
Já não há cavernas nem buracos no chão.
Não há gente enclausurada que analisa o mundo através de sombras projectadas por uma fogueira, na solidão imensa duma caverna escura e silenciosa.
As pessoas vivem enclausuradas dentro de si próprias. É imperativo fecharem-se, isolarem-se do que as rodeia, se mentalmente lúcidas e ambicionarem manter a sanidade e encontrar alguma paz.
Vive-se à mercê de um cata-vento enferrujado, que gira ruidosamente sem quietude nem trégua, a uma velocidade assustadora, vertiginosa, fulminante, que nos arremete contra nós próprios com uma violência inaudita e aterradora.
Abre-se a janela a mais um dia e a histeria e a loucura colectiva que se colam à pele das gentes em forma de calor e cheiro a mar e a transpiração, entram de sopetão e atordoam como bombas de vogais e consoantes ásperas, rudes e de sílabas mal colocadas, que rebentam sem lógica nem ordem por todo o lado, num espaço onde o tempo teima em não passar e o vislumbre de uma caverna ou um buraco no chão onde o efeito da onda de choque possa ser mitigado é apenas mais uma miragem, ou o delírio duma mente torturada.
A luta é interminável e desesperante, principalmente aquela que se desenrola dentro de nós e nos transforma em coisas, em bichos, em seres sem qualquer razoabilidade, actores secundários num genérico de uma série de ficção de quinta categoria, que de tão eclética é totalmente incompreendida.
(Imagem Google)
