As ditaduras militares latino-americanas sempre foram aceites com alguma compreensão pela direita europeia e entusiasticamente apoiadas pelos Estados Unidos e pela Igreja Católica.
Nunca os ouvi condenar a censura, os crimes hediondos das ditaduras militares, as torturas, a subjugação dos povos indígenas. Pelo contrário, ouvi-os respirar com algum alívio quando Pinochet conseguiu escapar às malhas da justiça, com o seu velado apoio.
Quando os países latino-americanos começaram a tentar libertar-se das ditaduras, a imprensa ocidental começou logo a encontrar ditadores em cada um dos líderes democraticamente eleitos.
Não me consta que Chávez tenha torturado e mandado matar os seus adversários políticos. O mesmo não se pode dizer de Uribe, o aliado dos EUA, que ainda no ano passado perseguiu e mandou matar vários sindicalistas. Não li uma linha sobre isso na imprensa portuguesa.
Curiosamente, a direita calou-se poucos dias depois de uma trupe de militares ter expulsado o presidente das Honduras, mas deu grande relevo ao encerramento de algumas rádios locais, ordenada por Chavez.
A Rádio Federal de Buenos Aires divulgou há dias uma extensa lista de canções, cuja difusão foi proibida pela ditadura militar. Teria sido uma boa altura para recordar aquele período de terror. Nem uma linha na imprensa portuguesa. Nem um comentário da direita portuguesa.
Interessa-me pouco a liberdade de imprensa quando vejo a morte de pessoas que me são queridas ser escamoteada ou branqueada por essa mesma imprensa "livre e democrática". Ou quando não dá o devido relevo ao facto de as grandes multinacionais do desporto, como a Nike ou a Adidas, terem escrito a Hillary Clinton, pedindo “a restauração da democracia nas Honduras” porque já perceberam que o apoio aos golpistas lhes está a provocar incomensuráveis prejuízos.
Não faltam relatos sobre as sanguinolentas ditaduras latino-americanas mas, curiosamente, alguma imprensa portuguesa insurge-se contra pretensos ditadores bolivarianos, cujo único crime é pretenderem libertar os seus povos do jugo americano e da exploração de multinacionais pouco escrupulosas.
Tenho dificuldade em compreender aqueles que acusam alguns líderes sul-americanos de ditadores e aceitam, com naturalidade, que Alberto João Jardim esteja no poder há quase 40 anos. Numa democracia sã nenhum líder é sucessivamente eleito durante tanto tempo. Jardim está no poder graças ao silenciamento da oposição e à subserviência dos sucessivos governos que nunca tiveram coragem de pôr um travão aos gastos sumptuários do líder madeirense e lhe prestam vassalagem sujeitando-se a enxovalhos que nenhuma figura de Estado deveria aceitar.
Corre-me nas veias sangue de vítimas das ditaduras latino-americanas. Conheci, pessoalmente, alguns dos "desaparecidos" durante a ignóbil ditadura argentina, que enchia helicópteros com dissidentes, para os lançar VIVOS nas águas do Atlântico, ao largo de Península Valdez. Isso impressiona-me muito mais do que o encerramento de algumas rádios locais (o que não significa que esteja de acordo, sublinhe-se…)
Penso que aos latino-americanos, também. Não me refiro aos imigrantes, descendentes de europeus, que para lá foram fazer a sua vida. É mesmo dos latino-americanos que falo.
Em tempo: Hoje o DN traz um artigo de opinião ( não assinado, mas com destaque) sobre a lista divulgada pela Radio Federal de Buenos Aires. Falta lá o "Je t’aime moi non plus", por exemplo, mas destaca-se os 30 mil "desaparecidos" durante o regime de Vidella. Saúdo o autor por isso.

Carlos:
Sou contra qualquer tipo de ditadura seja de esquerda seja de direita.
Concordo consigo em vários pontos do seu “post” mas em relação a Chavez temos uma opinião totalmente diferente pois entendo que essa personagem apesar de eleito (Hitler também foi) é um ditador.
Que eu saiba a legislação em vigor em Portugal permite as reeleições (entrará em vigor finalmente a que limita os mandatos) e comparar AJJ a Chavez penso que é passar um atestado de incompetência aos Madeirenses e isso não faço goste-se ou não de AJJ (pessoalmente não aprecio).
Qualquer tipo de ditadura deve ser banida e denunciada e é com tristeza que vejo democracias ocidentais a terem relações com esses tipos de regime incluindo aqui o nosso país.
Denunciar regimes ditatoriais como são Cuba, Coreia do Norte, Angola, Venezuela, Colômbia, China só para citar alguns deveria ser um dos objectivos a ter em conta mas aí infelizmente o dinheiro fala mais alto.
Conclusão, não há ditaduras boas nem más, temos é que acabar com elas.
Como digo neste post e já aqui tenho declarado noutras ocasiões, não sou defensor de Chavez, Carlos.
Não é isso que está em causa, mas sim o branqueamento que se tem feito de ditaduras sanguinárias cono a chilena, a argentina e até a brasileira em alguns períodos…A imprensa portuguesa tem uma grande responsabilidade nesse branqueamento. Se leu o editorial de JMF ontem(?) no “Público”percebe onde quero chegar.
Também concordo que AJJ não é um ditador, mas tem pena. O fim do Estado Novo refreou-lhe as ambições.
Se chamo AJJ à colacção, é apenas porque ele personifica a doença da nossa democracia, provocada por um espírito cacique que ainda está arreigado em muita gente que ocupa cargos públicos.
Apenas num ponto não estou totalmente de acordo consigo: as realações comerciais de Portugal com países como a Venezuela estão no mesmo patamar das que foram estabelecidas pelos países ocidentais com a China, após o triste episódio de Tian An Men.
A primeira reacção foi cortar relações comerciais com a China mas,uma semana depois, já uma embaixada de empresários italianos rumava a Pequim para estabelecer alguns acordos comerciais. Surgiram algumas críticas veladas mas, pouco tempo depois , os países ocidentais seguiam o exemplo italiano. Portugal incluído…
Não há ditaduras boas, Carlos. Todas são más. E não há democracia sem liberdade de imprensa. Nunca houve nem haverá. A perda da liberdade de imprensa é sempre o primeiro passo para a construção de uma nova ditadura.
Claro que não há ditaduras boas e más, Pedro,mas ao ler alguma imprensa, ver as posições da Igreja Católica e de alguma direita aniquilosada, fico com dúvidas…
Como sabes comecei a minha vida de jornalista no tempo do Estado Novo, , sei bem o que é escrever sob a vigilância da Censura.
Isso não significa que considere que hoje em dia a imprensa em Portugal seja livre e democrática. Prefiro dizer que vive em “liberdade condicional”. Poderia citar imensos exemplos para sustentar esta minha afirmação mas, presumo, ainda conhecerás mais casos do que eu.
A imprensa só será realmente livre quando se libertar do jugo dos interesses económicos que a condicionam e quando o jornalismo e os jornalistas deixarem de se auto-censurar.
Em relação à América Latina, por exemplo, há uma distância abissal no tratamento que é dado aos problemas daqueles países em Portugal, ou na vizinha Espanha. Pelo menos os nossos vizinhos vêem com frequência os dois lados do problema. Porque haverá também interesses económicos dos espanhóis naquela região? Muito provavelmente sim, mas isso não explica tudo.
Abraço
“Há uma distância abissal no tratamento que é dado aos problemas daqueles países em Portugal, ou na vizinha Espanha.”
Claro que há Carlos, e quanto a mim as razões têm a ver com a massa critica do nosso jornalismo que é generalizadamente pequenino, caseiro, provinciano e novo rico, no fundo, à medida do país. Não li o editorial do Publico que refere, deixei-me disso quando o director daquele jornal apoiou a guerra do Iraque. Ainda o comprei durante uns tempos para ler o VPV , mas depois deixei-me disso. Por alguma razão começaram a estar disponíveis exemplares à borla, nas caixas do Continente aqui de Oeiras.
Tudo o que sei, dos processo das ditaduras latino americanas, e é muito pouco infelizmente, devo-o às leituras do saudoso Montalban . Tem pelo menos dois livros indispensáveis sobre o tema, Galindez e o Quinteto de Buenos Aires , mas isso não será certamente novidade nenhuma para si.
Infelizmente não é novidade, Ariel. Senti bem os seus efeitos
Carlos, não pode haver dois pesos e duas medidas. Se criticas (e com razão) a direita europeia por tolerar algumas ditaduras de direita, não podes ignorar que o mesmo é válido em sentido contrário, e igualmente criticável. Ditadura é sinónimo de privação de liberdade (mesmo que não comporte excessos, o que é quase impossível) e só por essa razão já é condenável, tenha a cor que tiver. Quanto à eleição democrática de líderes que depois se transformam em ditadores, há exemplos negros dos dois lados. E se achas (eu também acho) que 40 anos é demasiado tempo para um político exercer o poder sem cair em vícios ditatoriais, lembro-te a pretensão de Chavez de perpetuar a sua liderança de forma vitalícia, o que o transforma numa figura bem mais temível do que AJJ, que, mal ou bem, lá vai sendo eleito em escrutínio democrático e pode sempre ser “deposto”.
Percebo o que dizes, mas não posso nem quero escolher ditadores conforme as minhas convicções políticas.
Como já escrevi várias vezes e hoje repito na caixa de comentários, nunca fui defensor de Chavez. Apenas manifesto a minha estranheza por se fazerem tantas críticas a uns (que repito ainda não ouvi serem acusados de matar- ou mandar matar- os adversários) e se passar uma esponja sobre as atrocidades praticadas por outros ditadores.
Nunca gostei de ditaduras, sejam de que cor forem, porque prezo demasiado a minha LIBERDADE!Conheço bem os 3 casos que cito no post. Foram sempre tolerados e, nomeadamente na Argentina, teve que ser o povo a libertar-se dela. Pelo contrário, quando Allende estava no poder, democraticamente eleito, os americanos ajudaram Pinochet a chegar ao poder e a instalar uma ditadura.
Não se trata de ideologia, nem de convicções políticas, Ana. Trata-se de uma realidade que conheço bem de perto. Tenho familiares que foram vítimas dela.Não eram comunistas, nem esquerdistas, apenas se recusaram a calar aquilo que se passava.
Pode alguém calar-se quando conhece os crimes hediondos praticados pelos generais argentinos que lançavam pessoas vivas de helicópteros, para serem comidas pelos tubarões?
Conheço, por leituras, os crimes praticados pelos regimes comunistas de que toda a gente fala. a vida nos Gulags era insuportável, também sei. Mas se criticamos – justamente- as práticas dos comunistas, não é lícito que critiquemos também as ditaduras de outra cor?
É contra esse silêncio da imprensa portuguesa que eu me insurjo. É contra aquela direita que só vê os crimes dos comunistas e não tem uma palavra contra os ditadores sul americanos ( já tenho lido alguns até a elogiá-las…) que reajo. Nada tem a ver com convicções políticas, Ana! Tem apenas a ver com equilíbrio e algum sentido de justiça.
Estou marcado por essas diatduras e por isso reajo de forma por vezes desabrida? Certamente que sim, mas não achas isso normal?
Não escolho ditaduras, apenas quero que sejam todas tratadas da mesma forma. E isso é que infelizmente não vejo ser feito em Portugal.
Acho normalíssimo, antes de mais. É só dos livros (felizmente) que conheço essa realidades, Carlos. Impressionaram-me muito, claro, mas não é a mesma coisa. Não posso saber, como tu ou familiares teus, o que é sentir na pele as injustiças e atrocidades que referes. Por isso percebo muito bem a tua indignação que, naturalmente, reage mais a um lado do que ao outro por ser o que mais de perto te toca.
Eu reagi à tua comparação Chavez-Jardim porque me pareceu excessiva. E aqui estou eu a defender Jardim, que é uma personagem com quem não simpatizo nada…
Desculpa lá, Ana, mas também não comparei Chavez a Jardim ( Lembro-te, porém, que AJJ fez rasgados elogios a Chavez, como aqui então assinalei)
O que comparei foi reacções. e escrevi a seguir “Numa democracia sã nenhum líder é sucessivamente eleito durante tanto tempo. Jardim está no poder graças ao silenciamento da oposição e à subserviência dos sucessivos governos que nunca tiveram coragem de pôr um travão aos gastos sumptuários do líder madeirense e lhe prestam vassalagem sujeitando-se a enxovalhos que nenhuma figura de Estado deveria aceitar. “
Quanto a reagir mais ao que me toca, parece-me natural. Não me parece natural é que gente de direita só critique as ditaduras comunistas e vice-versa. Tenho exactamente a mesma posição, quando ouço Jerónimo de Sousa criticar as ditaduras sul-americanas. Deveria estar calado, ou então criticar as que defende. Como esse belo exemplo que é a Coreia do Norte
“alguma imprensa portuguesa insurge-se contra pretensos ditadores bolivarianos, cujo único crime é pretenderem libertar os seus povos do jugo americano e da exploração de multinacionais pouco escrupulosas.”
Poético! Mas pouco credível, sobre tudo depois de ver o resultado desses movimentos libertadores dos oprimidos e explorados (ex: Zimbabue)
“Não me refiro aos imigrantes, descendentes de europeus, que para lá foram fazer a sua vida. É mesmo dos latino-americanos que falo.”
Assim sendo, o Carlos deve estar a referir-se a meia duzia de tribus da Amazonia. E esses não estão muito por dentro dos conceitos ocidentais de democracia!
Os tempos actuais não se coadunam com ideologias revolucionárias e caducas dos anos 60. O mundo entretanto mudou!
Abraço,
BP
O que não passa de moda são as ideologias de extrema direita. Exemplos não faltam por esse mundo fora…
Bem podria ser..
O que não passa de moda são as ideologias de extrema esquerda. Exemplos não faltam por esse mundo fora…
“(o que não significa que esteja de acordo, sublinhe-se…) “
Eu vinha só armado em adivinho, afirmar que este parêntesis seria devidamente ignorado por todos os que viriam aqui discordar ou “corrigir” a sua posição, que subscrevo inteiramente.
Li há pouco tempo isto:
“Capitalism is a system where you can do anything as long as it involves shopping”.
Adaptando, diria que grande parte do nosso jornalismo actual é livre, desde que signifique vendas.
Agradeço-lhe ter realçado o meu parênteses, que pensei ser suficientemente esclarecedor, para evitar interpretações dúbias sobre a minha posição acerca das ditaduras.
Quanto ao resto, é mais ou menos isso, mas não apenas para o nosso jornalismo, meu caro. E também não é só uma questão de vendas de jornais. Muitas vezes tenta-se vender outras coisas . Não não me refiro aos brindes…
De facto não falava apenas em tiragens, ao mencionar vendas. E é bem verdade que o mesmo se passa em quase todo o mundo “livre”.
Alguém dizia num forum europeu que frequento que quando os jornais deixaram de vender noticias aos leitores para passarem a vender leitores aos anunciantes houve uma decisiva inversão nas prioridades editoriais.
É uma grande verdade, mas felizmente ainda há quem resista…
Não, Carlos, as ditaduras são todas iguais.
A imbecilidade e a estupidez não permitem distinções. Como também não diferenciam as de esquerda das de direita. Há é gente e países mais ou menos “colaborantes”, mais ou menos “cínicos”.
E há também os vesgos, Sérgio. Só são capazes de ver para um lado.
Quanto aos países há os colaborantes ( como a Colômbia de Uribe, onde a perseguição política e sindical é terrível, mas nada transpira para os jornais lusos) e os pró-activos que quando não gostam do regime instalado num país, por escolha do povo, se apressam a entrar em guerra para repôr a democracia.
Estou farto de assinalar que há duas espécies de votos, os do ocidente e os da América Latina. Por cá elegem democracias, por lá só ditaduras…
O que se passa nas Honduras, por cá, chama-se reposição da democracia, já o que se passa na Venezuela é um processo dictatorial…
Por cá encerram-se rádios que não cumprem com os preceitos legais e a isso apelida-se de justiça, por lá não de pode aplicar os preceitos legais às rádios que os não cumpram.
Eu vou ali e venho já…
Meu caro Salvo, sabe o que mais me entristece no mei disto tudo? É a falta de cultura democrática dos portugueses e o fanatismo clubista que muitos transferem para a política.
O caso das Honduras é sintomático, mas não faltam casos em que as eleições são contestadas por não agradarem ao Ocidente.
Depois de nos impingirem a globalização, querem impôr-nos o pensamento único travestido de democracia.
E já agora, insisto: as ditaduras latino-americanas mataram muito mais gente em 30 anos, do que o comunismo soviético em 75, mas só o comunismo é que é perigoso.
Carlos Barbosa de Oliveira, não sendo eu, também, fã do Chávez, quero dar-lhe os meus parabéns pelo seu post. Nos dias que correm, infantilizado o debate político, é preciso coragem e inteligência para escrever o que escreveu.
E faço um sublinado, se me permite: Pinochet e Videla foram certamente piores do que Chávez, que tb. não é flor que se cheire
Chavez, pelo menos até ao momento, ainda não matou ninguém. Diz-se que Videla terá feito desaparecer 30 mil, mas muitos dizem que esse número peca por defeito. Terão sido muitos mais…
Coragem não me falta, felizmente, o que me vai faltando é paciência para ler e ouvir disparates sobre a América Latina, por parte de gente ignorante, que deve ter estudado pela cartilha da direita mais retrógrada.
Obrigado pelas suas palavras, Ana
Não gosto nada de fazer comentários do tipo “estou inteiramente de acordo”, que nada acrescentam nem adiantam.
Mas abro aqui uma excepção, porque bem a merece.
Chegando um pouco tarde, não posso deixar passar uma nota: é que se houve parte da igreja católica que se calou e aceitou bem algumas ditaduras dos anos 70/80, também não faltou a que não se deixou ficar, a que ajudou quem mais precisava e que esses regimes pretendiam ocultar, e que combateu a violência por meios pacíficos. Exemplo disso era o Arcebispo Romero, morto em El Salvador por esquadrões da morte em plena celebração eucarística.