Expresso do Oriente (1)


Ana Vidal,

 

Faço a mala com a expectativa e a excitação que em mim sempre antecedem as grandes viagens, despindo do espírito todos os pesos e amarras para que fique a condizer com a roupa que levo: só algodões e linhos, tudo muito leve, fresco e cómodo. Vou para o longínquo Oriente – Tailândia e Camboja –  onde o calor não dá tréguas, apesar da estação seca que começa agora. Levo uma mala grande mas meio vazia, sabendo de antemão que voltará bem cheia, dessas paragens onde as tentações consumistas são tão fortes como quase inconsequentes no orçamento. Um perigo, portanto. Junto-lhe, depois de uma última verificação, o imprescindível repelente de insectos (sou uma vítima habitual), o meu Ipod (para além de companhia no avião, tenho a secreta vontade de entrar em Angkor Wat a ouvir Beethoven), alguns medicamentos SOS e um livro que me faça esquecer as longas horas das viagens aéreas, já que não vou ter tempo para grandes leituras quando lá chegar. A escolha não é difícil e parece-me adequada: os Contos Orientais de Marguerite Yourcenar, pérolas clássicas que constituirão uma perfeita e suave antecâmara ao desafio que me aguarda do outro lado do mundo. Resolvo alguns assuntos de última hora e almoço com um querido amigo, embaixador em Bangkok por muitos anos e agora reformado, que me dá preciosas dicas e me enche de recomendações importantes. Tudo a postos, respiro fundo e estou pronta a começar a aventura. Primeira escala: Paris. A morrinha cinzenta do costume, a lembrar-me de que o charme também pode ser um suspiro e um arrepio de frio. Mas adiante. É tudo isso que deixo para trás, em troca de uma luz dourada e de um calor abrasador. Mas, sobretudo, em troca do desafio da eterna pergunta: o que será que me espera por lá? Pergunta que, aliás, engloba sempre o seu reverso: o que espero eu do que me espera? Se é verdade que todas as viagens são interiores, em busca de nós próprios (Pessoa dixit), desconfio de que esta me vai dar algumas respostas importantes. É com tudo isto fervilhando na cabeça que entro no enorme airbus da Air France, com a sensação de entrar numa espécie de máquina do tempo: começo a viagem em 2009, mas, quando chegar ao meu destino, o calendário dir-me-á que estou no ano de 2552.

 

(cont.)

20 comentários em “Expresso do Oriente (1)”

    1. Obrigada, Teresa. Esta é a parte fácil. Nunca conseguirei por em palavras tudo o que vi e, sobretudo, tudo o que senti. O Oriente pode vir a tornar-se num vício muito sério… 🙂

  1. Tentei curar a paixão pelo Oriente, com outra paixão: a América Latina. Não curei. Ficou apenas adormecida e reaviva-se cada vez que lá volto ( Macau é a excepção. Já não gosto nada daquilo).
    Hoje tenho duas paixões e uma certeza. A Europa- apesar de toda a sua História, a sua qualidade de vida, o seu glamour- já não me empolga nem faz sonhar. Está esclerosada, velha e decrépita.
    Fico a aguardar, ansiosamente, a continuação do relato, Ana

    1. Vou tentar, Marco Paulo… 😉
      E tem graça ler-te porque eu disse quase o mesmo ao nosso Coutinho Ribeiro, que está com um vírus nos olhos: eu também vim de lá com um vírus nos olhos. Chama-se Oriente e não creio que tenha cura.

      1. Embora tenha dois amores, a minha voz é de cana rachada e já nem serve para cantar no duche, Ana.
        Queres saber uma coisa? Uma semana depois de chegar a Macau também apanhei um vírus nos olhos e andei com um olho à Camões durante quase um mês.

  2. Olá Ana, seja bem-vinda.
    Que bom embarcar consigo no “Expresso do Oriente” (a minha viagem possível) – aguardo os próximos capítulos como convém – com “calma”…;))

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *