Legislativas (24)


Patrícia Reis,

  

DEBATE JERÓNIMO DE SOUSA-FRANCISCO LOUÇÃ

 

O que separa o Bloco de Esquerda do Partido Comunista? Quem não sabia, ficou a saber o mesmo após o debate desta noite na SIC: Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa enfrentaram-se com a amenidade de dois cavalheiros britânicos, num clube qualquer, à hora do chá das cinco. Trocaram algumas amabilidades, pintaram um quadro negro do País e procuraram atrair os votos dos tradicionais eleitores do PS cavalgando a crise económica. Louçã, sem gravata, estava francamente mais à vontade. Jerónimo, de gravata vermelha, parecia ligeiramente embaraçado e com alguma vontade de sair dali.

Convergiram boa parte do tempo. A propósito da luta dos professores contra o Governo, da crítica às situações de pobreza que persistem em Portugal e até dos chocantes acontecimentos de hoje na TVI (que ambos criticaram). Desta vez, ao contrário do debate de ontem entre Portas e Sócrates, praticamente nenhum deles recorreu ao direito à réplica: não era necessário.

Noutros tempos, Jerónimo atirou-se à tendência "socialdemocratizante" do BE: não voltou a repetir a acusação com Louçã à sua frente. Noutros tempos, Louçã denunciou o "ataque mais sectário de sempre", dirigido ao Bloco pelo Partido Comunista: não voltou a repetir a acusação com Jerónimo à sua frente. "A nossa disputa eleitoral não é com o PCP – é com o PS e com o PSD", assegurou Louçã. "Os nossos adversários são a política de direita e os seus executantes", garantiu Jerónimo.

Os momentos mais surpreendentes ocorreram com os rasgados elogios do secretário-geral do PCP à política económica do ex-presidente norte-americano Franklin Roosevelt e do líder do Bloco de Esquerda à construção da Ponte 25 de Abril – a obra mais emblemática do regime de Salazar.

Louçã, mais articulado e com melhor linguagem corporal, venceu claramente este debate em que namorou simultaneamente socialistas e comunistas ao fazer uma clara "homenagem" a Manuel Alegre e ao recordar que o seu avô, anarco-sindicalista, participou no congresso fundador do PCP. Jerónimo ouviu e calou.

Sobre alianças com o PS, nova convergência: nem um nem outro querem ouvir falar do assunto. O que conta, para ambos, é roubar votos a José Sócrates – e vão consegui-lo a 27 de Setembro.

 

Algumas frases:

 

Louçã – "Tenho orgulho num país que tem os professores que tem."

Jerónimo – "Nenhuma reforma destas [da educação] pode ser feita contra os professores."

Louçã – "José Sócrates tem obrigação de dizer se quer Maria de Lurdes Rodrigues como ministra da Educação."

Jerónimo – "É preciso uma ruptura com esta política profundamente injusta."

Louçã – "José Sócrates e Manuela Ferreira Leite são parte do problema, não são parte da solução."

Jerónimo – "Somos necessários à democracia."

20 comentários em “Legislativas (24)”

  1. Neste debate o que mais me divertiu foi a forma polida com que Louçã contornou o PCP no seu discurso e a expressão entre o irritado e o ressentido de Jerónimo de Sousa a ouvi-lo.

  2. No local onde estava (um restaurante) não consegui ouvir o debate e só conseguia ver parte do ecrã (só via os intervenientes do pescoço para baixo). O que retive foi que Jerónimo de Sousa estava de gravata vermelha e Louça sem gravata. Lembro-me que alguém comentou que não devíamos estar a perder nada pois o debate devia ser morno ao que eu respondi que, pelo contrário, devia estar a ser interessante uma vez que os dois partidos disputam ambos faixas muito próximas do eleitorado. Afinal, pelo que dizem, fui eu que me enganei.

  3. Não tendo sido um debate muito esclarecedor no sentido de dar a conhecer as diferenças entre ambos, a verdade porém é que este debate Louçã / Jerónimo, teve pelo menos a inegável vantagem de ter decorrido num tom coloquial, civilizado, o que fez toda a diferença e o colocou muitos furos acima da verdadeira porcaria que no dia anterior tinha feito a dupla Sócrates/Portas. Estes, além de nada terem esclarecido acerca das suas propostas, limitaram-se, mais uma vez, como sempre, a um infindável rosário de acusações mútuas, insultos e berrarias que as pessoas já não estão para aturar. Seria bom, portanto, que aprendessem alguma coisa com esta esquerda civilizada, que já percebeu que com golpes baixos do vale-tudo na política, agastamentos e tudo a falar ao mesmo tempo, não vamos lá.
    Jerónimo e Louçã estão, assim, de parabéns e demonstraram, pelo menos, terem uma postura e uma decência que faltam a Sócrates e Portas e hão-de colher, decerto, os frutos disso nas próximas eleições.

  4. Pasmei de espanto ao ouvir a frase de Louçã sobre o seu pretenso avô anarco-sindicalista. É que os anarquistas eram nesse tempo os piores adversários dos comunistas. Eram inimigos fidagais. O avô de Louçã, ou bem que foi anarco-sindicalista, ou bem que participou na fundação do Partido Comunista – não pode ter feito as duas coisas!

      1. Não seria muito inteligente e corresponderia a passar um atestado de desconhecimento da própria história do Partido Comunista. É que a origem do PCP, em 1921, bebe muito desses meios anarquistas e sindicalistas. O que é de facto uma particularidade – a maioria dos partidos comunistas da época nascem de cisões no campo da “social-democracia” – mas não é por isso que deixa de ser verdade.

    1. ESTA ESQUERDA REPRESENTADA PELO PCP E PELO BE PROVOU SER INTELIGENTE. DAÍ A “INDIGNAÇÃO” E O INSULTO DOS QUE GOSTARIAM DE TER ARGUMENTOS PARA O DISCURSO DE EXCLUSÃO. O MUNDO MOVE-SE, VÊ-SE.

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