Já fomos melhores, bem melhores


Paulo Sousa,

Narana Coissoró deixou-nos há dias. Recordo-me de ser miúdo e de ouvir o seu nome invulgar nas notícias. Era um tipo do CDS e sobre ele não saberia mais do que isso. Alguém alguma vez me terá dito que era goês e, pelos olhos azuis, seria possivelmente de origem brâmane, uma casta superior. Quando fiz duas buscas para preparar este postal, soube ainda que este antigo professor do ISCSP era um seguidor do hinduísmo e descrevia-se como sendo um hindu democrata-cristão.

O facto de entre nós ser apenas mais um dos deputados da Assembleia da República, sem direito a que a sua origem étnica ou confissão religiosa o fizesse merecer qualquer destaque ou lhe conferisse qualquer atalho de privilégio (agora vulgarmente designado por cotas), era apenas mais uma das particularidades do país em que cresci. Andámos por esse mundo, e quando regressámos ao rectângulo pátrio trouxemos connosco outros que passaram a ser parte daquilo em que nos tornámos. Simplesmente mais um sinal das particularidades do que para mim significa ser português. Assunto arrumado.

Por ocasião do desaparecimento deste antigo deputado, eleito em oito legislaturas, li na rede X uma publicação de Carlos Guedes, militante do PCP, que fazia menção a uma intervenção de Narana Coissoró por ocasião do prematuro falecimento do deputado comunista Luís Sá. Entre outras coisas afirmou que “no seu funeral, o Narana estava inconsolável“. No plenário, e em jeito de homenagem a Luís Sá, Narana disse: “Ele sabia o que defendia – porque aqui não é a ciência jurídica que nós cultivamos, defendemos a política que queremos, o interesse nacional que julgamos que é o melhor que sabemos servir. Luís Sá tem intervenções que ficarão para a antologia: intervenções não mediáticas, não daquelas que trazem frases feitas, não daquelas que enchem os títulos dos jornais, não daquelas que são transcritas em três linhas nas colunas semanais…, porque Luís Sá não precisava disso!“

Já lá vai um quarto de século. Deputados de diferentes quadrantes políticos tratavam-se com cordialidade e alguns até poderiam ser amigos. Hoje, no mesmo espaço, no que dizem ser o mesmo regime, sob a mesma Constituição, o ambiente que ali se vive é completamente diferente. E não é nada melhor.

44 comentários em “Já fomos melhores, bem melhores”

  1. Recordo-me de ler que Narana Coissoró também tinha uma grande amizade com outro deputado comunista, João Amaral, e que quando este faleceu, terá igualmente chorado baba e ranho. Talvez mais do que os próprios camaradas de João Amaral, que parece olhavam de lado para ele por causa da sua elegância muito distante dos padrões estéticos do partido.

    1. Na final da intervenção, de cujo excerto incluí no texto, Narana Coissoró apresenta os pêsames à família, naturalmente, mas também ao PCP.
      Eram de facto outros tempos, povoados por pessoas mais civilizadas.

    1. Com a exigência de exclusividade e outras tretas, afastaram-se os que pensavam pela própria cabeça e ficaram os que não sabem ou não conseguem fazer outras coisas. O resultado foi péssimo.

  2. No tempo em que havia memória de que os os homens se medem pelo carácter, não pela conformidade a seitas.

    1. Havia capacidade de se chegar a compromissos. Hoje, os mais “bem-sucedidos” fazem gala em não serem confiáveis.

  3. Tudo isto resultado do propósito com que se abraça uma causa.
    No passado entrava e estava-se na política pelo que se podia fazer por ela. Hoje entra e está-se na política pelo que dela se pode sacar.

    1. A exclusividade criou políticos profissionais que têm uma enorme propensão para a sujeição. Para não perderem o ofício, vergam-se a tudo.

  4. Ele chegou pelo seu mérito, não pela cor da pele ou qualquer outra característica que as instituições “do saber”, Universidades, dominadas pela esquerda definem.

    Quanto á segunda parte do texto: Não
    Se o PCP conseguisse o poder que ambicionava Narana ou era morto ou era um “dissidente” que que é como os jornalistas “moderados” e “democratas” do Expresso e outros meios “de referencia” punem quem contraria a paz Comunista.

    1. Não me faça defender os comunistas, mas como isso nunca se verificou, ficamos apenas com as suas certezas.

      1. Em todo o caso, vistas as coisas pelos critérios do tempo em que ocorreram, “dissidente” talvez fosse até o menos grave. Possivelmente paciente num dito hospital psiquiátrico, convidado num campo de reeducação, residente num estabelecimento prisional em lugar de doce clima.
        Pelos critérios do tempo presente, não sei. Mas esses, os do tempo passado, nunca os vi formalmente – ou informalmente – rejeitados pelos seguidores dessa religião laica.
        E (e sempre, ainda que tivesse testemunhado tal retractação), já que estamos em campo de certezas pessoais, não será com o meu voto que teremos oportunidade de ver como seria.

        1. Nem com o meu. Embora aquele emblema esteja finalmente à beira da extinção, a vontade de repetir tais façanhas com outros rótulos, ainda não.

  5. Sabiam quem eram, e não tentavam ser outra coisa. E pensavam. Ao contrário dos que, com raríssimas excepções, por lá andam agora.

    Já nem vou à qualidade do debate e do trabalho parlamentar em si… E tem razão, a exclusividade deu muito mau resultado.

    1. Tinham uma vida fora da política à qual poderiam regressar, o que lhes dava a liberdade para dizer não. Agora dependem daquilo e fazem o que lhes mandam. Haverá excepções que confirmam a regra.

      1. Essa vida fora da política também os tornava menos deslumbrados com a sua importância.

        E é engraçado ver como dois partidos pequenos, CDS e PCP, deram tão bons deputados ao país.

        Podia discordar em tudo o que saía da boca da Odete Santos, mas ouvia-a pela seriedade com que o dizia, e fiquei sinceramente triste quando morreu.

        Dava uma boa série para o Delito, já que a CRP faz 50 anos: os nossos melhores deputados.

        1. O desapego ao cargo é uma das condições, não a única, para se ser um bom parlamentar.
          Sobre a série, sim, a ideia é boa…

  6. Orgulhosamente Portuguesa.
    Assumidamente Católica.
    Convictamente Democrata.
    Moralmente Conservadora.
    Nascida em Moçambique.

    Resultado: filiada no CDS/PP.
    Muito, muito grata por, humildemente, poder “herdar” o património político de Narana Coissoró.

  7. “Hoje, no mesmo espaço, no que dizem ser o mesmo regime, sob a mesma Constituição, o ambiente que ali se vive é completamente diferente. E não é nada melhor.”
    –
    Nada melhor, mesmo. Diria, um chiqueiro.

  8. Muito certeiro o texto. Apenas junto isto: Luis Sá era um intelectual muito dotado – doutorou-se no ISCSP (um putativo paradoxo, pois a casa era conhecida como “conservadora”) e Narana Coissoró estava no júri, juntamente com a Adriano Moreira (que tutelava o ISCSP, em particular a área de Ciência Política) e até o ultramontano Sousa Lara. Ou seja, esta comoção demonstrada não era apenas efeito de uma (real) convivência parlamentar mas também do respeito por um colega (universitário) brilhante e que morreu muito jovem de forma inopinada.

    E, como bem referes, nem o pequeno CDS tem gente do quilate e da dessassombrada urbanidade de Narana Coissoró (ou como Adriano Moreira) nem o pequeno PCP tem quadros da intensidade de Luis Sá (ou Barros Moura ou João Amaral, outros dos seus dirigentes que morreram algo novos). Quanto aos grandes partidos, enfim, é melhor nem falar.

    1. O Estaline tinha uma grande biblioteca, Mussolini sabia várias linguas…etc…

      Quantos abraços de camaradas eles deram a facínoras Soviéticos, Cubanos etc?

      Se o PCP tivesse o poder que ambicionava pura e simplesmente não existiria parlamento. Assim o autor já não se queixaria…

  9. Gostei deste seu texto, Paulo.

    Bons tempos em que existia elevação e decoro na Assembleia da República… Existia o respeito e a seriedade que hoje não vemos…

    1. É verdade, Paula. Já disse acima, mas a exclusividade exigida aos deputados, foi uma medida cheia de boas intenções, mas que se revelou fatal para a qualidade dos parlamentares.

    2. Decoro : chamar Fascista a todos os discordam.

      Vocês vivem mesmo num mundo peculiar, alienados pelos Expressos, RTP’s SIC’s TVI’s …

      ————-
      7 de Julho de 1982

      Borges de Carvalho (PPM) – Dá-me licença, Sr. Presidente?

      Sr. Presidente – Faça favor, Sr. Deputado.

      Borges de Carvalho (PPM) – Sr. Presidente, queria inscrever-me para uma intervenção, mas de momento pretendia interpelar a Mesa. Acontece que perante algumas manifestações, legítimas, das bancadas da maioria, um Sr. Deputado do PCP teve os seguintes apartes: Chuta cão e parvalhão. Assim, agradecia à Mesa que chamasse à atenção do Sr. Deputado do Partido Comunista.

      Presidente – A Mesa não tinha ouvido. Deploramos que se usem termos desse género, mas não vamos…

      Jerónimo de Sousa (PCP) – Fui eu, e para vocês ainda era pouco.

      Presidente – Vamos ser se sossegam os ânimos para se poder continuar o debate…
      ——-
      7 de Fevereiro de 1990

      João Salgado (PSD) – Sr. Presidente, sucintamente vou responder às perguntas que me foram feitas, começando pelo Sr. Deputado João Amaral respondo-lhe muito calmamente. Primeiro, Sr. Deputado João Amaral, o senhor não referiu qualquer dos problemas que aqui levantei e apenas me perguntou se eu, João Salgado, tenho ou não saudades da gestão do anterior presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Nuno Abecassis. Com certeza que, Sr. Deputado João Amaral, não tenho quaisquer saudades da anterior gestão, mas tenho saudades, isso sim – e já começo a tê-las –, da democracia, porque o que está a acontecer…

      O Sr. João Amaral (PCP) – Isto não pode ser! Você é maluco!

      João Salgado (PSD) – … em termos de juntas de freguesia, é altamente grave! O Sr. Deputado não referiu nem as ocupações que foram feitas…

      João Amaral (PCP) – O senhor “baixe a bolinha” que está a exagerar.

      Via página um.

      1. Esse “vocês” não deixa de ter piada.
        E se havia excessos no Parlamento? Claro que havia. A qualidade média doa deputados era bem superior? Definitivamente.

      2. Vá, lucklucky, já passou, agora respire fundo, inspire pelo nariz e expire bela boca… Vai ver que se sentirá muito melhor… 😁

        1. Continuam sem querer entender nada.
          Quantos deputados hoje no parlamento querem o genocídio de inteiras classes sociais, e mandar boa parte da população portuguesa para o Atlántico e em campos de concentração?
          Contam-se pelos dedos de uma mão.
          Naqueles tempos 2 mãos não chegavam para os contar todos.
          E o decoro era chamar Fascista a quem discordava deles.

  10. “Os políticos de hoje não são melhores, nem piores, cada geração tem os seus. Os políticos não são geração espontânea, nascem na estufa que criámos. Ninguém proíbe as pessoas de defenderem ideias e mostrarem que é preciso abrir caminho para outras maneiras de pensar, mas é preciso saber que liderança seria hoje aconselhável e, depois, é preciso perceber se há falta de líderes ou se há falta de condições para afirmação desses novos líderes.”

  11. O CDS não está morto… 🙂
    Já lhe fizeram muitas vezes o funeral. Renasceu sempre.
    Mas a agradeço os pêsames: afinal, sinto mesmo muito a perda de Narana Coissoró.

    1. Não desejo nenhum mal ao CDS, mas fez-me lembrar aquela anedota de um Sr esfaqueado numa rixa a pedir ajuda.
      – Senhor enfermeiro acuda-me que estou morto.
      – Está morto e consegue falar?
      – É que ainda estou quente.

      1. Excelente!
        Não há nada como sentido de humor. Revela sempre inteligência…

        PS.: Vou tentar manter o CDS quentinho…😉

  12. Excelente texto, Paulo. A lembrar-nos que, em tempos idos, a política era feita por cavalheiros. Por senhores. E que nesse tempo era possível admirar pessoas que pensavam diferente de nós.

    1. Obrigado, Eduardo.
      O regime de exclusividade para os deputados foi uma medida bem intencionada mas que se revelou desatrosa para a qualidade do elenco parlamentar.
      Um abraço

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