Feliz Natal Delito


Maria Dulce Fernandes,

 

Voto de Natal
Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida…
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios?
Acende-se de novo o Presépio nas almas.
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

 

David Mourão-Ferreira, em ‘Cancioneiro de Natal’

15 comentários em “Feliz Natal Delito”

  1. Os meus, os teus, os seus, os nossos.
    Um comentário da Cristina, um recomentário da Dulce.
    Que esteja tudo bem, mesmo quando não estamos, que estejamos todos felizes, mesmo quando não estamos.
    Beijinhos, abraços e que “a vida breve”[como escreveu David, David com quem tive o privilégio de partilhar os corredores da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o cheiro adocicado do cachimbo] não seja tão breve.
    Que para o ano estejamos por cá, a comentariarmo-nos.

  2. Para si e para a sua família, votos de uma excelente quadra natalícia repleta de harmonia, amor e saúde, bem como uma boa entrada no ano 2026.

  3. Ah, a prezada Maria Dulce não brinca em serviço, belíssimo postal musical!
    E a minha sincera homenagem ao seu espírito natalício, que se prova ser do genuíno, daquele mesmo enraizado e resistente às provações… Um exemplo.

    E trago um cromo para a troca com o David Mourão-Ferreira: noutro registo, mas um dos poemas que sempre mais me tocou nesta época de tantas luzes, mas também de tantas sombras, “Natal” de Reinaldo Ferreira:

    “Neste caminho cortado
    Entre pureza e pecado
    Que chamo vida,
    Nesta vertigem de altura
    Que me absolve e depura
    De tanta queda caída,
    É que Tu nasces ainda
    Como nasceste
    Do ventre de Tua mãe.
    Bendita a Tua candura.
    Bendita a minha também.

    Mas se me perco e Te perco,
    Quando me afogo no esterco
    Do meu destino cumprido,
    À hora em que eu Te rejeito
    E sangra e dói no Teu peito
    A chaga de eu ter esquecido,
    É que Tu jazes por mim
    Como jazeste
    No colo da Tua mãe.
    Bendita a Tua amargura.
    Bendita a minha também. “

    Ainda voltaremos decerto a falar, mas como nunca é demais, cá vai: Feliz Natal!

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