Imaginemos que eu fazia crítica de livros. Imaginemos que tinha para criticar um livro de um autor que eu sempre detestei. Por motivos vários, tenho mesmo de escrever a recensão desse livro. Por acaso, até escrevo que não gosto daquele autor, mas que me surpreendeu, porque o livro até tinha partes boas. Imaginemos tudo isto: perfeitamente normal, certo? É a minha profissão escrever sobre livros, nem sempre vou gostar do que tenho para ler. Aliás, até seria estranho se gostasse de todos os livros que me passam pela mão.
Agora, imaginem que recebo cartas de leitores indignados por eu não gostar daquele autor. E recebo insultos, vários, e disparates diversos. Penso eu: vou encolher os ombros, não podemos contentar sempre todos. Mas não: um dos directores da publicação em que escrevo faz um editorial a pedir desculpa aos fãs do autor por mim, num tom subserviente e que insulta o meu trabalho. Pior: depois vem o provedor da mesma publicação dizer em tom autoritário que, se não gosto daquele autor, nunca deveria ter escrito sobre ele. Diz ele que não é curial. Assim, categoricamente.
Pode isto acontecer em Portugal? Pode. Na verdade, não se trata de livros, mas de uma crítica a um concerto, e tudo isto está a acontecer a um crítico musical, João Bonifácio. O jornal é o Público, e o artigo do provedor pode ser lido aqui. A liberdade de expressão está em sérias dificuldades por estas paragens.

João Bonifácio tem, obviamente, toda a razão neste caso. Não se compreende como é que o Público assume a posição que assumiu. Se cada um, a partir de agora, só escrever sobre aquilo de que gosta acabam-se os juízos críticos em Portugal. E no fundo é um pouco já isso que tem vindo a suceder: pratica-se uma opinião certinha, acomodada, sem fazer ondas, de bola baixa, que não adianta nem atrasa. Os exemplos são imensos – e cada vez em maior número. A tão propalada ‘crise da imprensa’ também se deve muito a isto.
exactamente. certinho, para não incomodar ninguém. triste país este.
Compadre, dizes que qualquer dia acabam-se os juízos críticos? Sabes bem que escasseiam tanto que até parece que já acabaram. Sobre filmes, livros, concertos ou restaurantes, se não acabaram estão à beira da extinção.
Tens razão. E até sobre restaurantes. É tudo excelente, maravilhoso, genial. Nada que possa ser levado a sério, portanto.
Eu não percebo muito bem esta “polémica”, sinceramente.
Que tenha reparado, o que esteve em causa não foi nenhuma das bandas em cartaz, nem sequer os/as fãs de nenhuma delas. Foi mesmo o Belenenses, que se sentiu “ofendido” pelas referências que João Bonifácio fez ao clube a propósito de algo que não lhe diz respeito. O clube protestou, o jornal pediu desculpa. Mas nem por isso retirou o texto.
O jornal poderia ter optado por não pedir desculpa. Nesse caso, ou o assunto morria, ou o Belenenses avançava para tribunal, e aí seria decidido quem tinha razão. No caso, o jornal pediu desculpa. Pronto.
Ou então fazemos como já li por aí: acaba-se com essa história do “bom nome” e similares. Também me parece uma boa ideia (sem ironia).
De resto, houve um erro, aliás reconhecido, do próprio jornal: não era claro que o texto fosse crítica ou reportagem. Eu mesmo quando li pensei que fosse reportagem – e pensei “mas que raio de reportagem é esta?”. Opinião que não mudou – reportagem ou crítica, continuo a achar o texto muito fraquinho. Não que por isso deva ser censurado, naturalmente, mas também não me parece ter sido esse o caso.
Subscrevo na íntegra! Uma palavra mudava o rumo das coisas: mudar o título “reportagem” para “opinião”. Esta reportagem parece feita pela Manuela Moura Guedes da música! Que os fãs de The Killers protestassem (e protestaram), azar o deles. Mas a referência ao futebol é um tanto ou quanto desnecessária. Logo, toda a analogia do post está um bocadinho desadequada.