Igual a todos nós


Pedro Correia,

 

É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta:

Eloí, Eloí, Lama sabachtami?

Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus – as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo. Este brado simboliza o desespero de múltiplas gerações de homens solitários clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica. É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana:

Meu Deus, Meu Deus, Porque Me abandonaste?

 

Texto reeditado

 

Quadro: Gólgota, de Edvard Munch (1900)

11 comentários em “Igual a todos nós”

  1. Hoje e agora, entrei aqui mesmo, apenas para ver a sua mensagem de Páscoa.
    Há exactamente um ano, este texto deslumbrou-me, causando-me até arrepios e várias vezes o tenho consultado. lido e pensado sobre ele.
    Nunca vi nada tão bem escrito, tão cheio, com tanta alma, tão profundo, tão maravilhoso, tão a propósito da época que vivemos hoje.
    Entrei com a certeza que dificilmente algo seria igual.
    E afinal, reencontro-o.
    Que bom! Nunca é demais, hoje encheu o meu dia da mesma forma que há um ano, quando o li pela primeira vez. Excelente a mensagem, como preciso é o texto.

    Feliz Páscoa, Pedro!

    1. Obrigado pelas suas palavras tão sentidas, que só agora li no regresso de umas curtas férias no estrangeiro, caríssima amiga. Só pelo seu comentário já valia a pena ter escrito essas linhas, desprentensiosas mas também muito sentidas.

  2. Belo texto, Pedro. A mim, mulher de pouca fé (quem me dera que ela fosse maior e mais sólida) é precisamente essa dimensão humana de Jesus Cristo que mais me comove e, talvez por isso mesmo, me aproxima Dele. Apesar de todas as dúvidas, angústias e inquietações existenciais, é cristã que me sinto ainda.

    Boa Páscoa.

  3. É o nosso reflexo nesse grito. O limite de nós no começo de uma fé, que não se equaciona, nem se materializa. Apenas se reduz à nossa imensa insignificância.
    Belíssimo, Pedro.

    Uma Páscoa Feliz.

    1. Obrigado, Cristina. É também assim que interpreto: há o nosso reflexo nesse grito, tão lancinante, tão “existencial”, tão sublime.
      Páscoa feliz para si também.

  4. ” É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana”.Termina assim o seu post , que me sensibilizou. Perdoe acrescentar-lhe que não foi um grito em vão. Mobilizou esperanças, ergueu estandartes e derrubou poderes e fez cair o esclavagismo. É assim que O lembro…
    Boa Páscoa

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *