– Já soubeste?
– Claro, já toda a gente sabe.
– Que horror!
– Estou em choque.
– Quantos anos é que ele tinha?
– Acho que ainda não tinha feito 40.
– Diz que foi morte imediata.
– Antes assim, coitado.
– Desde que soube, ontem à noite, que ele não me sai da cabeça.
– Também. Nem dormi como deve ser.
– Afinal, pelas minhas contas, convivemos diariamente durante mais de dez anos.
– Tinha família?
– Acho que sim, um ou dois filhos.
– Por acaso tinha ideia de que vivia sozinho.
– Pois, acho que sim. Acho que estava separado.
– Coitado.
– Não consigo olhar para aquela secretária vazia.
– Nem eu.

Cena II [Com a tua licença, Teresa]
– E ali o N. anda um pouco abatido, não achas?
– Sim, há umas semanas.
– Fala pouco, mete-se nos cantos. E antes ria-se…
– Coisas lá da vida dele, não? Lá de casa?
– Quem sabe, mas daqui também: puseram-no de lado.
– E já nem come connosco…
– Pois. E o tempo cinzendo, e a chuva, também não ajudam.
– Claro. Nem eu me sinto bem.
– Por falares dele: hoje não veio. Estará doente?
– Nem eu me sinto bem. Um dia destes também meto baixa.
[Obrigada pelo espacinho.]
Escrever a quatro mãos? É sempre bom. Mas das tuas saltou um diálogo em torno de sentimentos menos fast, digo eu…
Talvez. Mas foi o que senti do teu excelente diálogo.
Fernando, quando eu digo que não são fast é porque não resultam de situações fortuitas, de incoerências e arbitrariedades. O emprateleiramento e a desmotivação no local de trabalho, que o teu texto aflora, é matéria infelizmente bem consistente e pesada.
Eu percebi, Teresa. Mas a Cena II não era para falar nem do emprateleiramento nem da desmotivação, sim de outras formas de alheamento do outro cujas consequências, apesar de trágicas, em regra não nos ensinam nada e prometem repetir-se, eternizar-se. Passei só do que é triste ao que causa estupefacção. Enfim, um tema sem dúvida pesado.
Uma crítica certeira, Teresa. Quantas vezes convivemos com pessoas durante anos e não sabemos quase nada delas…
Fast feelings, fast life.
É isso, Ana. Vivemos no meio de estranhos também por nossa culpa.