A Feira do Livro é estar sentado debaixo de um guarda-sol às listras a dar autógrafos e a comer os gelados que a minha filha Isabel me vai trazendo de uma barraquinha três editoras adiante, preocupada com as atribulações de um pai suado, de repente da idade dela, a escrever dedicatórias, de língua de fora, numa aplicação escolar. Isto não é uma queixa: gosto das pessoas, gosto que me leiam, gosto sobretudo de conhecer as pessoas que me lêem e me ajudam a sentir que não lanço ao acaso do mar garrafas com mensagens corsárias que não se sabe onde vão ter, e gosto dos romances que escrevi. Tenho orgulho neles e tenho orgulho em mim por ter sido capaz de os fazer. De modo que ali estou, satisfeito e tímido, acompanhado pelo Nelson de Matos que me pastoreia com paciência, com uma placa com o meu nome e as capas em leque à minha frente, um pouco como a sensação de vender bijuterias marroquinas nos túneis do Metropolitano do Marquês ou fatos de treino fosforescentes na Feira do Relógio, que os leitores folheiam, compram, me estendem para o selo branco, e eu em lugar de lhes explicar obsequioso e seguro que os livros não debotam nem encolhem na máquina limito-me por falta de vocação cigana a pôr a etiqueta lá dentro
(Deus sabe o que me apetece às vezes assinar Hermés ou Valentino)
e a devolvê-los com o sorriso lojista de quem garante qualidade e boa malha.
António Lobo Antunes, Livro de Crónicas
A Feira do Livro de Lisboa já está no Parque.

Sou ele, realmente!
Valentino?
Esta é uam crónicas do ALA que mais gosto, João 🙂
Prefere Yves St Laurent?
Gosta e gosta bem, Leonor. Não a substitua.
A minha intenção foi esclarecer o ‘lapso’ da Patti (hehehe…) e aproveitar a marca do costureiro para dar conta do grupo italiano que referi abaixo.
A passagem do tempo torna involuntariamente irónicos alguns trechos de certas crónicas. Acontece aqui, num pormenor: a afável referência de ALA ao Nelson de Matos. Sabendo-se hoje como Nelson de Matos ficou magoado com ele, em data posterior à crónica, por alegada falta de solidariedade quando foi afastado da Dom Quixote.
Correcção (com gargalhada pelo meio): SÓ ele, realmente!
Ah!…
Mas por falar em Valentino, está aí a estrear um filme sobre a vida dele e com a sua total participação:
“Valentino: The Last Emperor”
Aqui: http://www.youtube.com/watch?v=Na05gIgZW fQ
Uma marca que também faz parte do Grupo Fiat! A Itália é um espanto!
LOL
Também já me tinha perguntado mas quando se gosta muito dum escritor pode acontecer tornámos-nos nele 🙂
É ou não uma delícia? É difícil resistir a isto :)))
O Livro de Crónicas é um dos meus livros de cabeceira, Teresa. Nenhum depois desse, dos de crónicas, me agradou tanto
No café concerto que eu assisti no ano passado, onde ele foi entrevistado pelo Carlos Vaz Marques, perante um público vastíssimo de admiradores, disse-nos que as suas crónicas eram escrita inferior.
Tudo abismado com aquilo e todos a discordar, obviamente.
Eu derreto-me com as inconveniências dele, penso que fazem parte do seu charme.
Mas no fundo o que me interessa mais é o autor, não o homem, apesar de gostar e de admirar ambos.
Sim, ele já tinha afirmado o mesmo em entrevistas. Já tive mais paciência para ele, na verdade, mas gosto muito da escrita. Durante anos só li ALA. Depois achei que havia mais escritores no mundo e que o tempo começava a faltar-me para tantos livros. A mim interessam-me sobretudo os livros. Nos dias que correm cultiva-se demasiado o escritor.
Concordo, no outro dia ouvi uma entrevista do escritor espanhol Juan Manuel de Prada, que dizia isso mesmo: detestava o ‘euismo’, a abundância do eu de muitos escritores.
O ALA vai estar no sábado, a partir das 16.00h, a dar autógrafos na Feira do Livro. E é mesmo como ele escreveu nessa crónica, adora!
E eu agora vou-me deitar e acabar de ler o ‘Leite Derramado’ do nosso Chico, que só me faltam dez páginas.
Boa noite a todos, bom feriado e bom fim-de-semana, parece que vem aí um sol bestial!
Há dois anos na Feira do Livro lá estava o ALA mas, ao contrário do ano anterior a esse em que tinha alguns leitores à espera do autógrafo, dessa vez a fila até fazia caracol. Tudo isto porque ele tinha estado doente. Não há paciência para este endeusamento.
Ai não, Patti, essa pirraça do Leite Derramado acaba comigo 😉
Vou ter de mandá-lo vir do Brasil.
Estou bastante de acordo com isso, Leonor.
E ainda o que mais irrita não é tanto que os escritores consagrados apareçam, esse já deram provas do que são através das obras. O que me irrita são pretensos escritores com um livrinho nas livrarias a serem catapultados para um estatuto que não têm.
Chamem-me herege ou analfabeta, como quiserem, mas para mim é O melhor livro dele. O ALA supera-se nas crónicas.
E quem se atreveria a fazer uma coisa dessas, Ana?
A virtude das crónicas é que são breves, não há tanto perigo de irmos pescar quem diz o quê, página após página, o que se torna cansativo.
Não é só isso, Leonor. É o facto de o ALA ser um dos melhores cronistas que já li. E a crónica não ser um género fácil, ao contrário do que pode parecer.
Vou lá já hoje. Todos os anos vou, várias vezes. E os horários deste ano são melhores. Aquilo de noite, durante a semana, parecia uma aldeia fantasma. E não fazia sentido abrir só às 15 horas.
E eu amanhã. O Bookcrossing vai lá estar este ano.