
«Chegara-lhe de longe uma expressão que nunca ouvira a ninguém, a não ser ao prior que lhe ensinara o catecismo em miúdo: o travo amargo da má consciência. Desde que se levantara, andava, comportava-se, falava, olhava para as pessoas à maneira de um culpado. Tinha a impressão de que toda a gente sabia.»
Georges Simenon, Os Cúmplices (1955), p. 60
Ed. Dom Quixote, 1989. Tradução de Miguel Serras Pereira. Colecção Simenon, n.º 5

“Catecismo” é uma substância feita de palavras e de pronuncias.
Logo, o que esperar desse algoz que brame a guilhotina da palavra?
Esse Deus até diz logo no princípio ao que vem: “No início é o verbo”.
O Catecismo actualmente disseminou-se como um vírus por todo o viver humano. É a Matrix.
Um dos preços a pagar pela alfabetização do país e a liberdade de expressão é termos de gramar malucos como este, a torto e a direito, querendo partilhar connosco as suas “revelações”.
“Alfabetizar” não é ensinar um alfabeto?
Logo, é gramatizar a mente dos coitados com um “catecismo”.
Ou não?
Actualmente, a pouco e pouco, com a evolução da cognição humana, começa a haver condições para se evoluir para um nível de complexidade e conhecimento superior ao limite que a «palavra e escrita» condenam o ser-humano.
É esse pavor a uma alternativa, pelos que justificaram toda a sua vida pela «palavra e escrita», que se pressente neste seu comentário.
Há muito anos, recebi um e-mail do Grande Oriente Lusitano, convidando-me para entrar no vosso mundo.
Esse vosso paleio, conheço-o eu bem.
Não uso avental, pá! A mim não me apanham nessa.
Todas essas facções, seitas, crenças, ideologias e partidos políticos são exactamente a consequência da subordinação à palavra e à pronuncia.
É tudo catecismos.
Parece-me que o “Anónimo” está a cometer um erro de interpretação: “o paleio” do SAP3i muito dificilmente será enquadrável/compatível com os Princípios advogados pela Maçonaria…
A teoria do SAP3i parece-me uma construção mental de alguém só. Só de sozinho, de solidão…
Consciência?
Ora aí está mais uma questão em que as palavras tropeçam. Começando logo a torpedear com catecismos.
Expurguemos a Consciência dos catecismos que as palavras constroem. Incineremos as más consciências que as palavras tentam impingir.
Se se perguntar a um ‘programador’ se os actuais computadores possuem “autoconsciência artificial”, a resposta actual é a seguinte:
— “Os actuais computadores e os programas, de facto, têm uma enorme capacidade de reconhecimento de padrões. Porém, as massivas bases-de-dados estatísticos ao dispor dos sistemas de inteligência artificial são inconscientemente moldadas e adaptadas aos desafios colocados por quem as cria, testa, desenvolve e aperfeiçoa. A unicidade da inteligência humana, ou aquilo a que chamamos autoconsciência artificial, são ainda meras ilusões criadas por sistemas computacionais que repetem de forma cada vez mais perfeita o colectivo dos pensamentos humanos.”
Actualmente, as teorias sobre a Consciência são principalmente quatro:
— “Teoria do Espaço de Trabalho Global” formulada por Bernard Baars em 1980. “Teoria da Informação Integrada” formulada por Giulio Tonini em 2004. “Teoria do Processo Recorrente” formulada por Victor Lamme em 2010. “Teoria da Ordem Superior” formulada por David Rosenthal e desenvolvida por Axel Cleeremans em 2019.
Às quais se juntam as críticas epistemológicas positivistas e anti-cartesianas vindas das neurociências. Que consideram a ‘consciência’ uma ilusão, uma inexistência, ou um erro de interpretação.
Para o Impronuncialismo a ‘consciência’ é meia-parte do funcionamento da Cognição. Corresponde a um tipo de percepção-de-conjunto. Sendo a outra meia-parte correspondente aos outros tipos de percepção sensorial. Logo, o Impronuncialismo considera a consciência como fazendo parte do sistema perceptivo.
«Se palavras, então catecismos»
Foi a esta maléfica condenação que este Post nos quis condenar.
Façamos-lhe a vontade. Sejamos cúmplices de Simenon, criando um novo catecismo (i.e., uma nova má consciência).
Usemos as palavras para fabricar, aqui no “Delito …”, um novo catecismo sobre a «Origem da Palavra».
O Impronuncialismo diz, então, o seguinte:
— Para o Impronuncialismo a consciência é uma percepção-de-conjunto derivada do cruzamento das percepções sensoriais (visão, audição, olfacto, paladar, tacto) com a percepção não-sensorial e representacional. Esse cruzamento define um local-ponto num mapa cognitivo (no sentido de John O’Keefe e John Dostrosvski em 1971, ao estudarem o processo como os ratinhos localizam o espaço, contributo que conferiu a John O’Keefe o prémio Nobel em 2014).
— Ao localizar uma percepção sensorial num mapa cognitivo (isto é, ao cruzar uma percepção sensorial com a percepção representacional/espacial localizando-a numa mapa ou matriz) a cognição obtém um nível de complexidade maior.
— Ora, é esse cruzamento que dará origem à letra e ao número. Pois foi transformando e substituindo a pronúncia e a emissão de sons e outros sinais sensoriais pelo dizer e por uma linguagem. E daí, à linguagem gráfica e à representação abstracta.
— Pois, a cada local do mapa cognitivo pôde, doravante, estabilizar um marca que se transformará num signo. O dizer e o pronunciar (e o representar por pontos-linhas-planos-imagens) passa a ser possível. Um exemplo desta capacidade cognitiva pode ver-se, entre outros exemplos, no jogo dos tamil das aldeias Thuvaradimanai e Malayiur, ou nos desenhos Kolan (isto é, nos descendentes do sânscrito, que deu origem às línguas indo-europeias).
E este catecismo? Está certo ou errado? É uma má ou uma boa consciência?
Não será um bocado pretensioso querer “expurgar” a consciência de “catecismos” para logo a seguir impingir uma tabela de quatro teorias académicas e uma definição “Impronuncialista” de algibeira?
Isto não é uma crítica à Consciência, é um pretexto do autor, para usar uma pergunta filosófica enorme como pretexto para despejar um copy-paste da Wikipédia e tentar vender a sua própria Teoria da Percepção-de-Conjunto/Impronuncialismo como se fosse uma revelação vinda do Monte Sinai.
Carlos Sousa,
É, exactamente, esse pretensiosismo a que a palavra condena o dito «ser-humano». É esse o erro em que cai Simenon neste texto do Post.
Essas quatro teorias são aquilo que de mais recente a Ciência diz sobre a Consciência. É exactamente essa condenação que critiquei, por não ser mais viável para se alcançar o discernimento e o conhecimento. A palavra (e o número) são apenas uma fase cognitiva da Vida no seu percurso evolutivo. São um ‘programa’ a expurgar e a substituir.
A Wikipédia ainda tem de pedalar muito para chegar às formulações destes autores, e muito mais ainda para chegar ao nível de abstração, complexidade e conhecimento do “Impronuncialismo”. A Wikipédia é para a populaça, para a manada apócrifa, para os preguiçosos mentais; a maior parte dos quais nunca investigou nem criou nada.
“Algibeira”, uma formulação que é uma derivada (em termos matemáticos) dos contributos de prémios Nobel? Deve estar a brincar consigo próprio.
Para entender um texto tão prolixo tive de recorrer ao Google.
🔎 Resultado da Investigação do Google
O termo “Impronuncialismo” não surge em artigos científicos, jornais de filosofia ou neurociência, nem em obras de referência. Se é a coisa mais avançada que a Ciência tem sobre a Consciência, a Ciência esqueceu-se de a publicar onde as pessoas sérias leem.
O “Impronuncialismo” é um conceito que vive em paz e sossego em blogs pessoais na plataforma SAPO. O seu principal promotor é uma entidade que gere a “Oficina do Impronuncialismo”.
A Ironia do ‘Impronunciável’: O conceito define-se como algo que lida com o “Desconhecido” e que é, “em parte, impronunciável”. Mas para nos transmitir esta ideia, o autor teve de se pronunciar.
O autor do texto, que critica a Wikipédia por ser para a “populaça” e para os “preguiçosos mentais”, baseia o seu “nível de abstração, complexidade e conhecimento” numa filosofia caseira que reside num blog do SAPO.
Ou seja, a manada apócrifa está na Wikipédia. Mas a manada inventada está no SAPO.
Portanto, o texto é uma mistura pretensiosa de termos científicos mal usados, filosofia de café e um complexo de superioridade colossal. Critica a “condenação” da palavra, mas usa a palavra para condenar tudo o que é externo à sua “obra-prima impronunciável”. É a típica verborreia de quem tem mais tempo do que ideias, e mais vaidade do que conhecimento. A única coisa que se expurga aqui é a credibilidade do autor.
Carlos Sousa,
Sabe em que data o prémio Nobel que descobriu os mapas cognitivos constituídos por células-de-lugar? John O’Keefe descobriu-os em 1971.
Sabem em que ano lhe foi atribuído o prémio Nobel? Foi em 2014.
Foram 43 anos a não acreditarem no que ele escreveu e apresentou. Diziam que não podia ser, tal como o Carlos Sousa faz aqui no seu comentário ao «Impronuncialismo».
O «Impronuncialismo» não apenas está publicado, como possui o registo de propriedade intelectual e direitos-de-autor legalmente conferidos pelo Estado Português através da IGAC.
Veremos daqui a 43 anos o que dizem sobre este processo, método e formulação.
É preciso ter uma grande lata para brandir o Registo de Propriedade Intelectual e Direitos de Autor legalmente conferidos pelo Estado Português através da IGAC como se fosse a prova final do valor intrínseco de uma obra.
Não prova a verdade científica; prova apenas que pagaste uma taxa.
A IGAC não te dá um atestado de génio.
Dá-te um atestado de que és o dono do teu texto. É um papel que diz: “Sim, és tu que tens o direito legal de vender este bolo. Agora, se o bolo é bom ou se é só farinha de má qualidade e vinagre, não é connosco.
E por favor, não compares a IGAC, com a Academia Sueca.
Não prova, nem não prova.
Só o futuro dirá.
Tal como na obra de John O’Keefe, e de tantos outros, que só muito tempo mais tarde foram reconhecidos.
Até lá, está protegido do roubo e da cópia.
E no caso do Impronuncialismo, até pouco importa a opinião sobre ele, pois o objectivo é obter a «propriedade física reversível SAPr3i». Logo, o Impronuncialismo está-se maribando para a opinião que têm dele.