Inversão de valores


João Carvalho,

Já aqui temos falado de valores (e da falta deles). Ainda há um mês, fizemo-lo a propósito de um inesperado manual de recomendações dirigido aos funcionários de uma nova Loja do Cidadão algarvia. Chegou agora a vez de uma escola no Pinhal Novo, que passou a impor limites de decência no vestuário.

O mais curioso é que a escola impõe regras aos alunos e a associação de pais apoia. Tenho de rever os meus próprios valores: sempre achei que os pais é que deviam impor regras aos filhos e que a escola nem precisaria de manifestar o seu óbvio apoio…

26 comentários em “Inversão de valores”

    1. O Carlos Barbosa de Oliveira não tem filhos. Ou então tem-nos, mas tem também criadas, ou avós e tios que o ajudam a tomar conta deles. Só assim se pode explicar esta crítica tão bizarra.

        1. Eu não acho bizarro. É certamente triste que tantos pais tenham pouco tempo para os filhos. Infelizmente, faz parte da condição presente.

          O infantário onde anda o meu filho mais novo está aberto onze horas por dia. E há algumas crianças que lá passam quase esse tempo todo. Eu tenho pena delas, mas não me vou pôr a criticar os pais. Não me sinto numa tal situação de superioridade moral, para estar a julgar os outros dessa forma.

          Mais depressa, apesar de tudo, criticaria aqueles pais que se transformam em chôferes dos filhos, passam as tardes todas a conduzi-los de um lado para o outro, a levá-los para à aula de natação, e de inglês, e de violino, e etc.

          1. Pois, pela minha parte, acho muito mais lamentável que muitos pais façam tudo para deixar os filhos(as) menores na escola o tempo máximo possível e, aos fins-de-semana, ainda os(as) soltem na noite sem qualquer espécie de controlo…
            Mas é de vestuário que aqui se trata. A escola impõe decência e a associação de pais regozija-se. Espantoso!

            1. Eu também acho lamentável que deixem os filhos tanto tempo na escola, João, mas não me considero numa situação de superioridade moral para os criticar. Compreendo que muitas pessoas têm, infelizmente, uma vida bem mais complicada do que a minha. E que muitas pessoas não têm – tal como eu não tenho – avôs e tios a viverem na mesma cidade para apoiarem. E não vou dizer que essas pessoas, pelo facto de não terem as condições ótimas para educar os filhos, devem ser proibidas de os ter.

              Quanto ao vestuário, acha naturalíssimo que a associação de pais se regozije quando a escola impõe decência. Se a escola educa bem as crianças, é natural que os pais agradeçam o apoio e se regozijem. Ao fim e ao cabo, os pais também se regozijarão se a escola passar a oferecer aulas de música e de natação aos petizes, livrando os pais de terem que ser eles a procurar tais aulas por fora. Não é?

  1. É um facto que muitas vezes se vestem para ir para a Escola como se fossem para a discoteca ou para a praia. Aqui está um exemplo menor do alargamento das funções da Escola. Às vezes parece que se fala de pais como de uma entidade que funciona num mundo sem máculas. Deve ou não a Escola “ensinar” também estas coisas? São ou não importantes na formação dos alunos? O grave, do meu ponto de vista, é quando a Escola, para acudir a estas coisas, se esquece das suas tarefas tradicionais. Ninguém de bom senso acha que a escola não serve para ensinar a matéria de ensino (passe a redundância) e que a aprendizagem desta se faz sem trabalho. Mas, hoje em dia, também é necessário ensinar estas coisas básicas que alguns pais não sabem porque não querem, ou nem sequer sabem que não sabem. Não há grande volta a dar. Caso contrário poderiamos continuar no tempo da instrução. O salto de instrução para educação, há-se significar mais do que uma mera actualização de palavras.
    Et voilá, que este sol da hora de almoço é muito estimulante e as palavra são como as cerejas.

    :))

  2. Esperem aí que vou ali fazer uma perninha e já volto…
    Tarde ou cedo as pessoas desmascaram-se. Este é um deles.
    Chocante !
    Quanto ao PPM …
    Olhem, é como a monarquia: Também não existe em Portugal. Nem por muito que cantem o fado ou tenham um santinho na família.

  3. 1) A escola do Pinhal Novo não é original. O jornal i de hoje refere mais meia dúzia de outras escolas que têm variados regulamentos de vestuário.

    2) Nada tem de surpreendente que os pais apoiem. O mesmo se tem verificado em colégios da Grã-Bretanha, em que os pais apoiam quando os colégios obrigam os miúdos a usar uniformes. A vantagem é que, sendo obrigados a usar uniforme, deixam de chatear os pais com a mania de comprarem roupa de marca para competir ou se comparar com os colegas. E não pense o João que a pressão dos filhos nesse sentido é uma coisa fácil de suportar. Todos os marketeiros sabem que uma das formas mais eficazes de obrigar um pai a comprar um poduto, é pôr o filho a pedir-lho. As crianças e jovens sabem ser infinitamente chatas, sobretudo quando se trata de comprar qualquer coisa para se igualar ou competir com os colegas. E não, não pense que é fácil educar um filho, sobretudo quando se está em competição direta com os colegas dele. Se uma miúda vê todas as colegas a andarem com o umbigo à mostra, de nada valerão os conselhos dos pais no sentido de usarem camisolas mais compridas. Para a miúda é infinitamente mais importante vestir-se como as colegas do que seguir as lições dos pais.

    1. Apoiar uniformes, que são decididos (ou não) pelas escolas, é uma coisa; coisa diferente é os filhos quererem usar as marcas da moda. Nada disto, porém, está referido no meu ‘post’, porque eu só falei em vestuário (in)decente.

  4. João:

    Oh, João, está um bocado atrasado no tempo,no regime Socrático em que vivemos é o estado (ou será o Partido) que impõe as regras (onde é que eu já vi isto) o resto são balelas, é triste ao fim de 35 anos do 25 de Abril estarmos a retroceder para o 24 do mesmo mês.
    Aliás ontem ouvi o engº a falar em pré-primário e em 400 milhões de euros em investimento, mas olhando para a nossa taxa de natalidade pergunto eu daqui a quanto tempo vão estas escolas fechar?
    Tal como diz no meu tempo de moçoilo a educação era dada e aprendida em casa, hoje nem em casa e pelas amostras nem nas escolas mas tudo bem a tia Lurdinhas e o tio Sócas é que sabem.
    Chegaremos a algum lado?

  5. Eu tenho uma filha de 13 anos, que frequenta a escola pública e uma excelente escola pública (fossem todas assim) e sei perfeitamente, até entendo e em alguns casos apoio medidas como estas por parte de alguns conselhos executivos.
    O mais grave de tudo isto é que a culpa não é somente dos miúdos e provavelmente a palavra culpa até será forte, no caso deles.

    Mas é sem dúvida e em absoluto dos pais. Esses sim, é que deviam voltar à escola e àquela escola do tempo das reguadas, das palmatórias e das orelhas de burro.
    Presencio diariamente atitudes de puro relaxe, de total desinteresse e de uma alienação assustadora, por parte de muitos encarregados de educação com os seus filhos adolescentes.
    Mas são esses, os primeiros a apontar o dedo acusatório à escola.

    João, este post e este tema ocupariam uma semana de comentários.

    1. Concordo, Patti, embora este tipo de ‘proibições’ me incomode. Não vejo os meus alunos vestidos de forma desrespeitosa, vejo-os transgressores ao seu modo, mas são adolescentes, faz parte da sua condição.

      1. Este ‘post’ não é uma crítica à medida tomada pela escola, Leonor. Antes pelo contrário. A minha crítica é direitinha para os pais que ficam à espera que a escola imponha o que deviam ser regras no seio da família e se regozijam por a escola os substituir.

      2. Leonor, eu penso que o grupo etário dos seus alunos esteja mais acima daquele de que falo e isso faz toda a diferença.
        Uma coisa são miúdos de 11/12/13 anos que começam agora a despertar para tudo, em que qualquer coisa que saia do normal é um desafio e uma tentação, mas não têm ainda a maturidade necessária para medir as coisas, pesá-las na balança do bom senso e muito menos para contrariá-las. E com pais como os que eu vejo, infelizmente, o futuro de muito deles é bem fácil de delinear.

        Aos 16/17/18 anos, o caso muda de figura e aí sim, concordo consigo nessa saudável transgressão própria do amadurecimento e da passagem a adulto.
        Já ponderam mais as situações, os desafios e não se deixam influenciar tão facilmente.

        Há excepções obviamente, o ser humano é tudo menos linear e os adolescentes menos ainda.

      1. Sim João, eu entendi o seu espanto na inversão de valores.. O meu comentário foi no sentido de reforçar a posição tomada por esses pais. Claro que as reguadas, a palmatória e as orelhas de burro foram uma hipérbole, mas lá que houve alguns que deram saltos de alegria, ai lá isso deram!

        É menos um problema para lhes tirar o sono e que atiram para trás das costas e pior, agora têm onde malhar e onde pedir responsabilidades, se algo der para o torto.

        Quer melhor medida, para os incompetentes?

  6. Caro João, estou completamente de acordo com o comentário da patti . Por outro lado irrita-me um pouco este reflexo condicionado quase pavolviano de malhar como gato a bofe em tudo o que mexe e que venha da área de instituições tuteladas por ministérios. Afinal de contas todos nos queixamos de laxismo, do deixar andar, de falta de propósitos de saber estar, enfim questões que deveriam ser básicas, mas que infelizmente não são. Quando alguém faz alguma coisa, zás malhamos no “socas”… que ferro….!

    1. Chamei a este ‘post’ «Inversão de valores», Ariel. Com efeito, o que acho lamentável é a educação em casa falhar de modo tão escandaloso. Quanto à escola, faz o que pode junto dos alunos, para contrariar o que lhes falta no lar. Parece, pois, que não estamos em desacordo.

  7. O problema, João, é que nos tempos que correm não podemos ter nada como garantido e os pressupostos de que partíamos antes são inexistentes ou deixaram de ser válidos. Os dias na escola são passados também a ensinar maneiras, formas de estar e respeito mútuo ou a exigir respeito. Porque conheço bem o terreno não me surpreende que a Associação de Pais se regozije. Além de tudo o que foi dito, pode ser também uma forma de sacudir mais uma responsabilidade. Ficaria surpreendido se soubesse a quantidade de pais que admitem que não conseguem fazer nada dos filhos. O olhar de impotência é perturbador, acredite.

    1. A resposta que dei acima à Ariel completa o que eu pretendi sublinhar, Leonor. Não fico surpreendido, porque conheço casos idênticos aos que refere. Apenas acho lamentável. A escola, perante a impotência paterna, faz o que pode e até ultrapassa o que devia ser o seu papel. Estamos de acordo.

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