeu democraticamente escrutinado
– Instituição do princípio do rendimento mínimo europeu
– Política europeia de gestão de fluxos migratórios: reconhecimento da mobilidade como um direito humano
– Um contrato mundial que ‘nivele por cima os direitos dos trabalhadores’
– Reatamento das negociações para o desarmamento nuclear
– Saída de Portugal da NATO
Comentários:
1. O programa do BE é, de todo os que li até agora, o único que distingue o sexo (ou deverei dizer o género?) dos destinatários, compartimentando-os em "eleitores e eleitoras". Parece-me bem. Mas é de bom tom as senhoras virem mencionadas em primeiro lugar.
2. Tal como o PCP, o BE não isenta nenhum responsável nem nenhuma força política da actual crise. Na linha do PCP, seu parceiro de família política europeia, o BE aponta o dedo acusador ao ‘neoliberalismo’ e ao mercado de capitais. Mas o tradicional jargão marxista é aqui suavizado: o BE já distingue século XIX de século XXI. E ao contrário dos comunistas, que vêem ‘direita’ em tudo quanto mexe, os bloquistas também atribuem culpas ao ‘centro-esquerda’. Reconhecem que há mais esquerda além deles próprios.
3. O BE tem as suas próprias expressões-fétiche. Expressões pomposas como ‘espiral recessiva’, ‘exigência ambiental, ‘auscultação dos povos’, ‘refundação democrática e social do projecto europeu’.
4. Acusa-se o Banco Central Europeu de ‘autismo’. Termo politicamente incorrecto. Do Bloco, esperava-se outra cultura semântica.
5. Lê-se aqui, em amáveis entrelinhas, um insuspeito elogio a Sarkozy: "A maioria dos líderes e Durão Barroso invectivam a França porque esta quer condicionar os apoios públicos ao sector automóvel à manutenção dos empregos e à garantia de que novas fábricas para carros menos poluentes se instalem no país." Razão têm os comunistas em suspeitarem do reformismo bloquista…
6. Único vestígio da esquerda radical neste programa que poderia ser subscrito por qualquer militante da esquerda assistencialista e franciscana: a saída de Portugal da NATO. Confirma-se: a ‘revolução permanente’ sonhada por Trotsky está morta e enterrada.
7. O BE distingue-se claramente das teses soberanistas do PCP, proclamando-se ‘europeísta’.
8. Gosto de um subtítulo do programa, todo modernaço: "O Tratado de Lisboa já era".
9. O BE fala imenso em distribuição de riqueza. Mas fala muito menos em produção de riqueza. Quadratura do círculo: como distribuir o que não se produz? Recorrer a ambiciosas políticas de protecção social aumentando apenas as taxas nas operações de especulação bolsista é manifestamente insuficiente para qualquer pessoa que saiba somar dois e dois.
10. Ao contrário da maioria dos restantes, este é na verdade um programa eleitoral feito a pensar na Europa e nas europeias sem deixar de pensar em Portugal. Concorde-se ou discorde-se, há que reconhecer isto.


Pedro,
visto a campanha estar a acabar, aproveito para lhe dar os parabéns por esta “cobertura” das eleições europeias. Tal como já referi no meu “poiso” o Pedro foi, de longe, o melhor blogger desta campanha.
Quero apenas deixar uma sugestão de leitura. Como estudante de Ciência Política, um dos fenómenos mais interessantes foi o facto de surgirem dois novos partidos. A comparação entre as suas candidaturas é muito curiosa. Está aqui o link: http://tijolo-com-tijolo.blogspot.com/se arch/label/Europeias2009.
Obrigado pelas suas palavras, Pedro. E pela ligação que me envia: suponho que me será útil.
Abraço
Pedro, mais uma vez os sinceros Parabéns, pena que não tenha podido estar no e09,pois as suas análises têm sido uma mais valia nesta campanha eleitoral.
Não é graxa,pois não tenho feitio para isso,mas com estes textos contribuiu,e muito, para o esclarecimento do que está em causa.
Quanto ao BE, penso que o seu ponto 9 resume a problemática dos partidos de esquerda:
“O BE fala imenso em distribuição de riqueza. Mas fala muito menos em produção de riqueza. Quadratura do círculo: como distribuir o que não se produz?”
grande abraço
Também acho que o ponto essencial é esse, Pedro. Lamento, de facto, não poder ter-me associado ao projecto. Quem sabe se isso não poderá acontecer, com um projecto semelhante, num futuro próximo?
Um abraço
Mais um notável e utilíssimo resumo, Pedro.
Quanto ao Bloco, os teus comentários confirmam o que há muito venho constatando: é o partido mais sério, coeso e bem estruturado de todos os que temos à disposição para as eleições deste ano. Só tenho pena de não concordar com os bloquistas nas questões de fundo, o que seria fundamental para levarem o meu voto. É claro que têm a vantagem de nunca terem estado no poder e por isso não terem o desgaste inerente à exposição nem o confronto, normalmente fatal, entre promessas e obras. Mas o que vejo é que, neste pântano partidário, estão a ganhar cada vez mais força.
Um detalhe: não sou muito sensível à distinção de género (ou sexo), que me parece mais um truque politicamente correcto.
Este programa do BE, como refiro, oferece-nos propostas concretas sobre uma determinada visão da Europa – concordemos com ela ou não, Ana. Há mérito nisso, sobretudo quando comparamos com outros programas de outros partidos, que pouco ou quase nada dizem sobre a matéria.
Como já assinalei no DO várias vezes, sou muito sensível ao bom trato. «Eleitores e eleitoras» afugenta-me imediatamente do BE. Chamem-me conservador, se quiserem…
Já agora, o seguinte: se atendermos às tendências europeias e se estas se confirmarem, podemos concluir que os bloquistas podem ser muito europeístas, mas tudo indica que os europeus são pouco ‘bloqueus’.
Pois, como se verá na noite do dia 7.
Percebo o dilema do Bloco, compadre: se tudo é igualitário, quem virá em primeiro lugar? Talvez usando o método da moeda ao ar. Presumo que tenha sido isso mesmo que aconteceu.
Sim, a moeda ao ar deve ter sido a solução para os igualitários do BE. Para os igualitários e as igualitárias…
Direi mesmo mais: para as igualitárias e os igualitários.
Ou isso. Hehe…
Pedro Correia, dou-lhe os meus parabéns pela paciência que teve em ler todos os programas, de todos os partidos, às eleições europeias.
Obrigada pelos seus treze artigos, que foram mais elucidativos que todas as campanhas eleitorais juntas.
VOTO no Pedro Correia, porque foi um excelênte crítico de todos os programas.
VOTO no Pedro Correia, porque é o único candidato a conhecer o programa de todos os partidos.
VOTO no Pedro Correia pela lucidez demonstrada em toda esta campanha!
Bom fim de semana.
E eu voto em si, excelente leitora.
Peço desculpa
O comentário anterior era para o Europeias (43).