Igual a todos nós


Patrícia Reis,

 

É a frase mais dramática de toda a Bíblia. A frase que Cristo profere na cruz, quando todas as forças já lhe falecem no corpo em chaga, e brada aos céus com o último alento que lhe resta:

Eloí, Eloí, Lama sabachtami?

Este episódio da Paixão, que vem mencionado nos Evangelhos de Mateus (27,46) e Marcos (15,34), sempre me impressionou. Porque nos revela, mais que nenhum outro, a face humana de Jesus – as dúvidas, as angústias, a profunda inquietação existencial de um Jesus terreno, despido da sua condição divina, igual a todos nós. Na dor, no sofrimento, no desamparo. Este brado simboliza o desespero de múltiplas gerações de homens solitários clamando em momentos de aflição por um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica. É um grito lancinante que ecoa desde os confins dos tempos e se ramifica a todos os espaços onde chega a voz humana:

Meu Deus, Meu Deus, Porque Me abandonaste?

 

Quadro: Gólgota, de Edvard Munch (1900)

36 comentários em “Igual a todos nós”

  1. Uma pergunta que encerra a contradição entre a existência de Deus e a necessidade da Sua comparência. Sintetiza, numa palavra, a incerteza.
    São as incertezas a que a Fé responde sem dar resposta, as dúvidas eternas dos que se sentem abandonados e que precisam que Ele se manifeste.

      1. É, como refiro no texto, a mais dramática frase da Bíblia. E também uma das que mais nos fazem reflectir: será possível aquele Pai abandonar assim aquele Filho? E porquê? E para quê? E por amor de quem? Questões que se reacendem cada vez que se renova esta quadra única.
        Boa Páscoa, compadre.

  2. Esplêndida, Pedro, mais esta reflexão que nos traz sobre o actual momento da liturgia pascal, bem em linha com o seu anterior post “Poema a Csito Crucificado”. Parabéns e boa Pàscoa.

  3. Excelente, Pedro. Excelente mesmo, um momento que nos remete ao silêncio, em profunda reflexão.
    Um grito de dor, sem esperar resposta, um Jesus-Homem que, tal como nós, suplica ao Pai que não O abandone.

  4. …e apesar disso seguimos caminhando, construindo e amando, provando que não fomos abandonados !
    Santa Pascoa.

  5. Já fiz esta pergunta algumas vezes e depois tive que lhe agradecer por me ter dado a mão ou … me ter empurrado novamente cá para baixo.

    A dúvida persiste ….. Será que abandona mesmo?

  6. “um Pai que permanece teimosamente desconhecido, indiferente ao destino trágico dos seres dotados de consciência que lançou como grãos de areia na imensidão cósmica”

    Não permanece desconhecido…nós é que não o queremos conhecer…encarar…Imaginamos que é um mágico, alguém que resolve tudo e provoca tudo…Falso!

    As nossas incapacidades fazem de Deus um ser Injusto em vez de um ser sereno…………….imenso e pleno…..

    1. Cleópatra: procuro falar aqui, entre outras coisas, em quem procura Deus e chama por Ele sem receber eco. E em quem procura sinais de Deus no mundo e não os encontra. O próprio Jesus, por instantes, num instante supremo, pareceu ter duvidado. Toda a fé coexiste com parcelas de dúvida. A Páscoa também serve para pensarmos nisto.
      (Boa Páscoa)

      1. Pedro….Estar atento… saber escutar….
        Talvez Jesus tenha pensado não que o Pai como ele lhe chama o abandonou, …mas que ele, Jesus,… de repente se deixa abandonar…..

        Deus permanece sempre tão subtilmente e nós tão materialistas não o sentimos….Não procuremos…ele está lá…
        Feche os olhos e escute-se.

  7. Perante o seu postal, resta-nos o silêncio e a reflexão. E um obrigado pela sua chamada de atenção a esta sociedade, adormecida pela tecnologia e pelos “gadjets” que a entorpecem.

    As palavras que Jesus pronunciou – ” Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” – foram entendidas pelos Místicos como Ele [apesar de só e abandonado pelos homens, inclusive pelos Seus Apóstolos (à excepção de João, o discípulo muito amado…] pôde tudo ultrapassar pela Sua fidelidade a seu Pai. É a demonstração da real possibilidade de um qualquer de nós permanecer na Fé, no Amor e na Esperança, apesar de todas as contrariedades, angústias e martírios.

    Pelo Seu exemplo, muitos de nós que experimentaram já as agruras da vida, permanecem inabaláveis na Fé. Afinal, é na dor que nos revelamos fiéis ou infiéis. Em tudo, aliás…

  8. O SILÊNCIO

    Regressamos a uma terra misteriosa
    trazemos uma ferida
    e o corpo ferido
    imprevistamente nos volta
    para margens mais remotas

    Giorgio Armani tinha declarado
    àquele jornal inglês: «o luxo desagrada-me,
    é anti-democrático.
    Quero agora homenagear os operários de todo o mundo»
    Eu só pensava em São João da Cruz
    enquanto ouvia pela enésima vez:
    «a moda substituiu o luxo
    pela elegância»

    João da Cruz fala de coroas,
    resplendores, casulas
    véus de seda, relicários de ouro e
    diamantes

    para lá do jogo das nossas defesas
    qualquer coisa interior
    a intensa solidão das tempestades
    os campos alagados,
    os sítios sem resposta

    o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços

    – José Tolentino Mendonça-

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