Expressões que detesto (16)


Pedro Correia,

 

“BOA CONTINUAÇÃO”

72 comentários em “Expressões que detesto (16)”

  1. “Boa continuação” é o beijo na testa da língua portuguesa: finge que é carinho, mas é só o desejo de te ver pelas costas.
    É a expressão dos que estão sempre no meio-termo, dos mornos.
    Não é um Vai com Deus, que implica um bocadinho de misticismo ou fé.
    É apenas a glorificação do tédio

  2. Expressão informal bastante comum na língua francesa.
    O poder ser usada em múltiplos contextos é a razão do apreço.

  3. É algo deprimente as pessoas do Sul de Portugal criticarem expressões próprias do Norte, como essa. Todos os dias, por volta das 8 da manhã, há uns “humoristas” da rádio pública que gozam com o “hoije” de Dr. Montenegro uns 30 segundos antes da “jornalista” Eduarda Maio dizer “óntem”. Se é para embirrar, então embirre-se com eles não distinguirem o presente e o pretérito na segunda pessoa do plural nos verbos da primeira conjugação (dizer ficamos e ficámos da mesma maneira). Essa, concedo, enerva-me um bocado

    1. Meu Deus. Que tragédia shakespeariana. O sofrimento do sotaque.
      Deprimente, deprimente é a indignação com a pronúncia de uma vogal na rádio pública às 8 da manhã. Uns humoristas de Estado a gozar com o “hoije” de um político é o nível máximo da depressão.
      Mas o que enerva a sério, o que rói mesmo a alma, é a conjugação do pretérito/presente na segunda pessoa do plural. Porra. O país a arder, os jovens a emigrar, a habitação inalcançável, e ninguém na trincheira gramatical, de punho erguido, a defender o acento tónico da primeira conjugação.
      Se calhar é melhor aceitar que a vida é curta e as pessoas falam mal, mas isso não é deprimente. A obsessão pela sílaba é que é.

        1. Quer dizer, anda a malta a fazer doutoramentos em trollice e a dedicar a vida à arte sublime de “comentador de blogue” para vir um iluminado, e despachar tudo com “iliteracia”?
          Francamente, se o maior problema da nação é a gramática num blogue, estamos ótimos. É que o blogue está aqui é para desancar na empáfia, não para a alimentar.

  4. Parece-me a versão “português suave” do “hasta la vista, baby!”… Ou então um eufemismo para “ala, que já se faz tarde”…

  5. Triste…

    Actualmente, uma qualquer «máquina de IA» faz melhor. Melhor, do que, sobre as palavras e a linguagem, só se conseguir interpretar em termos de «norte/sul», «explícito/implícito».

    O Impronuncialismo, o que constacta nessa expressão é o seguinte: — «Com a Modéstia evidencio-me. Com a Humildade conquisto. Com a Virtude oprimo. Com a Verdade engano. Com a Certeza iludo. Com a Dúvida penetro.

    1. Ah, então é uma variante do duplipensar? Ou será talvez o duplipensar uma manifestação do Impronuncialismo? De qualquer maneira, duplipensa.

      1. Orwell estava enganado, ao escrever isso no “1984”.
        Pois, para a “Associação Brasileira dos Direitos Humanos” (ANDHEP), passo a citar: “o duplipensamento ajuda a compreender os caminhos e descaminhos da democracia”.

        “… O poder de manter, ao mesmo tempo, duas crenças contraditórias na mente … defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e, ainda assim, acreditar em ambas … não ser ciência alguma a contradição entre crenças…” (G. Orwell)

        Mas não é só aí que o erro de Orwell encontra eco.

        Por exemplo, se recuarmos uns milhares de anos no viver humano — ou se visitarmos, hoje mesmo, a excelente exposição do Museu do Oriente (“Japão: festas e rituais”) — verificamos que as casas tradicionais japonesas, lado a lado, dentro delas, possuem dois altares. Cada qual dedicado, ao mesmo tempo, a duas crenças diferentes e em muitos aspectos contraditórias. Um altar para o culto xintoísta (a «kami») e um altar para o culto budista (a «hotoke»). No xintoísmo veneram-se as energias e os objectos-matérias do universo, sem imagens nem figuras ou palavras. E, no budismo, veneram-se imagens, as figuras e as narrativas que representam os antepassados e o mundo humano e social.

        Logo, Orwell não compreendeu como a contradição, a dúvida, a incerteza, a duplicidade, o simulacro, etc., são essenciais à compreensão do que quer que seja.

      2. No Impronuncialismo, é muito pior do que no “duplipensamento”.
        No Impronuncialismo, copio-me a mim-mesmo (enquanto método) para me poder compreender de fora. E assim progredir no nível de abstração, complexidade e conhecimento que conduzirão ao objectivo de alcançar a propriedade SAP3i.

  6. E por que razão detesta? Parece expressão adequada a quem deseja que aquilo que o(s) outro(s) está a viver e se supõe seja bom (ou ele o afirma como tal), continue assim.

  7. Uma boa continuação é o que eu desejo
    ao DELITO DE OPINIÃO.

    Uma boa continuação é o que eu desejo
    a todas as pessoas que escrevem
    no DELITO DE OPINIÃO.

    O DELITO DE OPINIÃO é um dos melhores
    blogues de blogs.sapo.pt, daí os resultados
    que tem tido no número de comentários
    e de visualizações. Lamento que algumas
    se limitem a visualizar e não comentem.
    Todas as pessoas têm opiniões e o direito
    de as expressar. Não tenham medo.

    Este é um espaço de Liberdade.

    Façam coisas extraordinárias.

    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

  8. Uma das expressões que detesto é : é o que é ! – implica resignação, desesperança e falta de ambição.

      1. É o que é: igual a aceitação, conformismo, que também se pode resumir a é a puta da vida.
        Até me admiro o Pedro Correia não saber.

            1. Totalmente de acordo.
              A nulidade é a aceitação do status quo (seja o ‘mercado’ liberal, a fé religiosa, o ‘silêncio’ de Wittgenstein, a certeza ideológica, ou a verdade definitiva, e assim sucessivamente).

              Camus até disse que “o verdadeiro ser-humano é aquele que recusa ser o que é”.

      2. “As coisas são o que são”.
        Maneira de dizer que há que encarar a realidade. Ignorá-la ou fugir-lh não costuma dar bom resultado.

  9. Para quê, os ‘humanos’ (as/xs) continuarem a escrever, se não se entendem quanto ao que escrevem?
    Para quê escrever, se já está tudo dito, por estar tudo fechado dentro da lógica de aquilo que é o tal ‘ser-humano’?
    Haverá alguma coisa pronunciável ou escrevível que já não tenha ocorrido?

      1. Não foi (o sempre citado) Wittgenstein que nos condenou ao “silêncio” no Tractatus: “Acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio” (6.54)?

        Julgo que é possível uma metalinguagem, acima do nível cognitivo a que as palavras actualmente subjugam o ser-humano.

  10. Pois no sítio onde eu vivo é useiro as pessoas despedirem-se com um “vá”: Então vá, até amanhã”, “Vá, depois falamos”.
    A sério. Parece que estão a conduzir as vacas para o pasto. É ou não é de uma deselegância deprimente? Não me lembro de já ouvi “Vá, boa continuação”, mas é muito possível, o estilo concorda.

      1. Exactamente, uma expressão de desdém, no mínimo.
        Mas não, por aqui é usada com a maior bonomia, amigavelmente, sem sequer se aperceberem da explícita indelicadeza. Dizem-na as mães aos filhos pequenos, há afecto na coisa.

  11. Isto só mostra como o Impronuncialismo tem razão.
    Os comentários a este ‘post’ demonstram que para se viver com qualidade e prazer é necessário fugir dos pronunciadores de palavras.
    Os literatos do palavreado são o pior da humanidade.
    Se há livro publicado em português que melhor acolhe esta tribo da palavra é o ‘Dicionário da Narratologia’.

  12. Enquanto fórmula de despedida, pode aparecer apenas com uma única palavra: “Continuação”.
    Deixando subentendido, conforme as circunstâncias: “de bom dia”, “de bom trabalho”, “de boa viagem”, “de bom almoço”, etc.

  13. Boa continuação está na linha do novo normal ou do chão comum. Horríveis. Deviam ser banidas
    Tamos de acordo, falemos como deve de ser.

  14. Continuidade … para onde, e até quando?

    O que decidis: a “continuação” ou o fim?

    Já decidiram qual vai ser a última letra que vão escrever, e o último fonema que vão soletrar, quando o corpo fenecer? Será apenas um borrão e um ruído? Tudo se esvairá num tremor biomecânico, num colapso dos tecidos, e num rugir de fluídos?

    Imaginem qual vai ser essa última palavra que pronunciareis, e essa última letra que escrevereis. E ponham-nas aqui, sem receio ou vergonha. Antecipem-nas.

    Faça-se a conta. Quantos querem continuar? A maior parte não acha que vai morrer?

    1. Mas o que é que tem a ver com isso? Você faz muitas perguntas… Não me diga que também é ex-KGB como o Czar Careca ou o Cirilo Maléfico e ficou com deformação profissional dos interrogatórios.
      Ou é taxista? Também não se lhes pode dar confiança, começam logo a querer saber de mais.

      1. É já a sua consciência a perturbar-lhe o discernimento.
        Quando se começa nessa escalada de adjectivações a tudo e a todos, é porque algo se quebrou dentro da pessoa.
        Pergunte-lhe a ela, à sua consciência, qual é a opinião que tem de si.

        1. Bem, eu pelo menos tenho discernimento e uma consciência privada a que pedir opiniões; não está diluída em consciências de classe ou noutros “colectivos” que opinem por mim, para esconder a incapacidade de ter pensamento próprio no conforto da “manada”.

          E depois de a minha consciência me responder, presumo que queira que lhe faça um relatório detalhado? Pois é, cheira-me cada vez mais a aleijão pidesco disfarçado de psicanalista de teleconsulta…
          Não se quebrou nada dentro da pessoa, faz logo um dramalhão por causa dos ex-KGB sociopatas, como se fosse alguma mentira difamatória – como se não fossem de facto ex-KGB, um deles careca e aspirante a czar neo-imperialista, e o outro um Patriarca tão anti-cristão que taxá-lo de maléfico é até eufemismo. É a feia verdade.
          Mas quem o feio ama bonito gostava que fosse, não é? Por repulsivo que seja, como é o caso da parelha de ex-KGB Careca&Maléfico.

          E até que nem me importaria de lhe comunicar qual é a opinião que a minha consciência tem de si. Acontece é que decai no Impronuncialismo Adjectivante, e convém manter o nível.

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