Igual a todos nós


Pedro Correia,

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Gólgota, de Edvard Munch (1900)

 

É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta:

Eloí, Eloí, Lama sabachtami?

Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus – as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo.

Este brado simboliza o desespero de múltiplas gerações de homens solitários clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica. É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana:

Meu Deus, Meu Deus, Porque Me abandonaste?

 

Texto reeditado

24 comentários em “Igual a todos nós”

  1. 1 – “Não, não te abandonei Filho. Se continuasse a proteger-te, não terias coragem de te Transformares. É preciso que morra quem tu és enquanto humano, para nascer o «Ser eterno de Ti, que há-de vir». Não receies.”, respondeu o Pai.

    2 – Evangelho de S. Paulo aos Coríntios:
    (…) O último inimigo que há-de ser aniquilado é a morte.
    (…) O que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer.
    (….) Irmãos, agora vos digo: A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção.
    (…) Eis que vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados.
    (…) Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta — porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis — nós seremos transformados.
    (…) Sem primeiro morreres, o que é corruptível não se transforma em incorruptibilidade, e o que é mortal não se torna imortal.
    (…) E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a Palavra que está escrita.

    1. Só quando deixarmos de ser “humanos”, mas tendo tido a experiência de o termos sido, é que conseguiremos cumprir os “Mandamentos” e estaremos em condições de viver a Eternidade.

        1. Se todos os “humanos” forem os que não conseguem sair do «impasse binário inverso isomorficamente simétrico», isto é, se todos forem a favor ou contra uma coisa qualquer (política, militar, emocional, lógica, científica, religiosa, etc.), se todos ficarem incluídos nesses dois lados, então nunca serão capazes de deixar de ser «putin ou zelensky» (maus/bons, certo/errado, nós/outros, sim/não, etc). Todos serão julgados pelo pecado contra o Mandamento: “não matarás”.

  2. Dá para meditar na exclamação, aos que fazem introspecção. Quantos em sofrimento não a pronunciam e por vezes se recuperam forças e se consolam?
    Boa Páscoa.

  3. Ou melhor: “Eloí, Eloí, lema sabachtani?” Trata-se de uma citação do Salmo 21, 2 que o Crucificado assume, com toda a carga de significado que o seu texto refere. No entanto, esta frase encabeça um salmo marcado pela esperança… que, no fundo, também a Cruz nos traz como mensagem. E, nos dias que correm, quem será capaz de resistir a lançar o mesmo grito?

  4. (…)um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica.

    A Simone Weil dizia que Deus removeu-se do mundo (o mundo, aqui, é aquela totalidade pessoana que é perceptível nos paradoxos de Alberto Caeiro) porque se estivesse presente Ele ocuparia tudo e não haveria espaço para mais nada. Alguém já tinha explicado isto assim antes de Simone Weil?

    Acho que já tive oportunidade de dizer aqui que gosto sempre das suas reflexões sobre estas coisas, caro Pedro, sobretudo no tom.

    Boa Páscoa.

    1. 1 – A Simone Weil, e todas as interpretações do mesmo tipo, não compreendem absolutamente nada da mensagem.
      2 – Quem se queixa (incluindo Jesus, no último estertor antes da morte na cruz) e culpa os “outros” (ou Deus) pelos males do mundo e pelos que lhe acontecem a si próprio, são os que têem medo de se Transformarem (como a Epístola de S. Paulo aos Coríntios vem clarificar).
      3 – A Simone Weil quer continuar a ser a Simone Weil, recusa transformar-se noutra Pessoa, diferente daquilo que é e foi. Daí a sua revolta, contra a Transformação.
      4 – A maior parte dos que interpretam como “Esperança”, também julgam que essa esperança é continuarem a ser os mesmos, sem passarem pela morte e ressurreição, que leva à Transformação.

      1. Os males do Mundo (sofrimento, doença, guerra, crime, corrupção, e todos os outros) derivam de sermos aquilo que somos (de sermos “humanos”). Só com a morte do “ser humano”, que a aceita como um processo da sua própria transformação, conseguirá alcançar imortalidade.

        1. Isso é uma fórmula, resolvida pelo raciocínio. Mas ao mesmo tempo você próprio está a intuir que há mundo para lá do intelecto.

          Pois há. Quer dizer… deve haver.

          1. 1 – Sim. O “sermos humanos” (o termos a capacidade de raciocínio que temos, e o sistema sensorial-perceptivo que temos) impede-nos de compreender, senão através da categoria da “diferença” (a “distinção” e a “diferença” são o nosso limite).
            2 – Eu não “intuo”, que há mundo para lá do intelecto, eu afirmo que ele existe mesmo. Daí o meu nick «SAP3i» (acrónimo de «Singularidade Autónoma Perpétua, insolúvel, indecomponível indestrutível»). Se clicar nele, verá nos meus dois blogs (Mundo-do-Além e Impronuncialismo) essa afirmação (crença).

      2. A Simone Weil, e todas as interpretações do mesmo tipo, não compreendem absolutamente nada da mensagem.

        Mas qual mensagem? Um místico como Weil não precisa de compreender mensagem nenhuma. E ainda bem que não o fazem, porque não têm uma missão evangélica. A sua relação com o mundo é de outra ordem, não vem da palavras, vem da sensação, de uma busca pelo invisível e pelos vários estados do ser.

        Além disso é preciso não acreditar em quase nada para se poder ser um místico.

        1. De alguma forma assim é.
          A propósito de Simone Weil – grande mística, grande pensadora, grande escritora – uma citação dela:
          «Apenas a luz que cai continuamente do céu fornece a uma árvore a energia que crava profundamente na terra as suas próprias raízes. A árvore está, na verdade, enraizada no céu.»
          Bela metáfora.

          1. E outra:
            «Em todos os problemas pungentes da existência humana, a escolha é apenas entre o bem sobrenatural e o mal.»
            (Do livro ‘A Pessoa e o Sagrado’, Guerra & Paz, 2022)

  5. Da Bíblia. li alguns excertos. No mais, tive formação católica.
    No AT, texto que mais me impactou: O ECLESIASTES.
    Por exaltar as ilusões da existência.
    Algumas tidas, poucas, a sabedoria que integra, é tão perfeita, que desanima.
    Mas, gloriosamente.
    Versão de prefiro, a dos Capuchinhos.

    1. Ler a Bíblia não é apenas uma questão de fé: é também um acto de exigência cultural. Toda a nossa cultura está impregnada dela. Na música, na pintura, na escultura, na arquitectura, no teatro, no cinema, na linguagem, no imaginário.

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