
«A guerra em Angola significava sempre uma guerra no interior das cidades, desabando, brutal e sangrenta, sobre populações civis, desarmadas e inocentes, e também sobre prédios, casas, estruturas, quaisquer que fossem, e isso tornava imperdoáveis os pecados dos dirigentes dos outrora “movimentos de libertação”. Aparentemente, não havia opções de liberdade para a cativa população do Lubango, condenada a aguardar por novos libertadores e a rezar para que fossem menos cruéis. (…) E sempre, sempre sob a ameaça do homem da arma, essa figura sinistra que podia aparecer a qualquer momento, em qualquer lado, na rua ou entrando nas casas, senhor de tudo e de todas as coisas.»
David Borges, Amor Eterno, p. 150
Ed. Oficina do Livro, 2020

Talvez seja a altura de o M. P. L. A. deixar de ganhar eleições…
Angola podia ser um dos países mais desenvolvidos e prósperos
de África. Talvez um dia, com políticos honestos…
P. S.: Cabinda devia ser independente.
Cumprimentos.
João Barros da Costa
JOAO.BARROS.DA.COSTA@SAPO.PT
Amigo Pedro,
conheci o David na sua casa na Alta de Lisboa. Ele foi marido da Sílvia que trabalhou comigo muuuuuuitos anos. Uma sportinguista doente.

Que eu saiba este é o único livro de David, um benfiquista assumido, mas sempre altamente profissional.
Ainda não li o livro, mas está na lista. É mais um!
Ora viva, meu amigo.
Recomendo muito estas memórias (em larga medida sofridas e pungentes) do David Borges, profissional que muito respeito, tenha as convicções clubísticas que tiver.
Esta obra, que encontrei num feliz acaso de estante de livraria, reflecte um drama que centenas de milhões de portugueses viveram na carne e na pele, no péssimo processo de “descolonização” em Angola durante o qual foram entregues a grupos de bandoleiros que semearam o terror ainda com a tropa portuguesa em Luanda.
O David viveu tudo isso, sofreu também o drama da guerra civil que transformou Angola num mar de ruínas e miséria durante décadas.
Para salvar a vida, acabou por se ver condenado a fugir da terra que o viu nascer, rumando a Lisboa entre mil peripécias.
Aqui chamaram-lhe “retornado”. Mas retornar como, se ele nunca vivera senão em Angola?
É raro, muito raro, falar-se disto. Como se fosse (e é) tabu. Guerra em Angola, só a de 1961-1974. Ninguém fala da outra, muito mais longa e mortífera, que se seguiu num país repleto de riquezas naturais mas onde a esperança média de vida é hoje inferior a 60 anos, a mortalidade abaixo dos cinco anos é de 64 por cada mil crianças e 53% da população vive com menos de 3,6 dólares por dia (pobreza extrema).
Este livro é precioso também por isto: lembra-nos que a guerra não terminou em 1974 – muito longe disso.
Para que os mais velhos lembrem. E os mais jovens saibam.
“Huambo
a que depois de Stalinegrado, Barcelona, Madrid, Londres,
também foi metralhada.
Depois das grandes cidades, também há pequenas cidades.
(…)
Ernesto Lara Filho, in “Quando o Huambo era Nova Lisboa”, Inácio Rebelo de Andrade.
“A quem viveu na outrora frondosa e amena cidade colonial, o amontoado de ruínas e sucata que dela sobrou provocará decerto um constrangimento profundo. Nada restou de pé, eu próprio assisti na televisão de Luanda ao pânico da população civil fugindo pelas ruas e tombando sob a metralha com os parcos haveres â cabeça, mulheres e crianças correndo para lado nenhum, para o capim, para o ‘mato’, grávidas parindo no caminho, gente desfalecendo à míngua, à sede, à morte anunciada pelo voo paciente e circular dos abutres.”
“Litania da cidade póstuma”, David Mestre, in op. cit.
“Em África, naquela cidade de brancos, com nomes de brancos, os negros não davam nomes a nada.”
Inácio Rebelo de Andrade, op. cit.