Grande salto à retaguarda


Patrícia Reis,

 

I

Um único país tornou-se responsável por mais de dois terços (72%) de todas as execuções ‘judiciais’ ocorridas em todo o mundo no ano passado: a República Popular da China, onde pelo menos 1718 pessoas foram mortas às ordens do Estado. Os chineses chegam aliás ao extremo requinte de fazer a família do executado pagar a bala que lhe é enfiada na nuca – um grande salto à retaguarda no domínio civilizacional, idêntico a tantos outros a que a ditadura de Pequim já habituou o mundo. Só em 2008, ano em que ali se realizaram os Jogos Olímpicos, pelo menos 7003 chineses foram condenados à pena capital. A ressalva deve-se ao facto de estes números serem considerados segredos de Estado na China, país que o Partido Comunista Português, fechando os olhos a todas as evidências, continua a considerar "uma importante realidade do quadro internacional, nomeadamente pelo seu papel de resistência à ‘nova ordem’ imperialista".

Estas macabras estatísticas constam do mais recente relatório da Amnistia Internacional, divulgado segunda-feira. Um documento que confirma o triste papel da China como recordista mundial da pena de morte: sete chineses são executados diariamente por decisão das autoridades do seu próprio país. Seguem-se, embora a considerável distância, o Irão (346 execuções em 2008), a Arábia Saudita (102), os Estados Unidos (37), o Paquistão (36), o Iraque (34), o Vietname (19), o Afeganistão (17), a Coreia do Norte (15) e o Japão (15).

II

Apesar de tudo, há boas notícias: a lista dos países que levam à prática a pena de morte é cada vez mais curta – apenas 25 a aplicaram no ano passado. Enquanto em 1948 só oito países tinham abolido as execuções ‘judiciais’, em 2008 este número ascendeu a 138. E a Europa seria um continente livre deste flagelo se não ocorresse a triste excepção da Bielorrússia, onde se registaram quatro execuções. Caso para lamentar? Não: caso para aplaudir – pelo menos na óptica do PCP. "O legado pós-soviético traduziu-se, na esmagadora maioria das ex-repúblicas socialistas, num autêntico desastre para o povo e a soberania dos respectivos países. A Bielorrússia destoa do panorama geral", entusiasmava-se neste editorial de 2006 o inefável Avante!, cheio de hossanas ao regime do sinistro Lukashenko, o último ditador da Europa. Não consta que o órgão oficial dos comunistas portugueses tenha alterado a opinião de então para cá.

5 comentários em “Grande salto à retaguarda”

  1. Caro Pedro Correia:

    Totalmente de acordo contigo. É pena que em pleno Século XXI ainda haja penas de morte por se pensar diferente ou por se cometerem crimes condenáveis. Quanto a Lukashenco ser o único ditador na Europa também estamos de acordo, apesar de existirem alguns aprendizes na forja, como o que temos por cá que pensa que maioria absoluta é o “quer posso e mando”, e depois de o ver entronizado no último congresso tipo “querido líder”!!!
    Mas enfim, em Outubro veremos se lhe cortamos as asas.
    Um abraço.

    1. Ontem à noite, num grupo de amigos, alguns dos quais médicos, falavamos deste assunto e um deles comentou qualquer coisa sobre a “exportação” que eles fazem dos orgãos dos executados. Um horror seguido de outro. Não tenho palavras para pensar…

  2. É só para louvar a China.
    Pena de morte, SIM!
    Pena é que por cá só haja pena de “apresentação às autoridades 1 vez por semana” para assassinos confessos!

  3. Considero que a pena de morte não tem qualquer justificação. Julgo, no entanto, que não se pode dizer, como o Pedro, que o artigo do PCP defende a opção de retenção desta pena pela Bielorrúsia (“Caso para lamentar? Não: caso para aplaudir – pelo menos na óptica do PCP.”), já que o mesmo não faz a apologia desta medida, referindo-se a outros aspectos. A crítica não é válida, uma vez que, assim sendo, então teria de se censurar quem louva os EUA nos seus aspectos positivos, conhecendo que este país mantem igualmente a pena de morte.

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