Honor is due


Sérgio de Almeida Correia,

carlos-III.jpg(créditos: daqui)

Quem acompanha aquilo que vou rabiscando e escrevendo por aí, incluindo neste blogue, sabe que sou convictamente republicano e considero que a república é a forma de governo mais consentânea com os valores que defendo para mim e para os meus. 

Dito isto, é-me fácil reconhecer onde estão esses valores, sendo certo que muitos são partilhados com a monarquia, e não sendo a virtude, a honra, a prossecução do bem comum, a defesa do interesse pública, da história ou de seculares tradições exclusivo de uma ou outra forma de governo.

Em rigor, não é por serem republicanos ou monárquicos que os homens e as mulheres de bem se distinguem; antes pela sua praxis, pelo modo como conciliam as suas convicções com a sua acção, a teoria com a prática, aquilo em que acreditam e os valores que defendem com o exercício quotidiano da vida em sociedade, o interior com o exterior, dentro e fora de casa, à luz do dia e na escuridão.

E como em tudo na vida há bons e maus regimes, boas e más acções, gestos que dignificam e enobrecem e atitudes e comportamentos desprezíveis.

Impõe-se por tudo isso, e porque também há décadas procuro estar sempre em sossego com a minha consciência, gozando o sono dos justos, dizer uma palavra sublinhando, na linha do que havia sido feito pela sua falecida mãe, a atitude de Carlos III e da Coroa britânica em relação ao que é publicamente conhecido das relações de André (Andrew) Mountbatten-Windsor com Jeffrey Epstein e seus amigos.

Ao contrário do que se tem visto do outro lado do Atlântico, de onde só chegam péssimos exemplos, não houve equívocos nem hesitações, muito menos protecção do poder a quem, ainda que invocando a respectiva inocência, não terá estado à altura dos seus direitos e das suas obrigações. Não se arranjaram desculpas, não foi preciso um clamor público, nem manifestações de rua. O que já se sabia, aliado às memórias póstumas de Virginia Giuffre, retiraram qualquer margem de manobra à Coroa. E na hora de decidir impuseram-se a dignidade e o dever. Sem alarido, sem dramas, sem teatro. 

Muito haverá a criticar, certamente, sobre a acção ou os privilégios dos monarcas numa democracia, em especial em relação à de Westminster, mas é dali, e de um outro farol cada vez mais trémulo, que contra o temporal de insânia e os ventos que sopram de diversos quadrantes que ainda nos chega a luz do exemplo. Exemplo para outras monarquias, mas também para democracias consolidadas e autocracias, sejam estas de direita, de esquerda ou de raiz teológica.

O que aconteceu no Reino Unido não será muito diferente do que fez Filipe VI em relação ao seu pai e à defesa da Coroa espanhola. E que também aqui mereceu na altura o destaque merecido.

E se é verdade, o que acredito, que a nobreza não está no sangue, como bem se vê comparando irmãos, sejam Carlos e André ou William e Harry, mas antes na elevação do gesto, no rigor do comportamento, pois que é daí que vem o exemplo, a dignidade e a autoridade moral de uma elite, de quem governa, de quem nos representa, na república ou na democracia, neste momento impõe-se dizer que a Carlos III “honor is due“.

A cada um o que é devido. O resto será com os historiadores.

19 comentários em “Honor is due”

  1. a despropósito:
    sondagem para PR dá vitória a LMM, seguido de perto por AV dos cartazes vistos por 45 milhões nas redes sociais.
    os jovens Espanhóis adoram Francisco Franco.
    ditado «quem dá pão é Pai».
    entre nós o político de oposição consideram: 1º EU, depois o Partido, … o País serve para pagar.
    assim não vamos a nenhures

    1. Mais a propósito, o tal “honrado” do DITADOR/LADRÃO Carlos de Inglaterra, ainda ocupador de Gales, Escócia, Irlanda do Norte, e de mais uns quantos territórios ultra-marinos (como partes da ilha do Chipre, Gibraltar, etc), foi a uma ditadura nazi-fascista apoiar o prolongamento de uma guerra proxy, e no geral está alinhado com todas as agressões e violações dos direitos humanos cometidas pelo trio da monstruosidade: Ingleses, USAmericanos, e Sionistas.

      Dizer que alguém assim tem “honra”, é do caraças…

      Enfim, já nada me admira nesta região do globo com falta de noção record, em que se celebram Nobeis da “paz” que bombardeiam N países, e outros que pedem a invasão do próprio país por um exército USAmericano, num continente onde se chama “terrorista” a pescadores e crianças indefesas, onde se chama “defesa” a uma colonização genocida, onde se chama “liberdade de imprensa” à prisão política de jornalistas que denunciam os crimes deste regime ocidental, e onde se chama “transição democrática” à chegada de terroristas (seus avençados) ao poder…

      Quando não se tem princípios, ou quando se tem “princípios” selectivos, dá nisto. Dizem agora que Carlos tem honra, mas que o imperador genocida em Washington não a tem. Então e o imperador genocida anterior, BIden? Aliás, os vários imperadores genocidas anteriores, Obama, Bush, etc? E os seus vassalos na Europa? Têm alguma?
      Haja paciência!

  2. Parece-me uma atitude muito hipócrita a do soberano inglês.
    Das duas uma: ou sabe de fonte segura e provada que houve crimes graves e nesse caso deve denunciá-los à polícia e pedir que o irmão seja preso, ou não tem provas e repudia um membro da família porque o falatório dá mau aspeto à monarquia (dai o tempo que levou a reagir).
    No fundo é a monarquia a proteger-se e a ser governada por alcoviteiros.

    1. Ser um tarado sexual e com fortes tendências
      pedófilas é mais que suficiente.
      Tenho a ligeira impressão que o desaforo não
      acabou aqui. Algo de muito mais grave vai rebentar
      a qualquer momento e a realeza já sabe.

      1. Ser um tarado sexual e com fortes tendências pedófilas é mais que suficiente.

        Mais que suficiente para quê?

        Ser “tarado sexual” (seja lá o que isso fôr) não é crime.

        Ter tendências pedófilas também não é crime, desde que essas tendências não se materializem em crimes.

        1. Suficiente para o que lhe está a acontecer.
          A pedófilia para si e para muitos como V.Exc.
          não é crime . Se fosse não existiria neste país
          casamentos com crianças de 11/12 anos.
          Mas claro que tudo isso é cultura.
          Poupe-me. V.Exc. é masoquista mas eu não sou.
          É por isso que eu ainda não lhe dei um valente arrepio.

        1. Exactamente.
          Tenho uma enorme simpatia pelo Rei Charles.
          Sensível, ecologista antes que se tornasse “moda”,
          incompreendido e massacrado devido ao divórcio e
          mais tarde pelo trágico destino de Lady Di.
          E,agora pela grave doença de que padece.
          God save the King.

    2. não tem provas e repudia um membro da família porque o falatório dá mau aspeto

      Exatamente, é disso que se trata.

      O indivíduo até pode estar completamente inocente, mas é presumido culpado e castigado em público.

      Não é bonito.

      1. Os mais de 12 milhões de €€ que foram dados á vítima
        foi precisamente por ele estar inocente.
        Coitadinha da criatura…
        Já que sabe tudo e mais alguma coisa, dê uma
        breve olhadela nos jornais ingleses online de hoje por expl.

  3. Com toda a franqueza, não sei se esta decisão é mesmo uma questão de honra ou se é apenas a inevitável e inadiável resposta às pressões da opinião pública exercidas sobre a Realeza Britânica, sobretudo desde a publicação do livro referido.

    Ou seja, esta decisão do rei Carlos parece ter sido precipitada pelo conteúdo de um livro e talvez não tanto por uma genuína condenação dos alegados comportamentos do ex-Príncipe André, assumindo, por isso, um carácter meramente simbólico.

    “Sem alarido, sem dramas, sem teatro”, claro que sim, porque “A Firma” afinal ainda é “A Firma” e tudo fará para sobreviver, nem que para isso tenha que “sacrificar” algum dos seus. “A Firma” não gosta e dispensa alguns tipos de publicidade, preferindo sempre a sobriedade aos alaridos.

    Mas esse “sacrifício” acabará por ser fictício e aparente, servindo, de forma primordial, para “apaziguar a censura do Povo”, adivinhando-se que o ex-Príncipe continuará, obviamente, e em privado, a usufruir da maior parte dos privilégios da Realeza Britânica.
    Escusamos de ter ilusões, este senhor continuará a ser um Príncipe, pelo menos oficiosamente.

    No caso presente, a honra parece ser uma coisa muito relativa, tanto da parte do Rei, como do ex-Príncipe, seu irmão… Sobretudo da parte do ex-Príncipe, seu irmão, por motivos óbvios…

    Muito mal ficaria o Rei Carlos se, depois de tudo o que já se conhece, não tomasse uma decisão consentânea com a sobrevivência da instituição liderada por si… Tudo se resume à sobrevivência da “Firma”…

  4. Ao fim de não sei quantos anos fez o óbvio e que toda a plebe “exigia”. Excelente, um exemplo a seguir.

  5. típicas lágrimas de crocodilo republicanas: o rei toma nojo ao seu irmão por comportamento indecente (alegado pela Sra que o saberá pela certa).

  6. Lamento mais uma vez destoar mas o desconhecimento, para não chamar asneira, é demasiado. Nem república nem monarquia são formas de governo mas formas de representação do Estado. Nem os mais ultramontanos monárquicos miguelistas, poriam hoje o rei a chefiar o governo.
    Quanto a André é apenas um assunto escabroso e desagradável, comparável às variações dos “Ballets Rose” que existiram em inúmeros países e épocas. Segue o seu parente, o duque de Clarence, neto da rainha Vitória e 2º na linha de sucessão, cujo desregramento até levou a pensar que teria sido Jack o Estripador.

  7. Caro Sérgio de Almeida Correia…

    Sou descendente do Dom João I (1357 – 1433) (Rei a partir de 1385)
    (filho bastardo do Dom Pedro I e da Teresa Lourenço)
    e da Philippa of Lancaster (filha do John of Gaunt, 1340 – 1399,
    Duque de Lancaster, filho do Edward III e da Philippa of Hainault),
    por via paterna. Por via materna, sou descendente dos Condes de Borbela
    (Solar em Vilarinho do Tanha, Abaças, Vila Real, Trás-os-Montes e Alto Douro)
    (Família Mesquita Pinto e Família Lobo Barbosa), por via materna.

    Em 1977, com dezasseis anos de idade, estive em Londres, com o meu pai,
    para assistir ao “Silver Jubilee” da Elizabeth II (Elizabeth Alexandra Mary,
    nascida em 1926, Rainha a partir de 1952 até falecer em 2022).

    Quando a Elizabeth Alexandra Mary fez noventa anos de idade,
    a 21 de Abril de 2016, escrevi-lhe uma carta com três páginas em folhas A-4,
    mais umas fotocópias A-4 a cores de:

    1. Uma fotografia que eu tirei a uma reprodução bastante grande da fotografia
    oficial dela de 1952, pendurada na fachada do Selfridges, entre as colunas.

    2. Uma pintura maçónica, a guache, feita por mim e datada de 24 / 6 / 2009.

    3. O registo da carta, enviada para a residência oficial (Buckingham Palace).

    4. O aviso de recepção, que acompanhou a carta.

    5. A capa do número 834, de 25 de Abril de 2016, da revista LUX (ela está
    na capa com o bisneto George).

    6. Uma página com o início do artigo da Evelise Moutinho, sobre o aniversário
    (noventa anos) da Elizabeth Alexandra Mary, com uma fotografia onde ela
    está com os dois netos mais novos e os cinco bisnetos.

    7. Uma página com o fim do artigo, de duas páginas, da Evelise Moutinho,
    sobre os noventa anos da Elizabeth Alexandra Mary, com uma fotografia
    onde ela está com o filho Charles, o neto William e o bisneto George.

    A minha carta chegou ao Buckingham Palace (recebi o aviso de recepção).

    Recebi uma resposta:

    1. Um cartão do Buckingham Palace, com o brasão britânico, a pedir a minha compreensão para a demora na resposta, por ela ter recebido uma grande quantidade de cartas, cartões e mensagens.

    2. Um desdobrável, em cartolina, com E II R (significa Elizabeth II Regina)
    e uma impressão simplificada da coroa real por cima, o monograma dela,
    na capa. No interior tem uma fotografia dela, sentada, sorridente, bem
    disposta, com os óculos que ela usava para ler na mão direita e a segurar
    umas folhas A-4 com ambas as mãos. Ela está a olhar em frente, mas
    foi fotografada pelo seu lado direito, pelo que o olhar dela não é fitado
    directamente por quem recebeu o desdobrável. O texto, encimado pelo
    brasão britânico e Buckingham Palace, é o seguinte:

    “I send you my grateful thanks
    for the kind words you have
    sent to me on the occasion of
    my ninetieth birthday

    ELIZABETH R
    2016″

    Em relação ao Charles III e à sua actuação,
    enquanto Rei da Grã-Bretanha, no que
    respeita ao seu irmão Andrew:

    1. O Andrew não foi acusado.

    2. O Andrew não foi julgado.

    3. O Andrew não foi condenado.

    4. Até se provar, em tribunal,
    que o Andrew é culpado de algum
    crime, ele tem direito à presunção
    de inocência.

    5. O Charles III pode dar títulos
    nobiliárquicos. Quanto a retirar
    títulos nobiliárquicos que não
    foram concedidos por ele,
    não pode. Não pode em caso
    de títulos herdados. Não pode
    agir de uma forma arbitrária.

    O Charles III deve ter sido
    influenciado pelos jornais
    “tablóides” e pelos canais
    televisivos.

    Cumprimentos.

    João Barros da Costa

    JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT

    1. … e, também, além disso Carlos III não foi absolutamente um modelo de virtudes e de mora!!! -, de modo nenhum…

  8. Tudo o que diz é verdadeiro e certeiro. Carlos fez o que tinha a fazer (tal como Filipe) para evitar males maiores, ou para correr à frente do prejuízo – parafraseando um bordão muito em moda.

    Se o fez “quando” o devia ter feito, é outra questão, e decerto de somenos.
    A coincidência do seu gesto de pundonor sem concessões ser feito mesmo em cima da publicação das memórias póstumas da (putativa) vítima recorrente do mano príncipe, ainda por cima uma voz que sai do túmulo de suicida, não sei se lhe ficará bem ou só assim-assim.
    Mas como digo, há-de ser questão de somenos, que isso dos pundonores serão daquelas coisas que mais valem tarde e por serem mal menor do que nunca.

    Também concordo com receber cada um o que lhe seja devido, deixando o resto à História.
    Mas enquanto os historiadores não se debruçam com o devido distanciamento destas vicissitudes monárquicas hodiernas, eu vou recorrendo à memória enquanto a tenho.

    E recordo o rei Carlos III e sua rainha Camilla como dois adúlteros militantes e até pouco recatados, fiados mais no sentido do dever dos respectivos cônjuges traídos para silenciarem a infâmia sofrida, do que no seu para não a praticarem.
    Coisas do amor mais irreprimível e elevado, dizem-me, pois se o Carlos até declarou à Camilla que gostava de ser o seu tampão para poder estar sempre com ela! Ouviram a sua súplica os deuses que protegem os amantes, e acabaram mesmo por juntar aquelas almas bem dignas uma da outra.

    Portanto, não sei se “honor is due” será realmente apropriado a um indivíduo que mostrou não ter grandes baias morais, pelo menos no que toca ao respeito pela própria mulher e à prioridade em satisfazer as suas paixões egoístas; e que, se sacrifica agora o irmão ovelha ronhosa, só o faz porque seria de tal maneira escandaloso não o fazer que a “Firma” sofreria um grande rombo no capital de afecto da plebe pagante.

    Visto o que não me levará a mal que não lobrigue onde esteja a “elevação do gesto” ou o “rigor do comportamento”, e mais encómios sortidos, que me parecem tão manifestamente exagerados que os reli, não estivesse a escapar-me o sarcasmo…

    Mas se não vejo é com certeza por miopia minha, já que para tantos são factos evidentes e até dignos de muito incenso.

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