
«São precisas duas pessoas para nos fazer, e só uma para morrer. É por isso que o mundo vai acabar.»
William Faulkner, Na Minha Morte (1930), p. 40
Ed. D. Quixote, 2022 (2.ª ed). Tradução de Ana Maria Chaves

«São precisas duas pessoas para nos fazer, e só uma para morrer. É por isso que o mundo vai acabar.»
William Faulkner, Na Minha Morte (1930), p. 40
Ed. D. Quixote, 2022 (2.ª ed). Tradução de Ana Maria Chaves
Inseminação artificial veio deitar por terra esta teoria.
Já não surpreende, há muito e os comentários por aqui, D. O., ilustram-no à saciedade (ou à náusea), a incapacidade arrogante e orgulhosa de alguns em passar além da estrita literalidade das palavras. Não surpreende, mas entristece.
A seguir o subtil e superiormente depurado raciocínio desta gente, será mesmo de afirmar que a inseminação artificial “deitou por terra esta teoria” (já que tudo para eles se reduzirá a teorias, demonstradas ou não), por tornar necessária a intervenção de bem mais do que duas pessoas, para o acto em causa. Algo me diz, todavia, que lhe(s) ocorreu triunfante e precisamente o exacto oposto.
E já agora, a ir por aí, nem uma pessoa – a sua vontade – é necessária para se morrer. Afinal isso é, até ver e em última e fatal instância, independente da vontade do sujeito.
É por causa desta mudança de paradigma (naquilo que se definia como «ser-humano» e «vida») que o Impronuncialsmo é importante. Porque o Impronuncialismo reformula esse paradigma anterior, e indica uma parte do ‘objectivo’ (meta) e uma parte da ‘finalidade’ (propósito) na Existência, e o ‘modo’ (caminho) de o alcançar.
Muito interessante, por marcar uma radical mudança na concepção do mundo e da vida entre a época de Faulkner (séc.XX) e a actual (iniciada no séc.XXI).
A frase de Faulkner, actualmente, provoca um sorriso. Perante o erro e a ingenuidade que expressa, e que reinou nas gerações do séc.XX (e anteriores).
Para nos ‘FAZER’ já não são necessárias quaisquer ‘pessoas’. Basta juntar as proteínas e os aminoácidos numa determinada proporção de modo que os cromossomas fiquem sujeitos à divisão celular. O processo de ‘fazer crias humanas’ já se separou das pessoas.
E ‘MORRER’, é necessário saber aquilo que de facto ‘morre’. Se o corpo anatómico ou a cognição.
Foi por causa destas duas questões que o SAPr3i (o Impronunciável) foi convidado pela Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia (SPAE) a proferir a palestra “O Corpo em Mutação” na Fundação Eng.º António de Almeida no Porto.
Dois exemplos são elucidativos desta Mudança:
— O Projecto ReAnima (clicar e ver).
— “Hashem Al-Ghaili, cientista que trabalha na Universidade de Berlim, criou o “primeiro ventre artificial do mundo”. A solução, designada “EctoLife” consiste em 75 laboratórios separados, que conseguem acomodar 400 cápsulas de crescimento, capazes de replicar as condições do ventre de uma ‘mãe’. Cada um destes laboratórios é capaz de incubar 30 mil bebés por ano, com o crescimento a poder ser monitorizado diretamente através do telemóvel dos donos destes procriados (ditos pais»). Os ‘pais’ (que estejam dispostos a pagar) poderão escolher diversos aspetos genéticos dos ditos ‘filhos’ (altura, tom de pele, inteligência, etc.” (The Next Web, 22 dezembro 2022).
“Agora, para o melhor ou o pior, vivemos todos no mundo CRISPR” (Science, 2015).
«CRISPR-Cas9» é o acrónimo de «Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats (Repetições Palindrómicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas)». Uma ferramenta molecular criada em 2012 por Jennifer Doudna e E. Charpentierque que permite cortar e colar partes do genoma (ADN) de qualquer célula.
Em 2015 foi considerada pela revista Science (18December2015, vol.350, nº6267, pp.1456-1457) a principal descoberta científica do ano.
Em 14 de setembro de 2016 foi tornada mais eficaz com a variante iCas (consultar: Kaiwen Ivy LIU, Muhammad Nadzim Bin RAMLI, Cheok Wei Ariel WOO, Yuanming WANG, Tianyun ZHAO, Xiujun ZHANG, Guo Rong Daniel YIM, Bao Yi CHONG, Ali GOWHER, Mervyn Zi Hao CHUA, Jonathan JUNG, Jia Hui Jane LEE & Meng How TAN (2016) “A chemical-inducible CRISPR–Cas9* system for rapid control of genome editing”, Nature Chemical Biology, DOI: doi:10.1038/nchembio.2179 (Last updated: 14 September 2016 10:55:6 EDT).
O mundo vai acabar porque as mulheres já não querem ter filhos. A pílula e o preservativo vieram dar cabo disto tudo. Elas, agora só querem é borga.
O dimorfismo sexual vai esbater-se.
O aumento dos cérebros humanos não é compatível com a exiguidade do gargalo por onde têm de passar para ‘nascerem’. A percentagem de cesarianas está a aumentar exponencialmente.
O «ser-humano» com um cérebro maior do que o actual necessita de abolir a diferença de género para conseguir evoluir.
O problema são os cabeçudos do Benfica que se arriscam a desaparecer do mapa.
Portugal tem cientistas capazes de criarem seres humanos
em laboratório? Talvez. Mas a legislação portuguesa não permite…
A procriação feita com o recurso a um óvulo fecundado “in vitro”
é feita há décadas, mas tem sido necessário um útero receptor,
seguindo-se a gestação normal, com a duração de nove meses,
mais dia menos dia.
Um útero artificial teria de reproduzir tudo o que acontece num
útero normal. Como é que um feto seria alimentado num útero
artificial? Com uma placenta artificial? E o líquido amniótico?
Aminoácidos, moléculas e o empenho de cientistas não chegam para fazer bebés. A não ser que os cientistas sejam um homem e uma mulher (com capacidade para procriar) e o empenho seja
sexual e um espermatozóide fecunde o óvulo.
William Faulkner (1897 – 1962) nasceu em New Albany (Massachusetts,
United Sates of America). Participou na Primeira Guerra Mundial, tendo
sido incorporado na britânica Royal Air Force.
Alguns dos livros que escreveu:
Soldier’s Pay (1926)
The Sound and the Fury (1929)
Sartoris (1929)
As I Lay Dying (1930)
Absalom, Absalom! (1936)
Intruder in the Dust (1948)
The Reivers (1962).
Ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1949.
P. S.: O Mundo não vai acabar. A vida? Um dia…
João Barros da Costa