Já acabaram de ler as cartas?


Paulo Gorjão,

Na próxima reunião semanal, Aníbal Cavaco Silva e José Sócrates poderão comparar as cartas que cada um recebeu de Barack Obama. Podem até fazer um exercício do género descubra as diferenças. Entretanto, enquanto os líderes europeus estão entretidos a ler a correspondência de Washington, os líderes asiáticos falam pessoalmente com Hillary Clinton. A secretária de Estado optou por fazer a sua primeira deslocação oficial à Ásia e não à Europa. Li algures que nos últimos dez secretários de Estado norte-americanos apenas George Schultz também iniciou as suas funções com uma deslocação não europeia, no seu caso à América Latina.

Os EUA poderão dizer que Biden já esteve em Munique, mas a verdade é que o vice-presidente não é o responsável pela política externa norte-americana. Bem sei que a deslocação de Clinton à Ásia em primeiro lugar não implica necessariamente um downgrade das relações com a Europa. É possível que não, mas Barack Obama já deu sinais suficientes de que se preocupa e aceita o lado simbólico da política. Não foi por acaso que Guantánamo esteve e está no topo das suas preocupações. Clinton também não o ignora, ela que tanto tem acentuado o lado smart do poder. No que toca à Europa, começamos com um sinal preocupante.

16 comentários em “Já acabaram de ler as cartas?”

  1. Caro Paulo Gorjão,

    Eu substituiria o “preocupante” por “inevitável”. É consensual que a geopolítica está a mudar, com o novo eixo baseado no potentado económico Pacífico-Índico. E Obama deu, em campanha, sinais claros disso.
    No caso da China, há uma preocupação mútua em não deixar caír as máscaras de receio, mas a crise em Pequim, combinada com o facto de a China ser o maior detentor de dívida pública americana geram receios em Wen Jiabao. Do lado americano, há uma necessidade próxima vital de financiamento externo.
    No caso da Índia, seria interessante uma paragem em Deli antes de Pequim, pois é o maior temor da China. E a Indonésia é um sinal ao islamismo.
    Explorei estas ideias em http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/02/o-eixo-estrategico-do-extremo-oriente-e.html

    Cumprimentos,
    Carlos Santos

            1. A lágrima não foi por isso, valha-me Deus! É que é tardíssimo e eu choro porque tenho um dia bravo pela frente. Estou aqui, olho no blogue, olho no código, prazo para cumprir daqui a pouco. Choro. Comvulso 🙂

    1. Caro Carlos Santos, não o acompanho no “inevitável”. Ainda me lembro da fase em que o grande perigo e o grande rival pós-Guerra Fria seria o Japão. Acresce que o eixo Ásia-Pacífico pode ter poder económico, mas não é ainda para o eixo Ásia-Pacífico que os EUA olham quando quando as coisas aquecem. Não é ainda, nem vai ser nos tempos mais próximos. De acordo consigo, porém, no que toca ao papel e à crescente aproximação à Índia. Acontece que a Administração Obama já deu sinais claros de estar (ainda) meio perdida nesta matéria. Basta recordar o que aconteceu com a nomeação de Holbrooke e com a (in)definição inicial das suas competências.

      1. Eu atrevia-me a reiterar uma tese que tenho defendido. Fala-me em quando as coisas aquecem. OK, há sítio onde as veja mais a ferver que no Sul do Afeganistão (tribos Pashtun e Talibãs Inc.)? E alguém acredita de facto que a Europa que recusou receber gente de Guantanamo, poderá responder ao apelo de Joe Biden no que toca ao envio de forças para lá? Sabemos a posição da Alemanha, da França e da Holanda. E a tal tese? Ah, que o teste de fogo para a Europa, aos olhos da Administração Obama será o modo como responder ao apelo do Afeganistão. Munique e Guantanamo foram péssimos sinais.

        1. Caro Carlos, certo. É verdade que a Europa ainda não se chegou à frente no Afeganistão. Sendo benevolente posso sempre dizer que ainda não é líquido que os americanos saibam o querem fazer no Afeganistão. Basta consultar os hearings no Senado e na Câmara dos Representantes — ou a catadupa de estudos nos think tanks — para perceber que o debate ainda prossegue, aliás de forma muito viva. Em todo o caso, caro Carlos, são os europeus via NATO quem está no Afeganistão. É certo que poderiam — deveriam? — estar ainda mais. É certo que muitos dos que lá estão com as caveats de pouco servem. Ainda assim, não vejo por lá japoneses, chineses ou indianos, certo? O meu ponto é que poderá estar a ser demasiado definitivo. Nada mais.

          1. Concordo consigo: Inevitável pode ter soado muito definitivo. Mas a autorização da ONU à Índia no golfo de Aden cria uma confluência estratégica nova com os EUA, para além do Paquistão. E Obama sabe (escreveu na foreign affairs) o caminho para o Afeganistão: passando por cativar os Pashtun dos dois lados da fronteira. O Paquistão é crucial.
            E será possível envolver a Índia sem a China? Irritando o gigante em crise, mas que ainda é e será o maior credor externo de Timothy Geithner.
            É certo que a NATO está na ISAF, mas penso que todos concordamos, até o Obama em 2006 o dizia, que alguns países europeus nem o patrulhamento de zonas seguras do Afeganistão querem fazer.
            Para mim, estarem lá os ingleses, não é bem representativo da UE.
            Mas retiro o inevitável. Tem toda a razão nesse ponto.
            Carlos

            1. Caro Carlos, em tempos escrevi que uma das (boas) heranças de George W. Bush foi a aproximação à Índia que, aliás, já vinha em parte de Clinton.
              Sobre o Afeganistão, não me parece que haja uma visão muito clara, ainda, de como será a abordagem de Obama. Fala-se na mini-surge, mas isso é estritamente de foro militar e mesmo nesse plano há quem diga que o envio de mais 30 mil soldados não resolve absolutamente nada, até porque o Afeganistão não é propriamente o Iraque. De qualquer maneira, falta saber o que quer fazer Obama do ponto de vista estratégico. É certo que o Paquistão é crucial. Mas falta saber qual é o master plan. Se tiver tempo e paciência aconselho-o a ler o que disse recentemente Anthony Cordesman:
              http://armedservices.house.gov/pdfs/FC021209/Cordesman_Testimony021209.pdf

            2. Caro Paulo,

              Não me tomo por impertinente: eu estou de facto a gostar imenso desta troca de opiniões com alguém com os seus conhecimentos. E num tom de civilidade mútua que infelizmente vai rareando.
              Mas, se me permite, eu nunca defendi que o aumento do contingente europeu na ISAF servisse para algum tipo de surge. Está por demonstrar que o surge foi responsável pela diminuição de violência no Iraque e (sem nenhum tipo de publicidade pretendida) eu advogo no meu livro que essa seria a estratégia errada para o Afeganistão. O que me parece é que o pensamento de Obama a este respeito (não necessariamente a política a adoptar) têm sido claros desde 2006: os EUA deveriam assumir o cerne da parte bélica do Afeganistão, mas mais 30.000 homens só serão úteis se eles forem divididos em digamos 100 batalhões de 300 homens e partirem de encontro às tribos no sudeste. Os batalhões deveriam fornecer segurança aos anciãos nas tribos (ameaçados pelos talibã que impuseram a sua rede de mullahs), e ajudar as populações a construir infraestruturas básicas. Presentemente são os talibã que fazem isso, imitando o que o Hezzbollah fez no Líbano. Assim ganham a confiança das populações. As tropas americanas teriam como missão esse contacto com as tribos, o combate aos Talibã e o rearmamento da polícia local (só em 2007 900 polícias foram mortos pelos talibã). O facto de Obama ter suspendido o envio de tropas resultou, oficialmente, de não lhe ter sido apresentada uma estratégia de saída clara. Mas desde 2006 que ele defende que o papel dos aliados europeus na NATO seria crucial nesta estratégia: patrulhando as áreas seguras do Afeganistão mas onde não há qualquer autoridade. O problema é evitar que instalem aí campos terroristas. E nem esse patrulhamento a maior parte dos países da NATO parece disposta a fazer. Ficar junto a Cabul adianta pouco e é mesmo erro dos soviéticos nos anos 80.
              Aliás essa perspectiva de patrulhamento está no core do tempo de retirada do Iraque, também. Há quem discuta um patrulhamento dividido com o exército iraquiano, saudita, americano e turco.
              A meu ver, a Europa arrisca-se a impedir uma estratégia (a única?) de sucesso no Afeganistão, porque os EUA não podem assegurar o combate e o patrulhamento.
              O que me diz sobre a ìndia e Bush está correctíssimo. Mas eu penso que Bush via apenas uma cooperação nuclear. Em recente artigo no India Abroad, Fev. 2008, Obama estendia a questão aos objectivos comuns no Paquistão e à cooperação económica e tecnológica.
              Um nota final: como sabe. o Afeganistão não tem a tradição de ser um estado centralizado e integrado, no sentido ocidental. Pretender que basta dar força a Hamid Karzai ou a outro no seu lugar é não reconhecer a autonomia das tribos. E eu receio que os EUA saibam disso, e saibam que sem a Europa, não conseguem dar conta da missão num país com estas características.
              Desculpe o testamento:)
              Um abraço,
              Carlos

  2. Os blogues servem para estes pontos de vista, onde cada um esgrime os seus argumentos com lisura e moderação!
    Fornecem-nos proveitosos conhecimentos que enriquecem quem denota interesse por estes assuntos.
    Um obrigado aos dois!

  3. A carta é uma simples circular, obviamente. Pelo menos 8 outros “altos dignitários” receberam uma “fotocópia” assinada por B.H.O (http://apdeites2.cedilha.net/?p=1315), em Inglês.
    Para apurar o número total de destinatários, caso isso fosse uma coisa PIN (prioridade de interesse nacional), bastaria procurar as “keywords” do texto (friendship, peace, cooperation) em diversas línguas.

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