
«Se ler é um dos prazeres – e necessidades – da juventude, reler é um dos prazeres – e necessidades – da velhice. Sabemos mais, compreendemos melhor tanto a vida como a literatura e, além disso, interessa-nos comparar o nosso eu mais jovem com o nosso eu mais velho.»
Julian Barnes, Mudar de Ideias (2025), p. 81
Ed. Quetzal, 2025. Tradução de Salvato Teles de Menezes

conheço o que escreveu sobre o amor
Borges foi mais conciso ( ou não fosse Borges…) : a partir dos 50 , só se deve reler.
JSP
Também já tínhamos chegado à mesma conclusão por aqui, creio que sobre a releitura de Júlio Verne e outros autores que nos entusiasmaram na infância e juventude. Relê-los, e descobrirmos que ainda gostamos de os ler, é a melhor maneira de reencontrarmos quem fomos nos nossos verdes e frescos anos.
‘Ler’ nunca servirá para compreender a vida.
Está no próprio acto de leitura, naquilo que ele é, o impedimento.
📚 Livros vs Bits & Bytes
Cenário: Um café com Wi-Fi gratuito.
Um Jovem (20, hoodie, auscultadores)
Um Velho (75, blazer gasto, um exemplar de Eça na mão) bebe um café.
Jovem (Sem levantar a cabeça): Isto está lento. Preciso de um upgrade. Esta coisa não me deixa ler 10 mil tweets de uma vez.
Velho: Experimenta o papel. É infinito. E não te chateia com upgrades.
Jovem: Papel? Ah, sim. O formato pré-histórico. Por acaso só uso para embrulhar o peixe. Já agora o que é que estás a ler? Essa capa tem um ar… esquisito.
Velho: É Eça de Queirós. E não estou a ler, estou a reler. Há 50 anos li por moda. Agora leio por medo. Medo de ter percebido tão mal na altura.
Jovem: Medo? Eu não tenho medo. Eu scrollo. Sabes o que é que a tua “releitura” tem de falível? Não tem hiperligações. Não consigo saltar para um resumo no YouTube.
Velho: E o teu scroll não tem cheiro. Não tem a memória do sítio onde o leste. Lês 10 mil tweets por dia. Quantos entendes? Quantos guardas?
Jovem: Guardar? Para quê? Fica tudo na Nuvem. Não preciso de estantes. E eu não guardo, produzo. O teu livro é a voz de um morto. O meu feed é a voz de milhões… a maioria idiotas, mas são actuais.
Velho: Os idiotas da minha estante ao menos são clássicos. E os teus são o quê?
Os livros que metes na Nuvem são para esquecer. O papel não, o papel está aqui.
Jovem: (Suspira, faz uma foto ao café) Ok, boomer, tens razão. Vou publicar isto: “Velho com livro, dificuldade em mudar.”
Velho: (Fecha o livro, sorri secamente) E eu vou escrever: “Jovem com telemóvel, dificuldade em pensar.”
A vida não é fixável. Logo, jamais poderá ser compreendida com o acto de fixá-la (leitura).
Assim sendo, a vida nunca pode ser relida. Pois o que se volta a ler nunca se leu.
A Vida, tal como o ser-humano ou a cognição, não são coisas. São relações entre coisas.