Qual a autenticidade daqueles sentimentos, tão inflamados? – pensa enquanto se detém, à saída do café, para apagar o sms que acaba de receber. Se tivesse sido outro, com a mesma arte, a chegar primeiro, seria esse o contemplado – conclui com azedume enquanto elide da mente as farpas que lhe mandaram via sms.
Não, ele jamais se incomodava com o lastro de mágoa que deixava quando batia em retirada – ergue o queixo e foca os olhos no vácuo, prosseguindo o passeio solitário pela rua. Pena que não lhes pudesse explicar que não era por ele que choravam. Isso é que elas, sempre tão estereotipadas, pareciam incapazes de entender. Levanta a gola do casaco com um repelão e dirige-se ao cinema.
No fundo até gostava de as fazer sofrer – acelera o passo em direcção ao semáforo, já fechado para os peões e atravessa, desafiando o tráfego e o vento, que sopra de rajada. Era o castigo justo por cederem tão facilmente a um gajo qualquer, no caso o gajo irresistível que ele inventou, inspirado nos heróis de BD e nos galãs dos filmes, quando ainda nem tinha idade para fazer a barba. Entra e senta-se, após vistoria rápida à sala. I-rre-sis-tí-vel – soletra com um sorriso de orgulho. Qualquer uma lhe caía nos braços, bastava assim o desejar.
Áquela hora só estão seis pessoas. Três casais. Não teria dificuldade em arranjar companhia, se quisesse – apetece-lhe anunciar aos circunstantes. Era uma pessoa popular, tinha a agenda cheia de números de telemóvel. Mas a verdade é que não lhe apeteceu telefonar a ninguém.
