Rosto lívido, cabelos desgrenhados e maquilhagem a acentuar-lhe o ar doentio. De pernas em pose desengonçada e mini-saia muito curta, esta miúda que eu tenho visto nos últimos dias em mupis e outdoors espalhados pela cidade lembra-me a Amy Winehouse. É muito fashion este look, mas nem por isso deixa de contrastar de forma gritante, diria mesmo ridícula, com o logotipo da revista de que faz capa: HAPPY.
Happy? Se isto é a imagem da felicidade, mesmo de uma felicidade muito pr’á frente que porventura me escape, vou ali e já venho.
Passo os olhos pelos títulos, que presumo sejam receitas para lograrmos alcançá-la com maior sucesso:
– Sexo: testámos o gel do orgasmo
– Erotismo: kamasutra do sexo oral
– Testemunho: Não vivo sem um amante
– Como dar adrenalina à sua vida
– Dietas: porque é tão difícil emagrecer
Tudo matérias a que devo dar mais atenção, se quero mais adrenalina na minha vida. Olho novamente para a foto da capa. Concluo que o meu conceito de felicidade está definitivamente out. Se calhar é por isso que fico com cara de parva quando me sinto feliz. E quanto mais feliz, mais parva me sinto. Tenho que rever rapidamente esta minha maneira de estar na vida!

“mais parva me sinto ..” eu também .. e acresce o detalhe de um sorriso completamente tolo a despontar por tudo .. e por nada.
Mas .. vou rever coisa nenhuma! 😉
Pois, Once, o melhor mesmo é não fazermos “upgrade” nenhum e ficarmos assim :))
Não é preciso, Teresa. Há uma certa tradição que nos obriga a ficar com cara de parvos quando nos sentimos repentinamente felizes. O resto é fantasia. E nem é daquelas fantasias que valem a pena…
Esse comentário despertou-me um sorriso um bocado parvo 🙂
Bom sinal. Hehehe…
Parece-me até que é o sonho de qualquer mãe de uma rapariga adolescente ver a filha entrar e sair de casa neste “estado de felicidade”…
E ainda por cima vendem!
Pois, são líderes das revistas mensais femininas!
De facto, essa fulana parece tudo menos feliz. Ter aquelas pernas(?) não ajuda nada. E o problema dela é engordar – não é emagrecer. Duvido que consiga, mesmo com gel.
E temos nós “isto” como modelo das nossas jovens…
“Happy”?! … melhor… “Unhappy”!
100% de acorod
Em Portugal existe um dedinho mágico, para pôr estas criaturas em capas.
Uma vez uma agência recusou-me dizendo que eu era bonita demais!
Acreditem é verdadinha :-)))
Não desfazendo…
Não desfazendo, nem fazendo, c’est la vie como dizia o outro LOL
Aproveito para reescrever aqui uma “boa história ” contada, hoje, na última página do El País”, por Rosa Montero (jornalista e escritora espanhola):
“Sucedió hace un par de meses, en la mañana de un mustio y helador día de otoño (…) Pilar, profesora en un instituto de Barcelona, llegó a su trabajo e intentó entrar con su coche al aparcamiento . Delante de la puerta había una anciana . Trabaja usted aqui?, perguntó la mujer . La profesora contestó que sí Luego la mujer ) se acercó a Pilar y le dijo timidamente lo que estaba buscando: He venido a la escuela porque me gustaría aprender a escribir . Llevaba desde las ocho de la mañana pegada a la puerta a la espera de poder hablar con alguien . La mujer tiene 82 años , se llama Mari y reside en un hogar de ancianos . Ahora , Pilar va ahí cuando puede y le da clases .”(…)
Esta (grande) senhora de 82 anos, certamente, nunca teve tempo, nem oportunidade para preocupar-se com as preocupaçöes das “jovens felizes de agora”. Ela, a anciä , ainda hoje revela ter importantes preocupaçöes; Continua a querer ser feliz, a pôr adrenalina na sua vida, mesmo sem necessitar de gel.
Fiquei mesmo com um ar parvo de felicidade depois de ler este post, Terresa.
Ontem e hoje, no Metro, cada vez que deparei com este cartaz pensava :” Pá tás mesmo a ficar velho!. Já não compreendes as mensagens publicitárias…”
Gel do orgasmo? Não vivo sem um amante? Kamasutra do sexo oral? Bem, se calhar o melhor é mesmo meter a reforma- pensei para os meus botões.
Agora estou muito mais descansado. Ainda vou ter de trabalhar mais uns anitos.
Obrigado, Teresa!
Eh!Eh!Eh! Sempre ao dispôr!
Boa malha, Teresa. A imagem é deprimente.
E vivam os sorrisos apatetados, em caras coradas de prazer (mesmo sem o tal gel…)!
Exactamente, Ana! Abaixo o look urbano-depressivo!
O seu conceito de felicidade e o meu, Teresa 🙂
Antes felizes que desinfelizes 😀
Não tem nada que rever a sua maneira de estar na vida, Teresa. Deixe lá essas modernices e tonterias para quem quiser fazer revisões. Deixe-se estar feliz como até agora.
E quem sou eu para enjeitar um conselho seu sobre esta matéria? Já percebi que o Mike tem muito talento para ser feliz :))
Tinha de comentar este artigo até porque ando com uma imensa vontade de me dirigir directamente à revista para o pessoal de lá por-se ao corrente da realidade actual do nosso país. Como não gosto de criticar sem saber do que falo, comprei a dita revista e à medida que ia virando as páginas, ia me irritando cada vez mais. Eu sou mesmo assim, quando leio barbaridades não consigo conter-me. Para resumir, esta revista é de uma incongruência assustadora. Começa pelo seu preço de venda que a torna acessível à maioria e acaba nos modelos sociais que cita e que se referem claramente a uma minoria que, com esta crise, se vai tornando cada vez mais minoritária. Ou seja, querem que adolescentes ou mulheres de meios limitados se identifiquem com supostos testemunhos de mulheres economistas, investigadoras científicas, arquitectas e afins. Entramos num desfasamento quase chocante entre um mundo de luxos, pessoas fúteis e supostamente liberais quando na verdade vivemos num país com cada vez mais desemprego, desigualdades e onde imperam ainda imensos tabus ditados por uma sempre presente igreja católica. Ou seja, para ser Happy o melhor é aspirar a um mundo inacessível feito de extravagâncias e futilidades. Enquanto a classe média baixa vai sonhando, a sociedade mantém-se imutável, com as suas desigualdades de sempre. Parabéns à revista por não ter vindo acrescentar nada ao que já existia anteriormente!