É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta:
Eloí, Eloí, Lama sabachtami?
Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus – as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo. Este brado simboliza o desespero de múltiplas gerações de homens solitários clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica. É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana:
Meu Deus, Meu Deus, Porque Me abandonaste?
Quadro: Gólgota, de Edvard Munch (1900)


Também gostava de saber…
Todos gostávamos, Daniel.
Uma pergunta que encerra a contradição entre a existência de Deus e a necessidade da Sua comparência. Sintetiza, numa palavra, a incerteza.
São as incertezas a que a Fé responde sem dar resposta, as dúvidas eternas dos que se sentem abandonados e que precisam que Ele se manifeste.
ADENDA
Sintetizada numa palavra: incerteza.
É, como refiro no texto, a mais dramática frase da Bíblia. E também uma das que mais nos fazem reflectir: será possível aquele Pai abandonar assim aquele Filho? E porquê? E para quê? E por amor de quem? Questões que se reacendem cada vez que se renova esta quadra única.
Boa Páscoa, compadre.
Obrigado e igualmente, compadre.
Adoro este quadro!
Munch, imortal. Uma arte que nunca passa de moda, Teresa.
Esplêndida, Pedro, mais esta reflexão que nos traz sobre o actual momento da liturgia pascal, bem em linha com o seu anterior post “Poema a Csito Crucificado”. Parabéns e boa Pàscoa.
É sempre esta Pai que nos resta, quando nos sentimos depojados do mais. E aproveito para esclarecer que este é tema que nem sequer discuto.
Quem sente que tem um último reduto deve conservá-lo bem. Obrigado, Joaquim, pelo destaque que fizeste n’O Anónimo.
Um grande abraço.
Obrigado, Luís. Votos de uma feliz Páscoa.
Destaquei. Sem comentários!
Um abraço.
Obrigado, caro João.
Um grande abraço, com votos de boa Páscoa.
Excelente, Pedro. Excelente mesmo, um momento que nos remete ao silêncio, em profunda reflexão.
Um grito de dor, sem esperar resposta, um Jesus-Homem que, tal como nós, suplica ao Pai que não O abandone.
Tal como nós. Experimentou a condição humana – e nenhum deus foi tão grande exactamente por causa disso.
Obrigado pelas suas palavras. Boa Páscoa.
…e apesar disso seguimos caminhando, construindo e amando, provando que não fomos abandonados !
Santa Pascoa.
Agradeço e retribuo, Rodrigo.
…o lado humano de Jesus! Logo, o desespero humano est.
Feliz Páscoa !
Desejo-lhe uma doce Páscoa, Júlia.
Já fiz esta pergunta algumas vezes e depois tive que lhe agradecer por me ter dado a mão ou … me ter empurrado novamente cá para baixo.
A dúvida persiste ….. Será que abandona mesmo?
A dúvida é inerente à condição humana, Grilinha. Do mesmo passo que a fé. Os trechos do Evangelho a que me refiro também nos ensinam isso.
“um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica”
Não permanece desconhecido…nós é que não o queremos conhecer…encarar…Imaginamos que é um mágico, alguém que resolve tudo e provoca tudo…Falso!
As nossas incapacidades fazem de Deus um ser Injusto em vez de um ser sereno…………….imenso e pleno…..
Cleópatra: procuro falar aqui, entre outras coisas, em quem procura Deus e chama por Ele sem receber eco. E em quem procura sinais de Deus no mundo e não os encontra. O próprio Jesus, por instantes, num instante supremo, pareceu ter duvidado. Toda a fé coexiste com parcelas de dúvida. A Páscoa também serve para pensarmos nisto.
(Boa Páscoa)
Pedro….Estar atento… saber escutar….
Talvez Jesus tenha pensado não que o Pai como ele lhe chama o abandonou, …mas que ele, Jesus,… de repente se deixa abandonar…..
Deus permanece sempre tão subtilmente e nós tão materialistas não o sentimos….Não procuremos…ele está lá…
Feche os olhos e escute-se.
: )
Perante o seu postal, resta-nos o silêncio e a reflexão. E um obrigado pela sua chamada de atenção a esta sociedade, adormecida pela tecnologia e pelos “gadjets” que a entorpecem.
As palavras que Jesus pronunciou – ” Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” – foram entendidas pelos Místicos como Ele [apesar de só e abandonado pelos homens, inclusive pelos Seus Apóstolos (à excepção de João, o discípulo muito amado…] pôde tudo ultrapassar pela Sua fidelidade a seu Pai. É a demonstração da real possibilidade de um qualquer de nós permanecer na Fé, no Amor e na Esperança, apesar de todas as contrariedades, angústias e martírios.
Pelo Seu exemplo, muitos de nós que experimentaram já as agruras da vida, permanecem inabaláveis na Fé. Afinal, é na dor que nos revelamos fiéis ou infiéis. Em tudo, aliás…
Obrigado pelas suas palavras e pela sua achega. Votos de uma Páscoa feliz.
AH! E …Boa Páscoa…renasça… se for caso disso. 🙂
Páscoa é isso mesmo: renascer. Boa Páscoa, Cleópatra.
ainda a tempo, apenas para desejar boa Páscoa!
Obrigado, Miguel. Boa Páscoa também para ti.
O SILÊNCIO
Regressamos a uma terra misteriosa
trazemos uma ferida
e o corpo ferido
imprevistamente nos volta
para margens mais remotas
Giorgio Armani tinha declarado
àquele jornal inglês: «o luxo desagrada-me,
é anti-democrático.
Quero agora homenagear os operários de todo o mundo»
Eu só pensava em São João da Cruz
enquanto ouvia pela enésima vez:
«a moda substituiu o luxo
pela elegância»
João da Cruz fala de coroas,
resplendores, casulas
véus de seda, relicários de ouro e
diamantes
para lá do jogo das nossas defesas
qualquer coisa interior
a intensa solidão das tempestades
os campos alagados,
os sítios sem resposta
o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços
– José Tolentino Mendonça-
Gosto muito deste poema, Lili. Ainda bem que o trouxe para aqui. Boa Páscoa.
Obrigada,
Espero que esteja a ter uma boa Páscoa também.
Nada má, Lili. Desejo-lhe o mesmo.