Estas declarações são um remake pouco original, refira-se. Ainda me lembro dos fundos comunitários que Portugal poderia perder se o novo aeroporto não fosse na Ota…
Acresce que as declarações da gestora do POVT me fazem lembrar as idas aos hipermercados. Cada vez que se vai a um hipermercado compra-se sempre produtos que não se pensava comprar, ou adere-se a promoções que nos fazem gastar muito mais do que se pensava. No fim gasta-se o dobro do dinheiro necessário, mas fica-se com a sensação que se poupou imenso dinheiro. Assim está a gestora do POVT. Portugal pode perder 1.300 M€. Fica por dizer quanto é que Portugal vai gastar adicionalmente e se de facto necessita desse produto.

Este género de chantagem é intolerável. Revela os já habituais tiques autoritários e ainda por cima toma-nos por parvos. Já não basta a desculpa permanente com a “causa externa da crise” (como se Portugal não estivesse em crise há dez anos), agora ainda temos que tolerar estes “avisos” para não questionarmos os investimentos. Como diz o outro, é preciso topete!
Caro José Gomes André, há ainda outra questão que não mencionei no post, mas que também me parece relevante: a que propósito é que a gestora do POVT — uma função técnica — tem de estar a fazer alertas públicos que claramente entram no domínio de decisão político? Mais: a gestora do POVT teria feito o mesmo alerta/reparo se implicasse entrar em rota de colisão com o governo?
Realmente, se Portugal tivesse mais uma quantidade de projectos no mesmo âmbito, mesmo todos ruinosos, iria ‘perder’ muito mais.
É pena que os mais parvos se achem os mais vivaços e nos tomem sempre por parvos: ao arquivar o TGV, quanto é que Portugal poupa? Ou então, fazendo a pergunta parva ao jeito dessa gente: quanto é que o País ‘ganha’?
Estou a lembrar-me de uma informação da secretária de Estado dos Transportes, já faz tempo. Anunciava ela já quanto iria custar a viagem Lisboa-Madrid, apresentando um preço eventualmente comportável que nem retive, por ser irrelevante.
Na verdade, esse não era o preço da viagem, mas uma eventual projecção do seu custo para o passageiro. Ficou por dizer, como é evidente, quanto era a parte do Estado (dos contribuintes) que não estaria reflectida nesse custo, para não torná-lo inviável…