
Não pode haver melhor data do que esta para um feriado verdadeiramente nacional – aquele em que se alicerça e fundamenta a nossa História.
A emancipação de Portugal ficou garantida em 5 de Outubro de 1143 num tratado firmado em Zamora por D. Afonso Henriques e D. Afonso VII, rei de Leão e Castela. O nosso primeiro monarca recusou prestar vassalagem ao vizinho, seu primo. O reino português deixava de ser condado, emergindo como nação livre e soberana.
Há quase 900 anos. Poucos países podem orgulhar-se de ter uma história tão longa, fronteiras tão estáveis e uma língua tão difundida pelo globo, embora maltratada no rectângulo europeu.
Celebremos, pois.

O verdadeiro e único 5 de Outubro que merece ser lembrado.
O outro é uma coisa em forma de assim, como diria o O’Neil
Uma coisa em forma de carbonária, de formiga branca, de tremenda redução do direito de voto, de empastelamento do tipo. Entre outros republicanos avanços civilizacionais.
Sim, de facto foi uma pena. Podíamos agora ter um monarca cadastrado como o do país aqui ao lado! A propósito, ainda anda a monte?
Monarca, por estes dias e aqui ao lado, é o filho desse. Sendo que o “cadastrado” (se o é) foi até crucial em momento ainda recente da história do Reino de Espanha, para a consolidação do regime democrático. Até o PC espanhol esteve do seu lado: Carrillo começou por chamá-lo “Juan Carlos, o Breve” e acabou a afirmar que “hoje somos todos monárquicos”. Enfim, coisas do 23 de Fevereiro de 1981.
Quanto ao resto que escreve, nem uma palavra sobre a substância do que eu indiquei a propósito dos peculiares méritos da primeira república portuguesa. E devo notar que não fui exaustivo.
Apesar do comentário subscrevo o que diz. No entanto, custar-me-ia habitar um regime onde se olha para o chefe máximo dobrando a cerviz
D. Anfonso Henriques sem dúvida uma das figuras mais míticas e interessantes de toda a nossa história. O verdadeiro (ou pelo menos o primeiro) pai da nossa pátria já que noutros nomentos figuras como D. João IV, o restaurador, foram essenciais para que ela se mantivesse de pé até hoje.
A monarquia portuguesa foi salva por dois D. João, I e IV e perdida por dois D. Manuel. I e II. Ao lado dos primeiros, duas mulheres notabilíssimas, D. Filipa de Lencastre e D. Luísa de Gusmão. Ao lado dos últimos, três sucessivas infantas de Castela sem nada que as recomende e uma princesa de uma casa mediática prussiana, prima do noivo, que dele se afastou e depois de viúva, o substituiu por um escocês de origem alemã..
Uma data que os republicanos não deviam ter colonizado, mas quiseram confundir de propósito um regime com o País. O resultado está à vista.
Fez muito bem o Pedro Correia em recordar que hoje se festeja a assinatura do Tratado de Zamora, preponderante para a independência de Portugal e para a afirmação da respectiva soberania. É uma data deveras importante, que não deve ser escamoteada e muito menos esquecida.
Mas hoje também se comemora a implantação da República, que permitiu abolir o absurdo direito sucessório por via do “sangue real”, facultando a qualquer cidadão a prerrogativa de eleição democrática para cargos de governação.
Hoje é, de facto, um dia que não pode deixar de ser assinalado e celebrado, tanto pelo Tratado de Zamora, como pela implantação da República.
E a República sofre de muitas enfermidades? Pois sofre, mas, e ainda assim, atrevo-me a “blasfemar” esta afirmação de Winston Churchill: “A Democracia é a pior forma de governo, à excepção de todas as outras”, alterando-a para isto: “A República é a pior forma de governo, à excepção de todas as outras.”
Neste dia 5 de Outubro, também não pode deixar de se homenagear algumas Mulheres que contribuíram, de forma determinante, para a causa republicana, ajudando a instituir a Democracia e a defesa dos Direitos das Mulheres, desde logo:
Ana de Castro Osório, Maria Veleda, Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete.
Liberdade, Igualdade, Fraternidade sempre!
Viva Portugal! Viva a República! Viva a Democracia!
Blasfémia, mesmo, essa remissão para Churchill. Um realista convicto.
Enfim, orgulhemo-nos então da nossa república, dessa “primeira”, do seu exemplo de democracia, estado de direito, liberdade de expressão. Dessa e das outras, como a actual, brilhante exemplo que bem deveria ser seguido pelas intrínsecas e insanavelmente anacrónicas monarquias constitucionais.
Bem podiam de facto olhar para nós. E se calhar fazem-no.
Por prudência.
“Monarquias constitucionais” para quê? Para papéis meramente cerimoniais, ainda por cima, alarvemente, pagos pelo erário público? Para alimentar as “revistas cor-de-rosa” com o pretenso glamour dos membros da Nobreza ou com os pormenores mais sórdidos respeitantes às tragédias que, muitas vezes, também a assolam?
Pelo menos na República podem substituir-se algumas figuras tristes por outras figuras que até podem ser igualmente tristes, mas na Monarquia nem isso é possível. Na Monarquia: uma vez figura triste, para sempre figura triste. Portanto, mal por mal, prefiro indubitavelmente a República. Pelo menos, podem mudar-se as figuras tristes.
Teríamos tema para, querendo, infindável troca de comentários. Mas seria troca fundamentalmente inútil, é desde já possível perceber.
De modo que, e com a devida vénia, invoco a seguinda remissão hoje feita, aqui, em “DELITO há cinco anos”. A ela é à abundante sucessão de comentários que suscitou. Alguns bem vale a pena lê-los. São extensos e claramente não seguem a sua linha de pensamento, devo desde já notar.
“São extensos e claramente não seguem a sua linha de pensamento, devo desde já notar.”
Sim? E acaso teremos que pensar todos da mesma forma? Devo dizer que nunca tive grande vocação para seguir cega e acriticamente ideias ou pessoas.
“Sim? E acaso teremos que pensar todos da mesma forma?” Não não temos. Ou não deveríamos ter, pois pelo menos quanto à questão monarquia vs república dir-se-ia que, e quanto a si, ou se pensa como a senhora ou se é pura e simplesmente desprovido de inteligência.
Se escrevi o que escrevi foi por me parecer – e tudo parece autorizar-me a dessa forma pensar – que nada haverá que altere a sua rejeição liminar, absoluta, dogmática da monarquia, tornando assim fundamentalmente inútil a minha ousadia de lhe sugerir aquelas leituras. E todavia, veja lá, há quem pense, com bem sólida fundamentação, bem mais sólida do que saberia eu aduzir e sem recorrer, como leio em si, a argumentos chocarreiros ou evidentemente e penosamente anacrónicos, de forma diferente da sua.
De facto, não temos de pensar todos da mesma.
Como não consigo acompanhar o seu brilhantismo intelectual, não me resta outra alternativa que não seja deixá-lo em solilóquio. Mas não se apoquente que falar sozinho ajuda a estruturar o pensamento. Pratico-o muitas vezes, com resultados muito satisfatórios…
Brilhantismo nenhum. Mero bom senso. Bem vê, um “pensamento estruturado”, de certa forma parafraseando-a (e muito grato), nada mais. E longe de si, minha senhora, isso de me deixar a falar sozinho, de para tanto dar motivo – seria preciso mais, creia -, como resulta claro desta nossa troca.
Mas sim, fiquemos por aqui.
A mim arrepia-me sobremaneira a ideia de alguém “nascer para a função”… Parece-me um verdadeiro atentado à livre identidade do infeliz, com tantos egrégios avós às costas e hordas de paparazzi à porta por causa de um acidente de berço.
Não estou a brincar. Já bem basta o que basta de determinismos na vida por sortes de nascimento, quanto mais ter obrigações logo à saída da maternidade por ser descendente escolhido, ou ungido (já nem sei como se dirá modernamente), para reinar sobre os outros mortais… Mesmo que constitucionalmente seja, o que só me surge como ainda mais bizarro.
É que é mesmo uma herança muito pesada, que deve ser muito difícil recusar sem culpa.
Se já dizer ao pai médico que não se quer ir para medicina, nem herdar-lhe o consultório, é o cabo dos trabalhos, o que não será recusar a coroa…
Mas enfim, a verdade é que o sistema monárquico hodierno não é a coisa absolutista e sangrenta lá das Arábias e arredores: alguns dos mais desenvolvidos e estáveis países europeus são monarquias, e até referendáveis: só o são porque o povo quer.
Até posso admitir que o sistema monárquico tenha qualidades que me escapam; mas como não consigo deixar de ver os anacronismos absurdos de uma “elite de sangue”, estou como o outro: a República é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros. Sobretudo se bem aconchegadinha pela democracia liberal…
A questão não é a República — é as suas práticas bolcheviques, a rasura e a cultura de barricada que agora até se ensina nas escolas.
> abolir o absurdo direito sucessório
Na senda do progresso imparável, a seguir vai ser abolido o absurdo conceito de nação. Os ocupantes da zona administrativa 541 devem manter-se calmos e seguir as orientações das autoridades.
Muito bem.
Celebremos, sim senhor.
Mas o quê?
O nosso imenso orgulho do passado para não ter de olhar para a vergonha do presente.
Desta vez concordo consigo.
Este país está reduzido a um mero pedinte da UE
Vá lá, caro Lopes, não fique assim triste: recebemos mais do que contribuímos, é verdade, mas também contribuímos para o bolo comum da UE com alguma coisinha – que até nem é assim tão coisinha!
Pedintes não diria, somos mais como aqueles sujeitos que não sabem gerir o dinheiro e a família lá vai tendo que dar uma ajuda… todos os meses. Daqueles que se lhes dermos uma cana de pesca a vendem ao primeiro pescador que encontrem, e com o dinheiro vão almoçar um belo peixe grelhado ao restaurante, não sei se está a ver?
Poucos países podem orgulhar-se de ter uma língua tão difundida pelo globo
Não só isso. Poucos países podem orgulhar-se de ter dentro da totalidade das suas fronteiras uma só língua e de não ter outro país vizinho no qual essa língua também é falada.
Na Europa, em particular, não há mais nenhum país assim.
Há uma significativa diferença entre os regimes saídos respectivamente do 5 de Outubro e do 25 de Abril. O primeiro causou o surgimento de Salazar, o segundo faz o possível para o legitimar.
A única coisa que o 25 de Abril legitima é que eu possa mandar o Salazar e essa teoria para o sítio do costume sem que venha a PIDE bater-me à porta. E isso, meu amigo, é uma diferença mais do que significativa. É a diferença entre ter liberdade para falar de História ou ter de a engolir calado.
Nos últimos anos do regime a censura suprimia referências a pessoas previamente indicadas e tanto à esquerda com à direita do regime. Muito passava nas páginas do Diário de Lisboa ou no Jornal do Fundão. E muito raramente era impedida a entrada de jornais e revistas estrangeiras. Então, se assinadas pelo correio, entravam livremente.
Por sua vez a PIDE apenas exercia violência sobre comunistas. O que vimos em 1974-1975 apenas mostrou que, nisso, Salazar tinha justificação.
Fui contra o regime e, especialmente, contra a política africana de Salazar, sempre falei livremente em cafés, esplanadas e transportes públicos e nunca fui chateado (admito que não poderia publicar o que dizia).
O regime tinha uma ideia política da História, especialmente para os mais jovens, minimizando até à omissão factos negativos e exaltando feitos gloriosos e heróicos. Com isso, pretendia preencher a necessidade das crianças terem referências de coragem física e moral que lhes são imprescindíveis. Tal como a religião foi substituída por milenarismos, os heróis hoje são os da Marvel, a cultura é a da violência gratuita nos videojogos e na internet, do que pior há em depravação. Vejo em si, um acabado exemplo desse niilismo que perverte e anula quaisquer qualidades inatas.
Sobre falsificação da história, a descolonização e até o 25 de Novembro, ultrapassam tudo o que foi efectivamente mau no anterior regime. E, quanto a liberdade, se no anterior regime talvez Jaime Nogueira Pinto não fosse convidado para uma palestra numa faculdade, com certeza que não seria impedido por arruaceiros travestidos de estudantes. Ou, para citar um exemplo de ontem, talvez Alexandra Leitão não pudesse ser candidata à Câmara de Lisboa, mas de certeza que não seria forçada a recolher-se sob protecção policial, por um bando de arruaceiros com lenços axadrezados ao pescoço.
Salazar dizia que era a política ultramarina dele ou seria o caos. Sempre achei que não tinha razão mas este regime deu-lha: seis ditaduras comunistas pro-soviéticas e, no que escapou um PREC prenhe de crimes que ficaram impunes. Salazar defendia a ditadura financeira, este regime chama-lhe contas certas e orgulha-se disso. Salazar criou um regime corporativo mas este regime mantém a Concertação Social. Salazar era mais anti-liberal do que anti-democrático e mantinha um controlo apertado sobre a actividade económica – Banco de Portugal, Instituto do Pão, Instituto do Azeite, Comissão Reguladora dos Produtos Químicos e Farmacêuticos, Comissão Reguladora do Comércio do Bacalhau, Junta Nacional das Frutas, Junta de Colonização Interna, etc. – de tal forma que o Partido Comunista, mantendo a estrutura mas nomeando as chefias esteve quase a dominar o país e tê-lo-ia conseguido não fossem três factores: Carlucci e as verbas que a Comissão dos Assuntos Externos do Senado lhe alocou, para contrariar Kissinger; ter perdido e maioria da esquerda militar pois os “jovens oficiais” eram avessos à disciplina partidária e emigraram para a extrema esquerda de Otelo; o desinteresse da União Soviética que, sabendo o que lhe custava Cuba, depois de obtido o que queria em África, não queria exaurir-se financeiramente a sustentar um regime comunista em Portugal.
Mas ficaram as nacionalizações do 11 de Março e foi necessário mergulhar na então CEE, numa adesão precipitada e mal negociada, para poder começar a libertar alguma economia. No entanto, ainda hoje a percentagem de funcionários e do PIB do Estado, superam o que existiu no antigo regime.
Por isso nem aprovo o anterior regime nem desejo o seu regresso, aliás impossível pois era um regime essencialmente pessoalista e, aliás, mesmo que Salazar ressuscitasse, seria totalmente inadequado à realidade actual. Mas comparo e concluo que estou pior.
“Mas comparo e concluo que estou pior.”
Claro que está pior. Está mais velho, o país mudou e a sua visão do passado é um postal ilustrado que nunca existiu. O seu texto não é uma análise. É um suspiro profundo de um saudosista que olha para o telemóvel e se queixa que a Internet não tem a ordem e disciplina da Mocidade Portuguesa.
“mas este regime deu-lha: seis ditaduras comunistas pro-soviéticas”
E adicionar 1.2 milhões de mortos a essas ditaduras.
De um ditadura conservadora nasceram 7 ditaduras socialistas. Que depois por questões geograficas/logisticas ficaram 6 mais uma democracia tutelada a caminhar para o socialismo.
Parece que há hoje por aqui alguns saudosos dos privilégio concedidos à Nobreza, durante a vigência da Monarquia em Portugal.
Segundo José Hermano Saraiva (in História de Portugal), esse perigoso “esquerdista”
, era assim:
“O mais significativo dos privilégios que a nobreza usufruía , remontando a tempos anteriores à independência de Portugal, era o de jurisdição própria, assim como o direito de homenagem: os fidalgos não estavam sujeitos à legislação comum, nem recolhiam a cadeia pública, quando acusados ou sentenciados, permanecendo na sua casa com residência fixa. Beneficiavam outrossim, da isenção de penas vis – e o mesmo acontecia quanto a pessoas de distinção, embora não fossem nobres – e da sujeição a torturas a menos quando autores de crimes que implicavam a perda da qualidade que lhes era própria. Durante largo período , foram isentos do pagamento de tributos, salvo os implicados pelo serviço que deviam ao monarca e que tinha sido prestado na hoste régia.”
E podia continuar, dando conta de outros privilégios concedidos numa Monarquia, obviamente apenas aos elementos da Nobreza…
Naquele tempo é que era bom, não era? Ah, pois era, mas era só para alguns…
Ou há aqui um equívoco, uma precipitação na ânsia de demonstrar a bondade de uma visão das coisas e a maldade intrínseca e insanável de outra, ou desonestidade argumentativa.
Afastemos esta última e, isto assente, alguém com um módico de juízo defende no tempo presente uma monarquia de há longas centenas de anos e os privilégios que concedia a alguns? É acaso isso o que se vê nas actuais monarquias europeias?
O que se via quando por cá se resolveu matar um rei?
Quanto custa ao erário público de cada Estado manter as ditas monarquias europeias? Essa manutenção apresenta algum tipo de retorno para o erário público? Que justificação racional poderá existir para manter um direito sucessório, assente na “consanguinidade”? Acaso isso valerá e bastará, por si mesmo, como garantia de competência para o exercício de algum cargo?
De alguma forma, já aqui referi esta convicção: Na República existem muitos incompetentes, pois claro que existem. Mas, e ainda assim, é possível mudar de incompetentes, coisa perfeitamente inverosímil numa monarquia. Numa monarquia até podem realizar-se algumas pequenas “operações cosméticas” face a algum dos seus membros, sobretudo destinadas a serenar os ânimos do Povo (veja-se o caso do Príncipe André de Inglaterra ou do Rei emérito Juan Carlos de Espanha), mas na verdade a maior parte dos respectivos privilégios não são fortemente afectados por eventuais “incompetências”… Fazer de conta que numa monarquia todos os seus elementos são seríssimos e competentíssimos parece-me uma incontornável uma falácia.
Transcrevo, presumindo e agradecendo o consentimento do autor, parte de um comentário abaixo, anterior, aliás, ao seu e a que agora respondo (aliás, não é dado até agora desconhecido; mas muita força têm de facto certas “verdades”, as ditas “progressistas”, desde logo):
“Note-se que, por falar em despesas, a presidência da República portuguesa teve um orçamento na casa dos 17M em 2023 versus 8,5M da casa real espanhola, ou seja, sai muito mais cara ao contribuinte português até pela diferença populacional entre os 2 países”.
A questão não será, não para mim, a essa de se ser monárquico ou republicano. Desde logo por não haver fórmulas mágicas e a perfeição ser um ideal, algo por definição inatingível. Antes a da rejeição cega, dogmática, por verdadeira questão de fé, de uma ou outra formas. Talvez por uma das instituições ser antiga (ou assim percepcionada e reiteradamente qualificada, pois afinal ambas o são) e, como bem se sabe, é tentador e muito conveniente – pois simplifica imenso as coisas – reduzir antigo a velho; “velho” no pior sentido do termo: coisa imprestável).
Muitíssimo bem lembrado, pelo menos eu nunca me lembrava, confesso – mas não irei esquecer-me mais vez nenhuma, tanto a memória vá funcionando.
São duas datas extremamente importantes na identidade portuguesa. Uma fundacional do País, não há mais nada a dizer; a outra fundacional do melhor dos regimes, a república democrática, isto para quem não prefira outro, evidentemente.
Não sei se é o melhor regime… olho para as monarquias modernas da Europa e, honestamente, não sei se poderemos encontrar diferenças que façam dum destes 2 regimes “o melhor” até porque o rei da atualidade europeia não tem o poder executivo nem legislativo. Depois se por um lado o rei herda o cargo e se se corre o risco de termos um mau rei, por outro, temos de bancar o presidente em funções e mais 3 ou 4 ex-presidentes. Note-se que, por falar em despesas, a presidência da República portuguesa teve um orçamento na casa dos 17M em 2023 versus 8,5M da casa real espanhola, ou seja, sai muito mais cara ao contribuinte português até pela diferença populacional entre os 2 países. Depois tendo em conta as 1001 peripécias deste nosso PR e, olhando novamente para Espanha, não me parece que o xôr Marcelo seja melhor que Felipe IV (muito pelo contrário aliás). Portanto, não sei se a República democrática é assim tão melhor que as monarquias modernas.
Bom, pelo menos não se corre o risco de perder a independência nacional porque o candidato ao trono mais próximo da “nossa” linhagem interrompida é o rei doutro país qualquer, eheheh.
Sinceramente, é um esquema de coisas que não me parece ter lugar no mundo de hoje – ainda que a possibilidade de perda de independência seja interdita, pelo menos nas monarquias europeias. Devem pensar que antes republicanos…
O caso espanhol é, no meu entendimento, o da última monarquia ocidental com sentido, talvez até mesmo necessária. Parece-me indubitável que uma nova guerra civil só foi impedida pela união em torno de Juan Carlos, um homem corajoso, patriota e com grande sentido de estado, e que assim era reconhecido pela larga maioria dos espanhóis – mesmo aqueles que, não sendo monárquicos, se diziam “juancarlistas”, não é?
E com os rescaldos da Guerra Civil e do Franquismo tão mal apagados, como um fogo larvar que continua debaixo das cinzas e rancores que se perpetuam, quem pode dizer que aquele mosaico de nações se continuaria a entender se tivessem que escolher entre eles um Presidente para a todos representar? Pelo menos por enquanto, o rei evita mais essa fricção. Mas os tempos são outros, as pessoas são outras, haverá hoje tantos que se declarem “filipistas” como houve “juancarlistas”? Só se for por receio da desagregação, que sempre reduziria (muito) a importância de Espanha (que é muita) na Europa e no mundo.
Mas não estão nada mal servidos com o Filipe, que creio ser também homem com elevadíssimo sentido de estado. O discurso dele agora na ONU (onde não discursava há dez anos…) foi absolutamente notável. Concorde-se ou não com o que disse, goste-se dele ou não, acredite-se ou não na sua sinceridade: foi notável.
Duas grandes frases por que passei nestes comentários. a primeira pela sua incoerência (não pode sair ao pai !Não há direitos sucessórios- a casa também não …);
A segunda pela sua subtileza.
Muito obrigado
_”… abolir o absurdo direito sucessório.”
_”… , o segundo faz o possível para o legitimar.”