Só hoje tive oportunidade de ler a excelente entrevista do major-general Raul Cunha à NS do último sábado. Um ano depois da independência, Raul Cunha critica de forma desassombrada a comunidade internacional pela forma como agiu no Kosovo e fala das contradições do processo que conduziu à independência. Os três anos vividos no Kosovo conferem-lhe a necessária credibilidade para as críticas que tece. Uma excelente entrevista – cuja leitura recomendo – que confirma o que escrevi aqui há um ano.
A estratégia da UE em relação ao Kosovo já serviu de pretexto a isto e a isto mas o tempo e a crise financeira internacional relegaram as notícias para segundo plano.
Espero enganar-me, mas creio que dentro em breve o tema voltará a ser alvo de atenção dos media, graças ao Festival da Eurovisão que se irá realizar em Moscovo. A canção da Geórgia “We don’t Wanna Put In” poderá servir de rastilho a um recrudescimento mediático que não me parece desejável.

Com efeito, a herança de fronteiras mal resolvidas em que o século XX foi fértil estendeu-se à actualidade e ao Kosovo. Com a agravante de este legado indesejável ter sido apressada e escusadamente apadrinhado pela União Europeia (UE).
Parece que as lições do século passado não foram aprendidas. “We Don’t Wanna Put In” pode muito bem ser o pretexto para Moscovo reabrir o contencioso e dizer à UE: «cantas bem, mas não me alegras»…
Quando li a entrevista do major-general Raul Cunha não deixei de lamentar que a mesma não se tivesse realizado antes de os caras de pau do governo português terem reconhecido o aborto político que é o Kosovo, a mando de Condoleezza Rice. Talvez esse acto não tivesse sido tão pacífico na sociedade portuguesa.
O major-general Raul Cunha põe a nu a hipocrisia da Nato.
Lembro que o acto não foi pacífico: num dia, nem pensar; noutro dia, vamos a isso! Nós é que somos pacíficos: num dia, protestámos; noutro dia, era só fumaça…
Há algum sítio onde encontrar a entrevista?
Já agora, outro barril de pólvora é ainda e sempre a Bósnia-Herzegovina.