Francisco Sá Carneiro 45 anos depois


Pedro Correia,

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Francisco Sá Carneiro desempenhou um papel histórico no actual regime: reconciliou a direita portuguesa com a democracia. Esta foi uma missão para a qual estava vocacionado, por uma espécie de sentido messiânico, e em que viria a ser bem sucedido nos dois últimos anos da sua vida, desenrolados de forma vertiginosa, numa desesperada corrida contra o tempo. O facto de ter rompido com o regime anterior ao 25 de Abril após uma fracassada tentativa de levá-lo por rumos reformistas, como viria a suceder em Espanha, conferia-lhe uma legitimidade que poucos tinham na sua área política, dados os compromissos estabelecidos com a ditadura.

O combate decisivo para a implantação da democracia no alucinado Verão quente de 1975, contra a esquerda revolucionária, fora liderado por Mário Soares, com quem Sá Carneiro sempre estabeleceu uma rivalidade que nunca viria a ser superada, apesar da cordialidade pública que exibiam. Desafiado nesta espécie de confronto íntimo com Soares, o fundador do PPD/PSD sentiu ainda mais pressa em entrar na História, o que viria a suceder. Tinha qualidades para o efeito, bem reveladas na sua singular trajectória de uma década no palco da política: visão estratégica, uma inegável capacidade de comunicação e aquele atributo tão indispensável quanto indefinível que à falta de melhor certos politólogos costumam chamar carisma.

Venceu incontáveis batalhas internas até construir um partido influente, com sólida base autárquica disputada quase câmara a câmara ao Partido Comunista. Teve razão desde o início ao defender a autonomia regional, o afastamento da tutela militar e o fim do virtual monopólio da economia pública no Portugal pós-25 de Abril. E superou o teste da governação, após duas maiorias conquistadas nas urnas, embora ninguém saiba até que ponto seria vítima dos próprios impulsos se o destino não o tivesse colocado na fatal rota de Camarate, faz agora precisamente 45 anos.

Não teve razão, com alguma frequência, quando deixava a emoção sobrepor-se à implacável lógica cartesiana. Foi, nomeadamente, o que sucedeu no seu desenfreado combate contra o Presidente Ramalho Eanes que lhe consumiu as energias nos últimos meses de vida. A derrota nas presidenciais de 1980, a que já não assistiu, confirmava que tinham razão aqueles que em vão procuraram dissuadi-lo de transformar o popular Chefe do Estado em adversário principal.

 

Foi admirado e odiado em partes iguais, o que é sina de quem nasceu para líder.

Graças a ele, a democracia portuguesa não cresceu amputada.  

Ficámos todos a dever-lhe isso.

20 comentários em “Francisco Sá Carneiro 45 anos depois”

  1. “A política sem risco é uma chatice, mas sem ética é uma vergonha.” (Francisco Sá Carneiro)…

    Uma frase curta, mas que resume o essencial da política…

    Ética e vergonha, por onde andais?

  2. Questiono a real importância de Sá Carneiro.
    Morreu em 1980, mal tendo exercido o poder: foi primeiro-ministro durante menos de um ano.
    Se tivesse ficado no poder durante um período longo, saberíamos o que ele de facto valeria. Assim, não sabemos.
    Entretanto:
    Causou grande dano ao PPD, fazendo sair dele diversas pessoas de valor.
    Era conhecido como “o homem dos golpes de rins”, pelas suas mudanças abruptas de orientação política.

    1. Concordo. Uma visão que quase certamente nos teria conduzido a uma social-democracia de tipo nórdico – até pela grande influência das ideias e dos muitos contactos políticos de Snu, que teriam estreitado as relações e a partilha de experiências com esses países, os mais desenvolvidos do mundo… A morte de Sá Carneiro foi uma grande perda para o país, o desperdício irreparável de uma oportunidade de viragem histórica.

      1. Uma visão que quase certamente nos teria conduzido a uma social-democracia de tipo nórdico

        Cara Zebra, creio que para isso era necessário que os portugueses fossem nórdicos.

        1. Daí o “tipo”, como o Queijo da Serra sem pedigree, eheheh.

          Creio perceber onde o V. quer chegar, mas olhe que os nórdicos não têm nenhum cromossoma a mais ou a menos que os condicione a saberem-se governar… Talvez uma ajudinha histórica da “ética protestante” em vez da resignação católica, é certo; e também da “lei de Jante”, que os torna mais conformes e conformistas, logo mais predispostos a remar para o mesmo lado.
          Mas por mais qualidades ou recursos que tenha um povo, sem boa liderança, norteada pelo bem comum e com visão de futuro, não prosperará.

  3. com a destruição de documentos nunca se fará a história desta revolução comunista.
    o gatilho tem sempre razão «1/2 aceita a outra metade borra-se».

  4. Sá Carneiro era um bravo, um corajoso, um convicto que não vergava perante dificuldades ou afrontas. Impunha respeito e não se deixava intimidar. Um homem verdadeiro – por Eurico de Melo.

    A democracia portuguesa não cresceu amputada, ficou amputada com a sua morte.

    Com Sá Carneiro a direita mostrava a cara, marcava posição e não cedia ou se intimidava perante as esquerdas comunistas, revolucionárias, sectárias ou socialistas. A direita determinava-se e pautava-se por ela própria, não por aquilo que a esquerda pretendia (a direita como adorno da democracia).

    Sem Sá Carneiro a direita foi para o armário ou envergonhou-se, a esquerda monopolizou a narrativa política e a comunicação social.

    1. Conheci-o no Porto. Recordo que um dia ao visitar uma exposição de um pintor belga na Gulbenkian, ele com a Snu. Antes vi-o passar no seu Volvo e os seguranças perderam o rasto e o procuravam.

    2. Concordo plenamente com o seu primeiro parágrafo. Para mim, Francisco Sá Carneiro foi isso tudo.

      Quanto ao resto que refere, já não concordo tanto por isto:

      A Social-Democracia, historicamente alicerçada no Socialismo Democrático, é uma ideologia inequivocamente de Centro-Esquerda, como, aliás, defendia o próprio Francisco Sá Carneiro:

      “Somos um partido de esquerda não marxista e continuaremos a sê-lo.” (Francisco Sá Carneiro, 1975)…

      “Se as posições concretas podem mudar, o essencial mantém-se. E o essencial, para o PPD é a defesa da social-democracia como via realista e equilibrada para o Socialismo. Socialismo que é justiça, liberdade e igualdade.” (Francisco Sá Carneiro, 1976)…

      “Nós, Partido Social Democrata, não temos qualquer afinidade com as forças de direita, nós não somos nem seremos nunca uma força de direita.” (Francisco Sá Carneiro, 1978)…

      Lamentavelmente, parece que há por aí alguns putativos hipócritas que se arrogam como “herdeiros políticos” de Francisco Sá Carneiro, ao mesmo tempo que escondem a Social-Democracia na gaveta e renegam as bases ideológicas que estão na sua origem…

      O exemplo mais flagrante do anterior é a perspectiva de Pedro Passos Coelho, que se diz Social-Democrata, mas que muito se esforçou para engavetar a Social-Democracia enquanto foi 1º Ministro… Aliás, Pedro Passos Coelho tem-se mostrado, nos últimos tempos, apostado em renegar e a fazer interpretações “muito livres” daquilo que foi o pensamento de Sá Carneiro, incluindo considerar que as convicções ideológicas desse fundador do PPD/PSD foram apenas fruto de “circunstâncias históricas específicas e rapidamente ultrapassadas”…

      Portanto, Pedro Passos Coelho quer, alegadamente, ser Social-Democrata, mas não quer a ideologia Social-Democrata e ainda tem a petulância de deturpar o pensamento de Sá Carneiro, recorrendo a interpretações que não passam disso mesmo… Isto é, no mínimo, risível… Pedro Passos Coelho estará, com certeza, no Partido errado…

      1. A petulância de deturpar o pensamento de Sá Carneiro parece ser transversal a tudo e todos. Que se saiba não deixou testamento ou procuração a quem que seja. E, talvez por direito de militância, tem mais moral para a tal petulância quem figura, lidera ou liderou o PSD que outro qualquer.

        José Miguel Júdice, advogado e amigo de Sá Carneiro, definiu-o como à direita, não de direita ou de esquerda. Mais, o próprio Júdice chegou a dizer que , perdendo a eleição de Soares Carneiro, Sá Carneiro ponderava demitir-se e criar um novo partido com Adelino Amaro da Costa, Soares Carneiro e libertar-se dessa ala de Mota Pinto e Emídio Guerreiro.

        Mas tudo isto é secundário, pelo menos para mim. Relevante era a acção e o propósito. O propósito de definir um rumo para o país, trabalhar e investir na resposta aos problemas e anseios das pessoas. A acção de agregar ou envolver todos no propósito pois, para Sá Carneiro e como bem disse o Pedro Correia, segregar (linhas vermelhas na semântica de hoje) a direita era amputar a democracia.

        1. Há por aí um tipo da antiga extrema-esquerda que nunca votou em Sá Carneiro e sempre combateu Sá Carneiro mas agora arroga-se no direito de ser o “intérprete autêntico” do pensamento de Sá Carneiro. Com argumentos da treta que nem merecem réplica.
          Era o que faltava o fundador do PPD/PSD passar à história com “chave interpretativa” dos seus maiores inimigos.

          1. De facto!
            Pacheco Pereira é um miserável político, o exemplo flagrante do impostor que vê e procura a política como meio para afagar o ego. O homem dos princípios e retórica ao jeito da maré ou do vento mais proveitoso.

  5. «A democracia portuguesa não cresceu amputada, ficou amputada com a sua morte.»

    Desta vez estou com o Balio. Não compreendo a importância real de FSC. E parece-me difícil estimar se realmente a nossa democracia ficou amputada ou não. Os liberais da sua época não vingaram muito… Os “corregedores”, os caciques e um partido muito parecido com aquilo em que o PS se tornou mais tarde foram muito mais bem sucedidos. Por causa disso mesmo —de um culto partidário algo aldeão e deslocado de uma democracia moderna onde um cargo bem desempenhado é sempre mais importante do que aqueles o desempenham bem— temos o país cheio de praças e pracetas, quase todas horríveis, com o nome de Sá-Carneiro. Até a gaita do Aeroporto do Porto passou a Aeroporto Sá-Carneiro. Para quê, foda-se?

    Facilmente imaginarão que uma das coisas mais terríveis para mim foi ver o Areeiro, na zona onde eu morava quando era miúdo, e que era até então um dos poucos sítios que escapava a essa paranóia republicana de dar nomes de gente a ruas e sítios, passar a ser a Praça Sá-Carneiro e plantarem lá um trambolho de cimento, indecifrável e horripilento. Eu se fosse o Sá-Carneiro levantava-me da campa todas as noites e ia assombrar o Areeiro até que demolissem aquela merda toda e me deixassem descansar em paz. Felizmente a maioria dos lisboetas da geração X continua a chamar Areeiro ao Areeiro. E a dizer três da tarde em vez de 15 horas. Mas somos cada vez menos.

    Enfim, como não acredito em pessoas providenciais — suspeito que tudo seria como foi até agora mesmo que Sá-Carneiro tivesse vivido. O Sebastianismo é um desperdício de tempo e de esforços mal-direccionados.

    1. “Não compreendo a importância real de FSC.”

      E qual é a novidade disso? Era mais do que expectável que estivesse com o balio na mesma incompreensão da importância de Francisco Sá Carneiro… Há coisas que nunca mudam e que muito facilmente se adivinham…

      1. Era mais do que expectável que estivesse com o balio na mesma incompreensão da importância de Francisco Sá Carneiro…

        Era expectável? Também não percebo porquê. Eu raramente concordo com ele.

  6. Deixou cair a Caixa de Pandora. Abriu-se e foi mais uma vitima a juntar aos milhares daqueles que foram massacrados vítimas da misarável descolonização.

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