Filmes e jornais


Patrícia Reis,

 

 

Acontece-me cada vez com mais frequência. Ainda hoje aconteceu: estar numa sala de cinema sem mais ninguém em redor. Hoje a sessão das 13.50, num cinema de Lisboa, só aconteceu porque comprei o único bilhete para toda a sala. É óbvio que os actuais hábitos de consumo estão a condenar as salas de cinema à extinção a curto prazo. Tal como estão a condenar sucessivos jornais a fechar de vez. Já imagino até os ares pesarosos e as palavras de imensa comiseração que muita gente soltará quando se fechar a última sala de cinema e se extinguir o último jornal, acusando a sociedade de consumo, a “crise”, o sistema capitalista e sei lá que mais de ter destruído os sacrossantos marcos da arte, da cultura e da informação. Mas as perguntas podem e devem ser dirigidas a nós próprios: Há quanto tempo não vais a uma sala de cinema? Há quanto tempo não compras um jornal? Um filme que se vê num DVD doméstico nada tem a ver com a experiência única de seguir um filme em ecrã panorâmico, na sala escura, totalmente concentrado no que se passa na tela. Um jornal lido na Net não substitui, de modo algum, a leitura em papel impresso.

Boa parte da crise actual começa afinal no comodismo de cada um de nós.

38 comentários em “Filmes e jornais”

  1. Quanto a salas de cinema, comecei a perder o hábito de as frequentar quando me deu para embirrar com os toques dos telemóveis (e as pessoas depois a falar na maior das calmas) e as pipocas.

  2. Sozinha sozinha só me aconteceu uma vez. Com pouquíssimas pessoas acontece muito sobretudo em horários mais inusitados! Da vez em que estive sozinha, no início do filme a imensa sala , eu e um “casal”! Ao fim de 10 minutos, ou nem tanto, o casalinho saíu e eu fiquei sozinha na sala até o filme acabar. É realmente uma sensação estranha. E hoje, lembro-me mais desta “cena” do que do filme que vi nessas circusntâncias!
    :))

  3. O estar numa sala vazia (ou quase) não é um fenómeno de agora. Recordo-me de isso acontecer com frequência há uns oito anos, nas sessões da hora de almoço que o Monumental fazia (início por volta das 12:15-12:30, se não me engano).

    Infelizmente, quando essas sessões terminaram, perdi o hábito de ir ao cinema. A última vez já aconteceu há quase um ano, quando vi a reposição do Blade Runner.

    1. Eu mantenho esse hábito, que não me apetece perder. E não deixo de reparar no crescente número de pessoas à minha volta que me dizem que há anos não frequentam um cinema. Faz-me impressão haver tanta gente assim em Lisboa, enquanto tantas pessoas noutras zonas do País gostariam de ir a um cinema mas não têm um único nas terras onde vivem.

      1. Been there, done that. Só pude apreciar verdadeiramente o cinema numa sala como deve ser quando saí da aldeia e vim morar para Lisboa. Não vou tanto como gostaria (preguiça, preguiça). Mas hoje em dia é um prazer ir ao Londres… (ainda há bocado lá estive, a ver o Gran Torino… e que grande filme!).

    1. Ilustrado com um dos filmes da minha vida, compadre. Um filme que vi num cinema em Hong Kong, cheio de espectadores entusiastas que se comoveram intensamente, tal como eu, com esta belíssima história de um cinema que acaba numa terra de província em Itália.

      1. Confesso que o filme não me comove por aí além. Faz-me lembrar o The Green Mile, um filme feito precisamente para puxar a comoção, mas que soa a artificial. Talvez seja defeito meu, mas não o consigo apreciar…

  4. Ó meu Deus!
    Eu já invejava essa profícua capacidade – absolutamente estonteante – de produzir textos e intervenções, de ler mil blogues, de saber de tudo (exagerosinho fofo, para o meu amigo, que merece bem, vá…) e agora confessa – em público! – que vai ao cinema, num dia de semana (!!), ao início da tarde?!
    Arrasa. Pronto. Arrasa e ‘mai’nada’!
    Eu nem à noite!…! (outro exagero, mas serve o propósito deste ‘comentário’ abstruso…)
    Verdadinha, sim senhor! Isto tudo começa em cada um de nós!
    Quando estudava, às vezes lá ‘matava’ uma aula para ir ao Batalha (sala Bébé) ou ao Trindade (ai, que saudades do Trindade…).
    Agora são os ‘dvd’ e o afunilamento do universosinho pessoal.
    Trágico.
    E cómico.
    Má comédia, no entanto…
    Vá zurzindo, Pedro; continue, que merecemos!

    1. O Batalha – Sala Bebé, o Trindade… isso era ontem. Bom era anteontem: o Nun’Álvares, o Vale Formoso, o do Marquês ao ar livre, o São João antes de se tornar vaidoso, sei lá que mais…

      1. E O Terço? Apanhavam-se lá a autêntico preço de promoção, os filmes que tinham saído das salas nobres da cidade!

    2. Olá, Margarida.
      Continuo a achar que um filme visto no cinema, que é o local próprio para o efeito, é uma experiência incomparável. Quanto ao tempo: aprendi há muito a geri-lo consoante as minhas necessidades. Para não perder tempo e energias, mais tarde, a lamentar tudo quanto não fiz.
      (Gosto muito das suas visitas aqui ao blogue. Muito mesmo.)

      1. Obrigada pelo parêntesis…, é um querido absoluto. Mas eu venho aqui sempre, Pedro! Apenas escrevo de quando em vez por manifestas incapacidades – temporal e o resto…
        Beijinhos.

  5. Assino por baixo cada frase deste post, Pedro,mas na verdade foi a sociedade de consumo que nos tornou comodistas.
    Continuo a peferir mil vezes uma sala de cinema a um DVD ( apesar de as salas de cinema em Lisboa estraem cada vez mais fraquinhas) , mas também já me aconteceu ver um filme sózinho. Foi no King, às 2 da tarde. Não gostei da experiência, confesso.

    1. Detesto ver filmes em salas cheias, mas acho ainda mais esquisito estar numa sala totalmente vazia, Carlos. O consumismo leva-nos a ter todo o género de ‘gadgets’ em casa, que nos servem de desculpa para sairmos cada vez menos. E o pior é que nem esses ‘gadgets’ acabam também por ser utilizados.

  6. Caramba, Pedro… por momentos pensei que tinha enveredado pela via do Al Capone que comprava todos os bilhetes para não ter ninguém a aborrecê-lo. 😉
    Detive, pensativamente, a última frase do seu (muito bom) post. Abraço.

    1. O Al Capone devia fazer isso para não lhe acontecer o mesmo que aconteceu ao Dillinger, que foi morto à saída de um cinema, Mike.
      Obrigado pelas suas palavras.
      Abraço

  7. Confesso que já é raro comprar jornais (mea culpa)… fui-me habituando a ler as notícias na net e nos blogues, embora concorde que não é o mesmo prazer que tinha em folhear um jornal ainda “virgem”.
    Mas o que não dispenso é uma sala de cinema, sempre que posso. Em casa não consigo mergulhar no filme como gosto e como me acontece no cinema, de tal maneira que levo algum tempo a sair dele (às vezes, horas e até dias…)

    O Cinema Paradiso também é um dos filmes da minha vida, a propósito.

    1. Totalmente de acordo Pedro. Não existe nada como folhear um jornal ou ver um belo filme no cinema.
      A única coisa que me chateia nos cinemas são o barulho das pipocas e os toques de telemóveis, para os quais tenho cada vez menos paciência.
      Infelizmente aqui em Macau não existe muita variedade de cinemas

  8. Curioso, a mim aconteceu-me estar em salas vazias mas era nas sessões da meia-noite em Coimbra (às vezes era à meia-noite e meia). Às sessões das 2 da tarde raramente ia, porque não consigo apreciar um filme naquele momento (não sou muito matinal, pelo que essa hora é aquela a que estou a despertar, não me vou enfiar num cinema). Às vezes aconteceu-me estar num cinema sozinho a meio da tarde, especialmente no Verão (ia ver quase qualquer filme em dias de muito calor, só para apreciar o ar condicionado). Mas também eu gosto de salas não cheias, por isso procuro as sessões em que isso seja mais provável.

    Acho que outro problema dos cinemas são os preços que se praticam. Há 10 anos os preços andavam nos 400 escudos por um bilhete em Coimbra. De repente, e no prazo de um ano, dispararam para os 5 euros (nos casos mais baratinhos). Para além disso inundaram-se de anúncios, de pipocas e de bebidas, além de terem intervalos monstruosos para que os garotos que vão ao cinema (nem sei para quê, se só querem fazer barulho) poderem abastecer os seus baldes de pipocas e cola.

    Acho que os próprios proprietários não se aperceberam que aquilo que fazem para tentar rentabilizar os cinemas (os tais anúncios e as comidas) é aquilo que afasta os verdadeiros apreciadores do cinema.

    1. João André, nem todos os cinemas têm pipocas. E os intervalos são cada vez mais raros. Mas quantas vezes não fazemos nós intervalos ao ver um DVD em casa, que nos rouba de imediato o impacto do filme, e quantas interrupções de outra ordem não há nessas circunstâncias? Numa coisa estou de acordo: os bilhetes de cinema são demasiado caros. A procura diminui claramente de ano para ano em Portugal, mas nem isso leva os exibidores a baixar os preços, antes pelo contrário.

  9. Um filme visto em ecran panorâmico é fantástico!
    Infelizmente, apesar de ter várias salas de cinema junto de casa, não sou frequentadora assídua.
    O volume do som é horrível; tinha de levar sempre tampões de silicone para os ouvidos!
    Cheguei a estar só com uma amiga numa sala de cinema!
    O último filme que vi, no cinema, foi o Titanic (!!!).
    Depois desisti. Agora só vejo DVD´s.
    Jornais, só compro ao sábado e ao domingo.
    Durante a semana, tenho os jornais gratuitos, o Metro e o Global notícias.

  10. A pirataria também ajuda.
    Existem sites onde se podem ver todos os filmes, mesmo os mais recentes, basta um click…

  11. Muito bonita e feliz, a ilustração.
    Infelizmente, também Alfredo morreu, não há muito, na vida real.
    Outros tempos, outras vidas …

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