
«O Estado não tem uma administração pública célere, eficaz e vocacionada para servir, antes para atrapalhar o mais que puder. A justiça é lenta, burocrática e cara. As escolas não funcionam por falta de condições, por causa das greves ou da falta de professores. O sistema nacional de saúde é o que se vê. (…) Tudo, ou praticamente tudo, no Estado está feito para contemplar sectores de lobbying, corporações e sindicatos, e nada para corresponder às necessidades das pessoas e das empresas.»
Nuno Gonçalo Poças, Águas de Bacalhau, p. 231
D. Quixote, 2026

“A justiça é lenta, burocrática e cara.”
Uau, Nuno. Que audácia. É claro que a justiça é lenta. Sobretudo quando se trata de enfiar na cadeia a rapaziada dos bancos e dos grandes grupos económicos que fogem aos impostos, mas que o teu pessoal tanto adora.
As escolas não funcionam “por causa das greves”. Mas claro que sim. A culpa não é de décadas de cortes e desinvestimento para sobrar dinheiro para salvar buracos privados. A culpa é do professor contratado que faz 500 km por mês para ganhar tostões e tem a lata de fazer greve. Que nojo de gente que não quer ser explorada, não é, Nuno?
Mas a falta de noção do Poças, é quando ele atira que o Estado está feito para contemplar “sectores de lobbying, corporações e sindicatos”. Coitadinhas das empresas e do capital que nunca usaram o Estado para safar negócios ruinosos à custa do contribuinte. O Estado é um sugador de riqueza… até dar jeito para criar Parcerias Público-Privadas onde o risco fica para o Zé Povinho e o lucro vai direitinho para o mercado livre e para as offshores.
Ó Nuno, vai mas é beber uma água das Pedras, que essa azia com os serviços públicos passa. O Estado pode ser mau, mas olha que a tua capacidade de escrever como se fosses o farol do pensamento contemporâneo, não fica nada atrás.
Nuno Gonçalo Poças já fez parte da Administração Pública ou, se se preferir, do “Estado”, durante mais de um ano (entre 2014 e 2015), enquanto técnico especialista do gabinete do Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional (Pedro Lomba), no Governo liderado por Pedro Passos Coelho e, já agora, com um estatuto remuneratório igual ao dos adjuntos. (https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho/10894-2014-56357191)
Na condição anterior, que contributos terá dado Nuno Gonçalo Poças no sentido de tornar a administração pública célere, eficaz e vocacionada para servir, como agora defende?
Também é um defensor assumido do regresso de Pedro Passos Coelho à vida política activa, o que, para mim, bastaria para não apreciar positivamente as suas opiniões…
Enquanto houver memória, jamais verei com optimismo o regresso do putativo “desejado”, pois que me bastou ter sofrido na pele todo o esplendor do seu “espírito reformista”, aquando da sua passagem pelo cargo de 1º Ministro…
Portanto, respeito as opiniões de Nuno Gonçalo Poças, como as de qualquer outra pessoa, mas não consigo reconhecer-lhe excepcionais virtudes…
Como assim faltam professores? (ou outros fp). Então com quase 770.000 fp, como podem faltar nas escolas, nos hospitais, nos tribunais, …? Mas o que é que 770.000 alminhas numa altura em que a informação está à distância de um clique, que a comunicação em vários formatos é praticamente instantânea entre pontos opostos do globo terrestre, que é perfeitamente possível que o sector A cruze os seus dados com os dados do sector B e que ambos otimizem e maximizem resultados diminuindo brutalmente tempos e operações,… como é que num panorama destes podemos ter uma enormidade destas de fp e, mesmo assim, todos os dias ouvirmos o mesmo, faltam estes, aqueles e aqueloutros!? Ou continuarmos a ter serviços lentos!? Como!? Como!? Não entendo nem posso aceitar este absurdo!
Se os médicos, enfermeiros, professores, oficiais de justiça e outros profissionais são “caros” de contratar, então metam-me a andar duma vez por todas os milhares de inúteis que existem na fp e, com o dinheiro que sobrar desses ordenados, paguem a esses profissionais. Qualquer empresa digna desse nome sabe e faz isto. Descarta pesos mortos para contratar quadros mais produtivos, caso contrário vai ao buraco – é que nem todas têm a “sorte” da Efacec ou da TAP!
Ou, pelo menos, reformem a porcaria da péssima gestão pública e metam gente capaz a gerir esses 770.000 fp e que saiba lidar com as tecnologias existentes em 2026 para, no mínimo, colocarem os serviços a funcionar decentemente.
Mas, como já não acredito no pai natal, já sei que todo o regabofe irá continuar, a péssima gestão por parte dos gestores amigos do partido, a satisfação dos interesses dos amigos e clientelas em detrimento dos utentes dos serviços, a tomada de decisões boas no imediato mas altamente danosas a prazo para satisfazer e ganhar os votos do presente, a contratação de mais e mais fp apesar da tecnologia não parar de progredir e como se ainda estivéssemos no tenpo da máquina de escrever e dos faxes (ai não, tantos votos que se podem comprar assim!) etc, etc, etc. Tudo irá continuar e, portanto, quem trabalha e produz algo vai continuar a ser violentamente saqueado pois o dinheirinho para pagar os ordenados e meter dinheiro nos bolsos dos amigos e famigliares tem de vir de algum lado. Mas claro, os mesmos que promovem isto virão depois chorar baba e ranho na CS para o povo, a lamentar a pobreza que teima que Portugal não abandone a cauda da Europa tenha ela 12, 27 ou mais Estados-membro e, a culpar “o grande capital” que já nem sequer existe no nosso país, tanto que tudo tem e está a ser comprado por grupos estrangeiros.
Um país de parasitas de mão estendida à UE e que vive feliz com isso pois nada faz para mudar, aliás até se gaba de nada reformar!
“Percebo que um país que tem perto de metade da população reformada, empregada no Estado ou desempregada, não tenha grandes ambições, que prefira que tudo se mantenha como está, mesmo que tudo se mostre insustentável a longo prazo. Se serão as gerações futuras a sofrer os erros do presente, para que há-de um país amorfo incomodar-se com isso?” (p.124)
“A viragem à direita não tem uma motivação ideológica, mas social. É que a esquerda perdeu os de baixo: o PCP não compreendeu a desindustrialização, o Bloco e o Livre não representam mais do que privilegiados urbanistas carregados de superioridade moral. Ao PS restaram os amorfos do sistema: resignados, pensionistas, reformados, funcionários públicos, dependentes do sistema redistributivo em geral. A AD ficou com a gama dos privilegiados reformadores suaves, a IL com com os mesmos da categoria mais arrojada. O Chega ficou com aqueles a quem todos os outros, comunicação social incluída, têm passado os últimos anos a tratar como fascistas” (p. 163).
E bem mais se poderia destacar. Uma leitura (em grande medida releitura, pois que se trata de colectânea de textos já publicados) que por aqui se aproxima do fim. Não há no que, com a devida vénia, transcrevo acima especial originalidade. Há uma forma límpida, sem rodeios, de chamar as coisas pelo seu nome. O que não é mérito menor e gera habitualmente, seja quanto à forma seja quanto ao conteúdo, incontidas vontades de matar o mensageiro.
Os comentários que por aqui já suscitou em nada surpreendem.
Ora bem… Acompanho tudo o que o parágrafo descreve e acrescento ainda que o Estado não tem uma AP em condições – autónoma e independente – porque o poder político não quer, uma AP que funciona é o melhor travão às ideias de governos medíocres.
O problema não é a Dona Adosinda da repartição de finanças de Moimenta da Beira, é quem está quatro lugares acima dela na cadeia alimentar, e como é que lá chegou. Os cargos de topo foram colonizados para retribuir favores eleitorais e satisfazer os ímpetos das estruturas locais do PS e daquilo em que degenerou o PSD (que, ou muito me engano, causaria asco a Sá Carneiro e companhia). Basta ver as nomeações para essas coisas chamadas CCDR, um mimo…
Uma Administração liderada por gente desta, apaniguada do executivo mais cobarde que já tivemos, por muito bons quadros que tenha, e ainda tem alguns, não pode fazer mais do que gestão do dia a dia.
E assim o estado vai implodindo a pouco e pouco… Até ao dia em que os cidadãos sentirem que nem a mais elementar tarefa do Estado – segurança e defesa – está a ser assegurada. E diria que esse dia já esteve mais longe.
Sobre a justiça, confesso que tenho muita dificuldade em qualificar Portugal como um Estado de Direito funcional, mas isso sou eu que sou má e acordei com azia.