Hegemonia


Sérgio de Almeida Correia,

9c3bf130-88a9-11f0-aa06-3df3b9ae7236.png.webp(créditos: BBC/Reuters)

O meu país devia ser a favor de uma nova ordem internacional, ter uma posição firme contra a hegemonia dos actores tradicionais e defender o multilateralismo e o direito internacional, aproveitando todos os momentos de celebração nacional para aceitar que participem nessas manifestações patrióticas quem não respeita o direito internacional, goza com ele e convive alegremente com organizações terroristas.

Mais. O meu país devia ser a favor da paz e sempre que possível investir na sua defesa, com forças armadas bem preparadas e equipadas com o melhor e mais moderno que houver, com armamento da última geração, se possível nuclear, promovendo sem olhar aos custos grandes desfiles, paradas e exibições de força, ao estilo nazi, mostrando o seu exército, os seus tanques, drones, mísseis, enfim, todo o seu poderio armado, as suas armas mais letais, capazes de viajarem milhares de quilómetros e atingirem alvos distantes com a máxima precisão, para que o povo se sentisse seguro, ficasse satisfeito, não fizesse perguntas e a comunidade internacional se impressionasse.

E o meu país também devia ser a favor do direito internacional, embora desprezando essa cantilena dos direitos humanos ao estilo europeu e afins, sem ter uma posição firme contra a violação de fronteiras reconhecidas pelas Nações Unidas, organização de que faz parte, confraternizando com qualquer estado invasor e com todos os que se associam a estados invasores para participarem em conflitos armados, perto de casa ou a milhares de quilómetros das suas próprias fronteiras terrestres e marítimas, contribuindo para a persistência de conflitos militares e estados de guerra na Europa e noutras partes do mundo, com milhares de vítimas inocentes, mortos, feridos, amputados, órfãos, viúvas e desalojados.

E, se possível, o meu país deveria ser membro de múltiplas organizações de cariz universalista e regional de cooperação multilateral, para promoção da paz, da segurança global e da defesa do direito internacional, recusando desde logo, para que tal seja viável, a jurisdição dos tribunais internacionais sobre questões internacionais, evitando que aqueles contribuam para a resolução desses conflitos e a punição de crimes contra a Humanidade, caminhando de braço dado com os Estados Unidos da América e o “maluco do cabelo cor de laranja”, que outros sem sentido de estado tanto criticam, sendo sempre solidário com estados párias e terroristas que violam ostensivamente o direito internacional, mantêm campos de concentração internos, promovem matanças indiscriminadas de civis, ignoram o genocídio de outros povos, não respeitam os tais direitos humanos e fomentam conflitos armados com os vizinhos.

Por fim, o meu país não deveria aceitar quaisquer fronteiras marítimas internacionalmente reconhecidas, sendo indiferente para os seus objectivos que tenha subscrito uma convenção internacional sobre o direito do mar e possa fazer parte de uma organização das Nações Unidas especializada nesse assunto, recusando de antemão qualquer tribunal especializado que funcione sob a sua égide, desprezando a jurisdição nessas questões, se possível promovendo uma ocupação pela força de todas as zonas que reclama, desde que possuam riquezas naturais no subsolo que justifiquem o esforço militar e financeiro. 

Não há aqui nada de contraditório. O sonho não comanda a vida.

O que comanda a vida é o cinismo, o interesseirismo, a matreirice, a chico-espertice, a aldrabice, a sonsice.

E acima de tudo o medo. Quem controlar o medo dos outros tornar-se-á hegemónico.

E isto é válido tanto para países como para indivíduos. Qualquer pacifista o compreende.

Bem-vindos à nova ordem internacional.

8 comentários em “Hegemonia”

  1. Putin e Xi são prova viva que o sonho comanda a vida. Eles desejam e sonham com uma nova ordem mundial, uma ordem conduzida e dominada por eles. Estão prestes a consegui-lo.

    Nós, ocidente, somos a prova viva de um sono que cria monstros. De um delírio atormentado com passado, entretido com o presente e negligente com o futuro.

    Quanto aos actuais pacifistas interrogo-me qual a virtude que os guia, o amor/desejo pela liberdade ou o amor/desejo pela submissão?

    1. > deixaram que isso acontecesse

      Fizeram com que isso acontecesse, activamente.

      É o “SaS” – “Suicide as a Service”. Uma tradição europeia.

  2. «O liberalismo é o nosso inimigo existencial. Ele é absolutamente errado em qualquer forma e em qualquer lugar – na economia (capitalismo, livre-mercado) bem como na política (midiocracia, oligarquia, lóbi de minorias) ou questões sociais (individualismo). O liberalismo é metafisicamente errado. Precisamos começar a guerra real contra ele. Uma cruzada anti-liberal em todos os cantos da Terra» – Alexandre Dugin

    – Aleksandr Dugin

  3. eu é mais isto :
    “Miguel Castelo Branco
    4 d
    ·
    O “Ocidente”, i.e., aquela gente da finança que dá ordens aos governos, destruiu a reputação da nossa civilização e arruinou o nosso futuro, conseguiu o impossível: atirar o Irão para os braços da Rússia, a Rússia para os braços da China, a China para os braços da Índia. É uma rotação coperniciana da ordem internacional, uma verdadeira revolução que reenvia o centro do mundo para o Oriente e enterra a “era gâmica” iniciada por Portugal em 1498. Assistimos a uma convulsão sem precedentes, pelo que à Europa, condenada à insignificância, se coloca a decisão dilemática: ou se associa à Rússia, ou empobrece irreversivelmente.”

    1. Não basta alinhar umas palavras de uma maneira espertalhaça. É preciso demonstrar como é que o Ocidente destruiu a reputação da nossa civilização.

      E sobretudo explicar por que motivo é que nenhum africano, nenhum muçulmano e nenhum sul-americano emigra para a Rússia, para a China, para o Irão ou para a Índia, essa maravilha.

      Continuamos a recebr o lixo todo do mundo que esses eixos alternativos criaram (as revoluções islâmicas, as revoluções bolivarianas e as revoluções comunistas). Anseio pelo dia em que toda essa tralha troglodita vai começar a imigrar em massa para esses paraísos orientas.

  4. Não se trata agora de uma questão de porta-moedas mais cheio ou mais vazio, muito menos fazendo depender a fartura ou a míngua de uma eventual aliança com a Rússia. O que não há dúvida é que o peso da influência de quem manda se deslocou 180º para oriente, com a China ao leme do que realmente se assumiu como objectivo primordial das sociedades actuais. Falo de Poder, consubstanciado em fundos monetários sem limite, tecnologia em permanente evolução, população domesticada e enquadrada de modo a impossibilitar quaisquer veleidades de contestação do sistema. Com sorrisos e tratados leoninos meteu a Rússia no bolso, comprando energia a preço de saldo, a pagar com produtos da sua máquina industrial, enquanto a Coreia do Norte busca apoios fornecendo carne avulsa para o matadouro da Ucrânia. A Índia junta-se ao clube com mão-de-obra barata e escancarando as portas ao comércio com os novos amigos. Já não estarei cá para ver, mas a Europa terá que repensar a sua política de alianças,de modo a garantir a sua independência em termos energéticos, matérias primas, políticas de defesa consentâneas com a transferência de ameaças belicistas e, sobretudo, consolidar um projecto que transforme em bloco a actual manta de retalhos que se chama UE. As democracias podem funcionar sem se acobardar perante minorias assíncronas com os poderes em exercício, e um pouco de músculo na ordem pública não há-de fazer mal a ninguém.

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