Não, hoje não é um dia feliz. É preciso ter alegria para celebrar a liberdade e o meu país está exangue, faminto, assustado, mergulhado num profundo estado de tristeza. Bem sei que só o facto de poder dizê-lo assim, em público e sem consequências, já é prova dessa liberdade. Mas esse privilégio sabe a pouco, quase quarenta anos depois. Ontem desapareceu um homem que sempre admirei pela inteligência, integridade e capacidade de entender as razões dos outros sem ódios. Um Homem superior. Há uma Mãe que dificilmente voltará a rir com aquela alegria contagiante que sempre lhe conheci. Há dias, ouvi de uma amiga que não via há muito tempo a mais arrepiante das frases, depois de ter tido uma péssima notícia sobre a sua saúde. Tem cinquenta e poucos anos e ficou desempregada, como tantos portugueses, depois de uma vida inteira de trabalho útil e contributivo. Perdeu há pouco tempo o marido para a mesma maldita doença que agora lhe dita uma sentença impiedosa, demorou três anos de um profundo sofrimento a conseguir que uma desumana junta médica se dignasse reconhecer-lhe a terrível incapacidade física que está bem patente nas suas mãos e articulações (sofre de artrite reumatóide, diagnosticada há anos, e era educadora de infância). Tudo isto para conseguir uma miserável reforma e uma pensão de viuvez ainda mais miserável. Vendeu tudo o que tinha para sobreviver e poder tratar-se. Mas tudo já se evaporou. Teve de dobrar a espinha, engolir o orgulho e recorrer à ajuda de outros para comer. Estava tão desesperada, que a notícia de um fim mais próximo do que se supunha lhe pareceu um alívio.
Este é só um caso entre muitos, muitos outros. Cada dia mais. Para onde caminhamos nós? Ouço os discursos de circunstância e não me dizem nada, absolutamente nada. Guerras partidárias, política gasta e cega. Não, hoje não é um dia feliz.


Caminhamos para o abismo. Mas isso só sabe quem vive a vida real, como tão bem a descreves, não sentado em gabinetes a debitar balelas.
Sim, hoje é um dia muito triste. Não há pior do que não ter esperança.
Eu ainda não perdi a esperança, Leonor. É muito difícil arrancarem-me a esperança, apesar de tudo…
Não, Ana, hoje não é um dia feliz. O sofrimento de pessoas torna-o deveras infeliz. Mas não podemos desistir de construir um país melhor, assumindo mais cidadania e responsabilidade. E tendo a coragem de dizer, seja a quem for e sempre que necessário, “Basta!”. Temos de transformar a sociedade estatal que estupidamente foi sendo construída como máquina para alimentar a corrupção pessoal e partidária, com o consentimento implícito da nossa anestesia colectiva tão habilmente estimulada, numa sociedade civil de oportunidades para as pessoas mais capazes e capaz de assegurar condições de dignidade para todos os seus cidadãos.
Estou inteiramente de acordo consigo, José António, e não sou pessoa de desistências. Só não estou feliz, e não consigo celebrar esta tristeza colectiva em que nos afundamos lentamente.
E parece que o dia apostou em nos transportar, de novo, para o Inverno do nosso descontentamento …
“…¡Ay, a veces me acuerdo suspirando
del antiguo sufrir!
Amargo es el dolor, ¡pero siquiera
padecer es vivir! …”
G.A.Bécquer
Sempre tão oportuno, F.
Não, Ana, não é um dia feliz. Pelas nossas razões, pelas razões dos que amamos. Este é o tempo da “apagada e vil tristeza” que chega a nós por todos os caminhos.
É mesmo, Ivone. Melhores dias virão, espero.
Ana,
Obrigado, eu compreendi. Permita-me partilhar consigo um texto positivo:
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Enquanto isto sucede no país real, um tal de presidente da república proclama que não se deve dar má imagem de Portugal para o exterior.
Nem sei mais que dizer, a não ser: boa sorte para todos nós.
Gostava muito que alguém se preocupasse com a imagem de Portugal para o interior.
Por incrível que pareça, hoje não é um dia feliz!!!!
E comemorar o 25 de Abril devia ser, o comemorar a felicidade de derrubarmos as barreiras da opressão e levantarmos os braços em sinal de agradecer a conquista da liberdade bendita.
Mas hoje não é um dia feliz!
Porque sentimos que o nosso país voltou à “guilhotina”, para amedrontar o seu povo, numa opressão social que, basta sair à rua olhar a expressão de todos nós e sentir que o 25 de Abrir dá a sensação de se ter dado nos anos vinte e hoje ser só uma autentica miragem.
Pobre povo que em trinta e poucos anos destroçou uma conquista, que custou a vida a quem deu tudo pela liberdade e oportunidades.
Esse povo tem capacidade para reerguer-se, Nuno, não duvido disso. Já o fez noutras ocasiões.
Para onde? Mesmo sem saber para onde, caminhamos rapidamente e em silêncio, como se tudo “tivesse de ser”. A esperança começa sempre depois da pergunta. E para isso temos de levantar a cabeça e questionarmo-nos.
Claro que temos, Cristina. Questionarmo-nos sobre o que é realmente importante e o que queremos ser, e pararmos de andar em círculos. O grande problema é que estamos reduzidos à mera sobrevivência, que nos consome toda a energia.
Já agora, talvez convenha não esquecer os últimos e mais directos responsáveis pelo estado a que o país chegou.
É que a desgraça não surgiu de geração espontânea “há 10 meses”, ao contrário do afirmado, desavergonhada e zorrinhamente, esta manhã no Parlamento…
Sim, tem razão, mas os últimos e mais directos não são os únicos responsáveis. Quase todos os nossos governantes das últimas décadas têm telhados de vidro, e ainda se dão ao luxo de andar à pedrada. Neste momento há que avançar, apontar culpas não nos põe pão na mesa.
Certo, mas levá-los a tribunal, exigir-lhes explicações, condená-los, no mínimo, por negligência, por omissão, pelos projectos faraónicos, pelas derrapagens permitidas como se tal fosse natural, que nos colocaram no estado em que estamos, seria uma luzinha positiva e aumentaria a confiança numa classe que não nos diz nada.
É que o cidadão comum, é condenado por roubar pão para comer. Mas não projecta para futuro com o dinheiro que não tem, deixando-nos uma bomba na mão.
Nisso estou inteiramente de acordo. A impunidade que ainda dá prémios tem de acabar neste país. É o caso de Sócrates e a sua situação de luxo em Paris (de onde lhe vem o sustento? quem paga os custos astronómicos que tudo aquilo tem?) depois de uma condução desastrosa da coisa pública. É o pior caso que conheço, mas há outros. E também graves.
Brilhante denúncia, retrato de um País gasto, cansado, doente.
Triste, muito triste esta realidade.
Era necessário um vento forte e uma vontade férrea de recomeçar. E recomeçar pelo palpável, por tudo aquilo que nós vemos e se tornou intocável.
E assim, em vez do corte a direito, do pânico generalizado, a que se segue uma tristeza profunda, o desânimo e o desespero, sabermos garantido o bem-estar social dos realmente necessitados.
Não, hoje não é um dia feliz.
É isso mesmo, Alexandra. O pânico paralisa-nos e a fome enfraquece-nos. Resta-nos a vontade férrea, o único trunfo em tempos como estes.
Falas de gente? Mas não é de gente que se ocupa quem hoje governa este país. É de relatórios e contas e cimeiras e tratados e coisas assim. Ou em forma de assim, como dizia o O’Neill.
Sim, Teresa, o que mais vejo é desumanização e alheamento dos problemas reais nos governantes que temos tido, uns mais do que outros. Mas também vejo sinais positivos: é sempre em tempos difíceis que cresce a solidariedade e a responsabilização na sociedade civil, adormecida em épocas de fartura. Bem sei que é pelas piores razões, mas é um sintoma de maturidade.
Ana, belíssimo texto, parabéns. Beijo-te e, como tu, não desisto
Obrigada, querida. Somos lutadoras por natureza, eu sei. Mas às vezes tudo parece inútil, até a quem teima em lutar. Beijo
Depois de um texto onde impera a tristeza e o desalento, afinal foi você o ” ombro amigo ” de conforto para todos os que o comentaram.
No fundo acho que é este o estado de espírito dos portugueses, morrendo por fora e estrebuchando por dentro até ao último folego.
Obrigada, cr, mas sou um fraco consolo. Só tenho a minha teimosia e a recusa de desistir até ao último fôlego, como diz. Não é muito, mas se servir de alguma coisa a alguém, fico contente.