Ian Baxter, “Television works” (detalhe), 1999-2006
A categoria filosófica que se denomina como “altruísmo”, quando desce ao campo da ideologia recebe à direita o nome de “caridade” e à esquerda o de “solidariedade”. Não são exactamente iguais porque em ambos os casos é necessário adequar o altruísmo aos conceitos que o vão rodeiar e conformar. Comum a eles é a imposição de um princípio moral ao “interesse”, que sobre este deve ter a primazia sobretudo em caso de conflito. Desde pelo menos Adam Smith que se percebeu que esta imposição é contrária à lógica e ao bom senso, pois em todas as circunstâncias agimos verdadeiramente movidos pela necessidade e pelo interesse. A única razão que legitima a prevalência da moral sobre os interesses, é, na verdade, bastante interesseira, e por isso frequentemente iludida: pratico a caridade ou a solidariedade enquanto um contrato social, o qual consiste, de forma genérica em dar um pouco aos outros de modo a prevenir que eles tenham motivos para me tirarem tudo.
Vem este altissonante parágrafo a propósito (ou despropósito) de ser hoje o dia em que assistimos ao desfecho da maior agressão feita ao consumidor (ou ao cidadão) português nos últimos anos, perpetrada sem o rebuço da má consciência, perante o silêncio e a passividade da maioria.
Estou a falar da TDT (televisão digital terrestre).
Há uma enorme probabilidade, diria mesmo garantia, que ao leitor destas linhas o problema lhe seja de todo indiferente, precisamente por estar ler estas linhas. Se o faz é porque tem acesso à internet; se o tiver em casa aposto singelo contra dobrado que ela lhe chega através de um pacote de triple play (tv-internet-telefone) com uma operadora de telecomunicações, pacote esse que é de todas as opções a mais racional porque a mais económica. Se por outro lado estiver a ler estas linhas no emprego (não se preocupe, são milhares que o fazem…) é provável que tenha um estatuto suficientemente elevado (ou seja de simples classe média) para ter em casa pelo menos a tv por cabo. Em qualquer um dos casos a TDT não lhe diz respeito. Dirá, talvez à sua mãe, já idosa, ou aos primos lá da aldeia, distantes.
Foi isto, o facto: de TDT passar ao lado da classe média; de a TDT ser indiferente, senão antagónica, aos interesses dos mídia a que essa classe média tem acesso; de a TDT ser irrelevante às preocupações dos agentes económicos que investem nos mídia; e de a TDT não proporcionar significativos ganhos políticos aos deputados e organizações com assento parlamentar, nomeadamente porque o afastamento dos mídia não lhes oferece exposição neles; foi isto a tempestade perfeita que varreu a questão para debaixo do tapete – nenhuma indignação moral, portanto.
Too much adoo about nothing? Nem por isso, se olharmos para o fracasso (fraude?) da TDT como um exemplo do estado económico e político em que estamos atolados. E já agora do estado ético, coisa bem diferente de moral.


Devia haver um mandamento do liberalismo que rezasse assim:
Não invocarás o nome de Adam Smith em vão.
“Desde pelo menos Adam Smith que se percebeu que esta imposição é contrária à lógica e ao bom senso, pois em todas as circunstâncias agimos verdadeiramente movidos pela necessidade e pelo interesse. “
Adam Smith percebeu outras coisas:
“According to Smith humans have a natural tendency to care about the well-being of others for no other reason than the pleasure one gets from seeing them happy. He calls this sympathy, defining it “our fellow-feeling with any passion whatsoever”.
Por isso, ainda que possamos definir altruismo em termos de prazer pessoal, é perfeitamente concebivel que uma pessoa faça algo aparentemente contra o seu interesse material para ver o “outro” mais feliz.
O José Navarro tem toda a razão (e digo-o com consciência de classe, pois eu próprio tive que investir um ror de dinheiro para me adaptar à TDT, uma vez que não tenho TV por cabo em casa), mas pergunto: que poderia Portugal ter feito, já que se tratava de uma imposição da União Europeia?
E pergunto também: como pôde a União Europeia, tão cuidadosa com os interesses dos consumidores, impôr uma coisa que redundou, inevitavelmente, num enorme prejuízo económico para montes de consumidores?
Qual o “Estado Liberal” que restringe a apenas 2 as televisões privadas que podem emitir em sinal aberto?
Aliás, o sinal era aberto, com a TDT ficou encriptado…
O ar que respiramos ainda não é controlado, mas o “ar” por onde se propagam as ondas sempre o foi.
Não é uma censura de queimar livros, é uma censura que nem permite publicá-los…