Leituras


Pedro Correia,

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«O ofício de homem é difícil.»

Georges Simenon, A Neve Estava Suja (1948), p.253

Ed. Cavalo de Ferro, 2025. Tradução de Diogo Paiva

15 comentários em “Leituras”

  1. Testemunha o filho: “Pendant toute mon enfance, j’ai du entendre cette phrase des dizaines de fois. En nous la répétant, mon père nous rappelait, avec une grande exigence mêlée d’indulgence, que devenir un Homme, si on y arrive, est un travail long et pénible.”

  2. O ofício de homem é difícil principalmente quando o homem tem de montar um móvel do IKEA sem sobrar nenhuma peça, ou, o mais extenuante de todos, ouvir a sua cara metade a mandar palpites.

    1. Eu, por acaso, também sou menina para “amandar muitos bitaites” em situações semelhantes a essa, naturalmente sempre errados… Sou, assim, uma espécie de “sóestrova”, quando se trata de certas lides domésticas. Os meus entes queridos não me o dizem, mas, por aqui, preferem ver-me pelas costas, em vez de terem que me ouvir debitar maus conselhos… E devo dizer que, para mim, chegar ao fim de uma qualquer montagem desse género e ver que não sobrou nenhuma peça, funciona sempre como um verdadeiro “milagre”, uma experiência iminentemente metafísica… É isso ou quando dou sugestões de direcções na estrada: não acerto uma; se digo à direita, o melhor será virar à esquerda… Claro que atribuo sempre esses erros à minha mui deficiente lateralidade, que serve de desculpa para muita coisa… Treta de lateralidade que, no Exame de Condução, há 33 anos, me obrigou a fazer uma cruzinha na mão direita, para não me confundir com a esquerda… Não atropelei nem matei ninguém, mas lá que foi uma grande “nervoseira”, lá isso foi…

      1. Nunca hei-de esquecer o ar quase desesperado do meu instrutor de condução, há 26 anos, quando me dizia: 《Vire à direita. À outra direita, Pedro, à outra direita!》
        Enfim. Lateralidades.

      2. É preciso um certo talento para ser consistentemente inútil. Já estou a imaginar os teus entes queridos com uma cruz na mão direita, mas para se benzerem de cada vez que abres a boca.

        1. Digamos que eu sou, de facto, muitíssimo talentosa, muitíssimo consistente e muitíssimo reconhecida por ser dessa forma… [<)]

          Já os meus entes queridos, mesmo com uma cruz em cada mão, não dispensam uma boa dose de inutilidade e de desafinação nas suas vidas…

          “No peito dos desafinados também bate um coração” (Tom Jobim).

          1. “A Diva e os Desafinados”

            Personagens:
            Ela – escritora/artista, intelectualmente vaidosa, emocionalmente míope. Fala como se vivesse num editorial.
            Tia Laura – passivo-agressiva, rainha do comentário com veneno subtil.
            Primo Rui – sarcástico, descomprometido, adora provocar.
            Mãe – dramática, vive no limiar entre o orgulho e a vergonha alheia.
            Cenário:
            Sala de jantar. Restos de sobremesa. Silêncio após a leitura em voz alta do texto dela, que ninguém pediu para ouvir.
            ELA
            (dramática, segura do seu génio)
            E pronto… apenas uma reflexão pessoal sobre como, mesmo sendo consistente e talentosa, carrego o peso de conviver com tanta… desafinação emocional.
            TIA LAURA
            (sorri com os olhos de quem está prestes a matar uma galinha com uma colher de chá)
            Ah, querida… que bonito. Quase que me emocionei. Não é todos os dias que ouvimos alguém comparar a família a um coro de incompetentes com batimentos cardíacos.
            PRIMO RUI
            (acende um cigarro imaginário)
            “Mesmo com uma cruz em cada mão…” — essa parte foi ótima. Lembra-me de ti a lidar connosco ao almoço de Natal, quando alguém pronuncia “brócolos” com ‘u’.
            MÃE
            (olhos no teto, voz de mártir)
            Eu só queria netos… mas enfim, cá estamos: a ver a minha filha transformar ressentimento em literatura de prateleira existencial.
            ELA
            (defensiva, poética)
            Não perceberam. É uma metáfora. Um espelho. Uma provocação intelectual. É arte. Falo da frustração de ser incompreendida.
            PRIMO RUI
            Ahhh! Então aquilo não era desprezo — era performance artística. E nós, os desafinados? Somos o quê? Cenário? Pior… figurantes sem texto.
            TIA LAURA
            Eu, por acaso, adorei. Senti-me descrita: inútil, desafinada e com coração. E ainda assim, feliz. Vai-se a ver, e sou uma obra de arte espontânea.
            MÃE
            (virando-se para ELA)
            Sabes, filha… no teu texto até senti uma certa ternura… mas depois percebi que era só sarcasmo passado por papel manteiga.
            ELA
            (suspira como se usasse Crocs e tivesse de carregar o mundo nas costas)
            A verdade dói.
            PRIMO RUI
            Não. A vaidade mal escrita é que dá comichão.
            E se a verdade dói, experimenta ouvir-te ao espelho a ler isso em voz alta.
            TIA LAURA
            Ou melhor: grava em podcast. Assim, sempre que te sentires incompreendida, ouves e lembras-te do quão insuportável soaste.
            MÃE
            (levantando-se)
            Alguém quer café? Ou mais uma sessão de autoflagelação literária?
            FIM

            1. “You Talkin’ to Me?” “You Talkin’ to Me?” “You Talkin’ to Me?”

              Ai se o Scorsese conhecesse o Argumentista Carlos Sousa… Não haveria céu que chegasse como limite…

              Gostei francamente. Fez-me rir.

    2. Montar um móvel da IKEA,
      sem fazer a menor ideia,
      se era verdade a promessa,
      de não sobrar uma peça;
      nem da falta de vontade,
      de ouvir a cara metade,
      é negra e mui ruim cousa,
      ao jeito do Carlos Sousa.

      1. Carlos Sousa, ao que parece,
        só monta o que lhe apetece;
        mas se a peça ali sobrou,
        foi de ti que se soltou.

  3. É deveras reconfortante ver como editoras há que continuam a pegar neste magnífico autor e suas obras, para lá do bem conhecido Maigret, sempre mais vendável.
    Simenon tem um leveza, uma naturalidade de estilo que permite lê-lo sem que a diferença de época seja grande obstáculo. Este é mais um livro notável. Só lido.

  4. Era difícil no tempo do Simenon , e antes .Agora , que compram tudo feito , já não tanto Escravos conformados com a sua condição , com uma ou outra excepção.
    Cãezinhos de colo e ração.

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