Hoje


Ana Vidal,

 

Não, hoje não é um dia feliz. É preciso ter alegria para celebrar a liberdade e o meu país está exangue, faminto, assustado, mergulhado num profundo estado de tristeza. Bem sei que só o facto de poder dizê-lo assim, em público e sem consequências, já é prova dessa liberdade. Mas esse privilégio sabe a pouco, quase quarenta anos depois. Ontem desapareceu um homem que sempre admirei pela inteligência, integridade e capacidade de entender as razões dos outros sem ódios. Um Homem superior. Há uma Mãe que dificilmente voltará a rir com aquela alegria contagiante que sempre lhe conheci. Há dias, ouvi de uma amiga que não via há muito tempo a mais arrepiante das frases, depois de ter tido uma péssima notícia sobre a sua saúde. Tem cinquenta e poucos anos e ficou desempregada, como tantos portugueses, depois de uma vida inteira de trabalho útil e contributivo. Perdeu há pouco tempo o marido para a mesma maldita doença que agora lhe dita uma sentença impiedosa, demorou três anos de um profundo sofrimento a conseguir que uma desumana junta médica se dignasse reconhecer-lhe a terrível incapacidade física que está bem patente nas suas mãos e articulações (sofre de artrite reumatóide, diagnosticada há anos, e era educadora de infância). Tudo isto para conseguir uma miserável reforma e uma pensão de viuvez ainda mais miserável. Vendeu tudo o que tinha para sobreviver e poder tratar-se. Mas tudo já se evaporou. Teve de dobrar a espinha, engolir o orgulho e recorrer à ajuda de outros para comer. Estava tão desesperada, que a notícia de um fim mais próximo do que se supunha lhe pareceu um alívio.

 

Este é só um caso entre muitos, muitos outros. Cada dia mais. Para onde caminhamos nós? Ouço os discursos de circunstância e não me dizem nada, absolutamente nada. Guerras partidárias, política gasta e cega. Não, hoje não é um dia feliz.

27 comentários em “Hoje”

  1. Caminhamos para o abismo. Mas isso só sabe quem vive a vida real, como tão bem a descreves, não sentado em gabinetes a debitar balelas.
    Sim, hoje é um dia muito triste. Não há pior do que não ter esperança.

  2. Não, Ana, hoje não é um dia feliz. O sofrimento de pessoas torna-o deveras infeliz. Mas não podemos desistir de construir um país melhor, assumindo mais cidadania e responsabilidade. E tendo a coragem de dizer, seja a quem for e sempre que necessário, “Basta!”. Temos de transformar a sociedade estatal que estupidamente foi sendo construída como máquina para alimentar a corrupção pessoal e partidária, com o consentimento implícito da nossa anestesia colectiva tão habilmente estimulada, numa sociedade civil de oportunidades para as pessoas mais capazes e capaz de assegurar condições de dignidade para todos os seus cidadãos.

    1. Estou inteiramente de acordo consigo, José António, e não sou pessoa de desistências. Só não estou feliz, e não consigo celebrar esta tristeza colectiva em que nos afundamos lentamente.

      1. E parece que o dia apostou em nos transportar, de novo, para o Inverno do nosso descontentamento …

        “…¡Ay, a veces me acuerdo suspirando
        del antiguo sufrir!
        Amargo es el dolor, ¡pero siquiera
        padecer es vivir! …”

        G.A.Bécquer

  3. Enquanto isto sucede no país real, um tal de presidente da república proclama que não se deve dar má imagem de Portugal para o exterior.

    Nem sei mais que dizer, a não ser: boa sorte para todos nós.

  4. Por incrível que pareça, hoje não é um dia feliz!!!!
    E comemorar o 25 de Abril devia ser, o comemorar a felicidade de derrubarmos as barreiras da opressão e levantarmos os braços em sinal de agradecer a conquista da liberdade bendita.
    Mas hoje não é um dia feliz!
    Porque sentimos que o nosso país voltou à “guilhotina”, para amedrontar o seu povo, numa opressão social que, basta sair à rua olhar a expressão de todos nós e sentir que o 25 de Abrir dá a sensação de se ter dado nos anos vinte e hoje ser só uma autentica miragem.
    Pobre povo que em trinta e poucos anos destroçou uma conquista, que custou a vida a quem deu tudo pela liberdade e oportunidades.

  5. Para onde? Mesmo sem saber para onde, caminhamos rapidamente e em silêncio, como se tudo “tivesse de ser”. A esperança começa sempre depois da pergunta. E para isso temos de levantar a cabeça e questionarmo-nos.

    1. Claro que temos, Cristina. Questionarmo-nos sobre o que é realmente importante e o que queremos ser, e pararmos de andar em círculos. O grande problema é que estamos reduzidos à mera sobrevivência, que nos consome toda a energia.

  6. Já agora, talvez convenha não esquecer os últimos e mais directos responsáveis pelo estado a que o país chegou.
    É que a desgraça não surgiu de geração espontânea “há 10 meses”, ao contrário do afirmado, desavergonhada e zorrinhamente, esta manhã no Parlamento…

    1. Sim, tem razão, mas os últimos e mais directos não são os únicos responsáveis. Quase todos os nossos governantes das últimas décadas têm telhados de vidro, e ainda se dão ao luxo de andar à pedrada. Neste momento há que avançar, apontar culpas não nos põe pão na mesa.

      1. Certo, mas levá-los a tribunal, exigir-lhes explicações, condená-los, no mínimo, por negligência, por omissão, pelos projectos faraónicos, pelas derrapagens permitidas como se tal fosse natural, que nos colocaram no estado em que estamos, seria uma luzinha positiva e aumentaria a confiança numa classe que não nos diz nada.
        É que o cidadão comum, é condenado por roubar pão para comer. Mas não projecta para futuro com o dinheiro que não tem, deixando-nos uma bomba na mão.

        1. Nisso estou inteiramente de acordo. A impunidade que ainda dá prémios tem de acabar neste país. É o caso de Sócrates e a sua situação de luxo em Paris (de onde lhe vem o sustento? quem paga os custos astronómicos que tudo aquilo tem?) depois de uma condução desastrosa da coisa pública. É o pior caso que conheço, mas há outros. E também graves.

  7. Brilhante denúncia, retrato de um País gasto, cansado, doente.
    Triste, muito triste esta realidade.
    Era necessário um vento forte e uma vontade férrea de recomeçar. E recomeçar pelo palpável, por tudo aquilo que nós vemos e se tornou intocável.
    E assim, em vez do corte a direito, do pânico generalizado, a que se segue uma tristeza profunda, o desânimo e o desespero, sabermos garantido o bem-estar social dos realmente necessitados.
    Não, hoje não é um dia feliz.

  8. Falas de gente? Mas não é de gente que se ocupa quem hoje governa este país. É de relatórios e contas e cimeiras e tratados e coisas assim. Ou em forma de assim, como dizia o O’Neill.

    1. Sim, Teresa, o que mais vejo é desumanização e alheamento dos problemas reais nos governantes que temos tido, uns mais do que outros. Mas também vejo sinais positivos: é sempre em tempos difíceis que cresce a solidariedade e a responsabilização na sociedade civil, adormecida em épocas de fartura. Bem sei que é pelas piores razões, mas é um sintoma de maturidade.

  9. Depois de um texto onde impera a tristeza e o desalento, afinal foi você o ” ombro amigo ” de conforto para todos os que o comentaram.
    No fundo acho que é este o estado de espírito dos portugueses, morrendo por fora e estrebuchando por dentro até ao último folego.

    1. Obrigada, cr, mas sou um fraco consolo. Só tenho a minha teimosia e a recusa de desistir até ao último fôlego, como diz. Não é muito, mas se servir de alguma coisa a alguém, fico contente.

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