Interrupções e conceitos


João Carvalho,

Israel decidiu interromper hoje a guerra em Gaza por três horas, para ajuda humanitária. E parece que é assim mesmo que o conflito vai continuar: uma trégua de três horas por dia, para acorrer às vítimas das restantes 21 horas diárias de guerra.

À indiferença com que se matam civis – crianças e velhos incluídos – acresce a previsão desumana das partes beligerantes, que concedem um intervalo regular para socorrer ou recolher as vítimas da guerra. Assim a frio, pode dizer-se que a diferença entre esta guerra e as da Idade Média não vai muito além das fardas e do armamento, por exemplo. E da própria interrupção, claro.

Quanto à diferença entre esta interrupção e outras interrupções, ela está no conceito. Esta é um pouco como nos cinemas, em que a interrupção corresponde a um intervalo. Ou como nos velhos tempos da RTP, em que era retomada a programação após a interrupção, a qual até originava um pedido de desculpas. Diferente é a eufemisticamente chamada ‘interrupção voluntária da gravidez’, em que a interrupção é definitiva e nada se retoma.

Israel e a Palestina deviam pensar no conceito que Portugal associa ao aborto, juntar-lhe um pedido de desculpas tipo RTP a preto-e-branco e deixar o intervalo para os filmes. Mas preferem a razão da força. Contra crianças e velhos, os dois serão seguramente vencedores.

15 comentários em “Interrupções e conceitos”

  1. antes demais, muito bom post, de qualquer forma, apenas uma correcção: interromper nao significa apenas suspender temporariamente.

    cumprimentos

    1. Obrigado, Sylvester, pela amabilidade. Quanto ao reparo, nem precisava: «interromper nao significa apenas suspender temporariamente» e ‘interrupção voluntária da gravidez’ significa ‘aborto’. Agora, com franqueza, parafreseando uma quadra da meninice de todas as gerações, diga-me o que lhe soa melhor:
      ‘com cinco letrinhas apenas
      se escreve a palavra Aborto’
      ou
      ‘com trinta e uma letrinhas e dois espaços apenas
      se escreve Interrupção Geral da Gravidez’?…

      1. Muito engraçado de facto.

        e aproveito também para felicitar pelo blogue que está muito bom.

        cumprimentos

  2. Caro João
    A tua estreia na bloga está um must. Estás em forma regressando aos velhos tempos em que eras um dos melhores jornalistas em Macau. Este blogue é só ‘delinquentes’ de cinco estrelas… eu disse cinco? Desculpa, queria dizer 555!

  3. É dificil aceitar como todo o Mundo vê este Genocidio em massa numa luta de David contra a Golias, e ninguém em nenhum lado se revolta contra isto, como que um aceitar de culpas pelo que o Holocausto fez aos Judeus nos anos 40/50. Bom seria que eles se tivessem revoltado contra os Nazis Alemães nesse período e em nenhum caso tivessem aceite os 52% de terreno Palestiniano que ocuparam naquela altura. Hoje Eles (Palestianos) são os seus escravos e o terreno é práticamente todo deles. Foi culpa dos mesmos USA/INGLATERRA que hoje os Judeus se vingam no Povo errado. Era com os Alemães que se deviam entender.

    1. Não tenho a mesma facilidade em tomar partido. Aquilo era, à época, terra estéril e abandonada. De qualquer modo, não me parece que o mundo esteja a assistir passivamente. Estão a ser feitos esforços a partir de diversas iniciativas. Insuficientes, está visto. Nisso, tem razão.

  4. Há uma estranha esquizofrenia nesta medida, aparentemente boa, de fazer um intervalo na guerra para tratar dos mortos e feridos dessa mesma guerra. É como dar com uma mão e tirar com a outra, ou dar a um faminto comida envenenada e depois ir a correr dar-lhe um antídoto. Acalmar consciências pesadas não chega, é só uma anestesia e uma batota. Há uma população civil indefesa e encurralada no próprio campo de batalha, e isso é intolerável. São os únicos inocentes nesta história e ninguém lhes perguntou se queriam morrer ou ficar estropiados, com um intervalozinho para lamber as feridas.

  5. A questão não é assim tão simples e tão linear como a colocas. O conflito ultrapassa a mera questão geográfica ou territorial, como é referido num comentário.
    Mais. É quase inevitável tomar-se partido por uma das partes, sobretudo, se se conhecer um pouco sobre o passado e as razões que ‘motivam’ e ‘alimentam’ este conflito.
    Além disso, parece muito fácil falar em vítimas (e sentir comiseração), simplesmente porque se usa como exemplo aqueles que são, manifestamente, pelas suas características físicas, mais frágeis.
    Mas, desde muito cedo, as crianças aprendem e são instigadas a seguir uma das ‘facções’. O ódio que vês nos adultos começa nos mais jovens que, com o tempo, se vão organizando.
    Além disso, parece ser fácil, aos que estão longe daquela realidade (porque não a vivenciam), condenar uma das partes do conflito por determinados actos, mas esquecem-se que, tanto da parte de uns como de outros, existem antigos ressentimentos e ódios que foram passando de geração e que, por isso mesmo, dificilmente serão ultrapassados e esquecidos.
    Há feridas que nunca saram!

    E, por curiosidade, se perguntasses a um soldado americano que combateu no Iraque se, quando olhava para um velho sentado junto à porta de uma casa, ele via um velho ou um assassino, ele responde-te, prontamente, que é difícil, pois eles confundem-se. Em cada rosto que olha fixamente para ele, o soldado não sabe se tem à sua frente um velho ancião, inocente e simpático, de sorriso aberto e que até partilha, se preciso for, a sua refeição com ele, ou um elemento de um grupo terrorista islamista…disfarçado de civil…

    P.S. Não percebi a analogia entre este conflito e as guerras na Idade Média. Para ti, só se distinguem ou diferenciam pelo armamento e pela indumentária?!
    Fico sem saber, realmente, o que pretendes dizer, pois mais uma vez, apenas, te centras na questão da ‘barbárie’, como insinuas.

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