
Todos crescemos com histórias de deuses, demónios e anjos, de terras de oiro, fontes de juventude, animais monstruosos e homens capazes de feitos de tão grande heroísmo que os elevaram muito acima do comum dos mortais.
Quem não se lembra do panteão de deuses imortais e semideuses valorosos que decoram as raízes étnicas de todos os credos e culturas?
Quem nunca ouviu falar no heroísmo e tenacidade da padeira de Aljubarrota, de Rómulo e Remo, de Robin Hood, Wilhelm Tell, Paul Bunyan ou Hans Brinker?
São lendas e mitos que fazem parte da história, porque afinal a história trata de compilar, avaliar e verificar todo o tipo de informação transcorrida desde que o conhecimento existe. Existe história em tudo, e tudo e todos fazemos parte da história com maior ou menor grau de relevância.
Há a história que nos contam os antigos, que a ouviram de outros que a sabiam porque alguém mais velho lhes contou; é a tradição oral de quem conta um conto, tão enraizada no folclore dos homens desde que existem em grupos nómadas ou sedentários.
Todas as histórias juntas perfazem a história que estudamos nos livros das escolas, colégios e universidades. A história de alguns, de muitos, de todos e a sua influência no Mundo para ter chegado ao dia de hoje nos moldes em que o conhecemos.
Por fim, há a história viva. São aqueles factos ou pessoas que não passaram à história, só porque fizeram parte dela. Não há muita gente que tenha sobrevivido à sua história. Pessoas maiores são diferentes e normalmente as diferenças assustam e o resultado é eliminá-las antes que aniquilem a nossa forma de vida. Aconteceu há mais de 2000 anos na Galileia.
O tempo é implacável e o mundo vai perdendo todos os dias pedaços vivos da sua história, da história dos homens, aqueles que viveram e fizeram História.
Pena que muitas pessoas que deixaram marca no tempo, enquanto são vivas, caiam no esquecimento com tanta facilidade e só se volte a falar nelas quando morrem. Como só a morte lhes pudesse dar a devida grandeza.

Paul Bunyan ou Hans Brinker? nunca ouvi sequer falar , são novidade para mim.

não me diga que este post é por causa do ronaldo ?
O seu grande amigo ChatGPT não esclarece sempre as suas dúvidas?
o ronaldo ontem parece que caiu em desgraça e como ele é um dos “herois” modernos e tal e tenho ideia que a Dulce o admira , sei lá , podia ser um post ao contrário do do jpt ” isto não é a liga saudita”
Quem é que liga a excessos de vedetismo pontuais? Só os detractores e esses todos sabem que são.
Há tipos por cá que valem zero e armam muito mais aos cucos. Pensar em fazer disso tema de debate era estupidez ao quadrado.
O esquecimento é a condição essencial da mudança e da evolução.
A perda de referências é uma necessidade evolutiva.
Mergulhados na memória, como a História a concebe, o mundo permaneceria preso a uma lógica, a uma época, a uma narrativa, a uma interpretação, a um programa cognitivo, a uma determinada técnica de usar a materialidade e preencher o tempo e o espaço da Existência.
No “novo modelo de explicação e compreensão da evolução da Vida e do ser-humano” (formulado pelo Impronuncialismo em 2011 na Universidade Nova e na Universidade de Lisboa) a ‘memória’ é concebida de um modo diferente da dos ‘historiadores’.
A memória é lavada para encaixar no dito branqueamento da idade contemporânea, é o que é.
Totalmente de acordo.
Apenas me lembrei do que disseram estes dois figurões, que cito adiante:
— “Todas as coisas são sujeitas a interpretação. Qualquer interpretação que prevaleça num dado momento é função do poder e não da verdade” (Friedrich Nietzsche)
— “O historicismo confundiu erradamente «interpretações» com «teorias». É possível, por exemplo, interpretar a História como a «história da luta de classes», ou como a «história da luta pela supremacia», ou como a «história da luta pelo progresso científico e industrial». Todos estes pontos-de-vista são mais ou menos interessantes, e perfeitamente plausíveis. Mas os historiadores não os apresentam assim. Não aceitam que existem necessariamente uma pluralidade de interpretações equivalentes. Em vez disso, apresentam-nas como doutrinas ou teorias, afirmando que toda a História é a «história da luta de classes», ou da «luta pela supremacia”, ou do «progresso científico e industrial», etc.. Os historiadores clássicos que se opõem, com razão, a este processo, acabam por cair noutro erro. Pois, nesse desejo de serem «objetivos e imparciais», e de evitarem qualquer ponto-de-vista seletivo, como isso é impossível, acabam por adoptar também pontos-de-vista sem se aperceberem de que o estão a fazer.” (Karl Popper, 1956, “A miséria do Historicismo”, in Paul Veyne “Como se escreve a História”, col. Points, Seuil, Paris, pp.148-150).
“Todas as coisas são sujeitas a interpretação”
Nada mais correcto. Podemos estar ambos a assistir lado a lado ao mesmo acontecimento, e relatar posteriormente ideias completamente diferentes. Opostas até.
Sob esta ordem de ideias, ninguém pode relatar qualquer ocorrência histórica imparcialmente.
Por falar em histórias… As “Histórias Maravilhosas da Tradição Popular Portuguesa”, da Ana de Castro Osório, em dois imensos volumes com ilustrações maravilhosamente condizentes com os maravilhosos relatos, foram dos primeiros livros que li na minha vida – que li, e reli, e reli. Sabia muitas das histórias, todas de tramas longas e bastante complexas, algumas até mais “adultas”, de cor ou quase. Tornei-me, graças a elas, uma contadora de histórias bastante apreciada, passe a imodéstia, e requisitada por crianças… e adultos! Numa roda de amigos que mantive ainda jovem e durante um bom par de anos, era frequente haver sessão: “Conta lá a do pescador!” (porque a “do pescador” era das mais requisitadas…).
Ainda hoje poderia reproduzir, se não literalmente, muito proximamente, algumas dessas histórias, não só pelas tantas vezes que as li e contei, como porque tinham de facto um interesse intrínseco, ficcional e literário, muito próprio.
Só li um dos livros, que era o que havia na casa da prima Rosalina em Alfeizerão, num ano em que lá estive de férias. Devia ter 13 ou 14 anos. Que bela lembrança que me trouxe, Zebra.