Europeias (9)


Patrícia Reis,

 

  

O "PROGRESSO" TERMINOU EM 1976

 

O Partido Comunista Português tem uma maneira muito peculiar de reescrever os acontecimentos. Há 35 anos, segundo o PCP, a "ditadura fascista" era derrubada por um golpe militar a que se seguiu de imediato um "levantamento popular", alicerçado na "aliança povo/Movimento das Forças Armadas". Qualquer arremedo de história redunda em puro mito nesta redução dos acontecimentos à medida exacta da cartilha ideológica. Uma armadilha intelectual que parece não provocar qualquer sobressalto no PCP. Para o partido de Carlos Carvalhas, Jerónimo de Sousa, Domingos Abrantes, Ruben de Carvalho, Vìtor Dias e Odete Santos, "a Revolução de Abril – com as seus avanços e conquistas políticas, económicas, sociais, culturais, civilizacionais – afirmou-se como o momento mais luminoso da História de Portugal". É neste tom empolgado que a descreve o último editorial do Avante!

Pena o "progresso histórico", tal como os comunistas o concebem, ter parado em 1976. De então para cá, e fazendo ainda fé no órgão central do PCP, a "contra-revolução" passou a dominar tudo – desde o primeiro governo de Mário Soares até hoje. Trinta e três anos de retrocesso, em que todos os governos, sem excepção, foram "vendendo pedaços da independência e da soberania nacional, numa postura de total submissão ao imperialismo norte-americano e à sua sucursal que dá pelo nome de União Europeia".

Este editorial diz tudo sobre a actual posição do PCP, que deixou de ser um partido internacionalista para ancorar nos lugares-comuns mais estafados da retórica nacionalista, à semelhança do que proclama a direita radical eurocéptica, como a Libertas, do irlandês Declan Ganley, ou a Liga das Famílias Polacas. Resta perguntar: se a União Europeia é mera "sucursal do imperalismo norte-americano", por que motivo os comunistas pretendem ser sufragados para Bruxelas no dia 7 de Junho?

12 comentários em “Europeias (9)”

  1. É verdade, e a camarada Odete, que anunciou que o fim do capitalismo estava para breve, será que já o viu chegar a Santa Apolónia?

  2. Ainda se fosse “vendendo pedaços da independência e da soberania nacional, numa postura de total submissão ao imperialismo soviético e à sua sucursal que dá pelo nome de URSS”, eles apoiavam.

    Há apenas uma coisa que me faz hesitar em ir ou não votar: é que sinto que se tem de ir votar em qualquer outra coisa que não nhurros.

  3. Pedro:

    A coerência, é algo, que falta, a muita gente, e em relação, a concorrerem, ás eleições europeias, (comunistas) eles devem essa explicação aos Portugueses desde o Século passado.
    Penso que a explicação está no Porreiro, pá ou então que sem eles lá o imperialimo faria a desbunda toda.

  4. “…por que motivo os comunistas pretendem ser sufragados para Bruxelas no dia 7 de Junho?

    Pela mesma razão pela qual querem ser sufragados para S. Bento. Num caso não aceitam a “Europa capitalista” e no outro a “democracia burguesa”. Em ambos não aceitam o capitalismo. Não há qualquer mistério, a pergunta é retórica.

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