Há tentações a que um amante de livros não consegue resistir. Uma novidade acabada de chegar do escritor de eleição, os livros arrumados e virgens, o aroma que as páginas acabadas de imprimir soltam. Desgraçadamente qualquer livro, independentemente do seu autor ou da qualidade do conteúdo, consegue soltar aquela fragrância irresistível. Mandasse eu e declararia quais os livros, talvez quais os autores deviam sair perfumados da gráfica. Não há pior do que sentir-me seduzida pela fragrância de livros de escrita duvidosa, a traição a que os sentidos nos obrigam amiúde. Desses fujo, não vá perder-me encantada e acabar a ler romances de vão de escada.
Naquele dia não houve fragrância. Excluamos, pois, este factor de sedução. Naquele dia, na Feira do Livro, os olhos ter-me-ão brilhado, quando chegada à caixa com três livros me informaram que, se comprasse quatro, o mais barato era oferta. E porque aos livros não se viram as costas e tamanha generosidade livreira é inaudita por cá, retomei o périplo anteriormente interrompido pela auto-disciplina a que surpreendentemente me havia submetido. Rumei direita e sem hesitação a um livro que namorara meses antes, também ainda desgostosa pela quase ausência de livros brasileiros no certame luso e Os Lados do Círculo de Amílcar Bettega juntou-se a Um Passado Perfeito de Leonardo Padura, O Melhor da Comédia da Vida Privada de Luís Fernando Veríssimo e a O Planalto e a Estepe de Pepetela. E estaria tudo a correr muito bem, se não tivesse entretanto regressado ao livro e esbarrado em dois, logo dois, dois pontos e vírgulas, na primeira página. Num texto nutro especial animosidade contra os ditos. Erguem-se na prosa como barreiras, um salto a que obrigam para que se prossiga. Incomodam-me, fazem-me parar expectante na enumeração que se adivinha e, admito-o, irritam-me, detestto-os. Não sei se volte à Feira e reclame o produto defeituoso ou faça o que os leitores sem manias fazem: ler o livro.

Não desgosto de pontos e vírgulas,Leonor. por vezes considero-os essenciais. O que não suporto são erros grosseiros e traduções miseráveis. Para já não falar das páginas descolando-se da lombada.
Já em tempos propus a criação de uma associação de defesa dos direitos dos consumidores- leitores, mas ninguém me deu importância.
Isso também não, Carlos. Acho que devíamos fundar uma associação de defesa dos direitos do leitor, mas dos nossos mesmo, sem ser os estafados direitos do leitor do Pennac 🙂
Que nada; não tem qualquer importància…
importância;tem (hehehe)
eh eh eh
Obrigado pelo sorriso, Leonor.
Estou como tu, Leonor. Embirro com o ponto-e-vírgula. E com sinais gráficos em excesso. Vírgulas em excesso. Pontos de exclamação. Reticências, na maioria dos casos. Como nas maiúsculas: na dúvida, segue minúscula. Para que havemos de escrever estado com maiúscula se escrevemos sociedade com minúscula?
Mas gosto dos dois pontos, que dão elegância e cadência à escrita. E também não podemos fugir aos pontos de interrogação.
Ex-aequo com o ponto e vírgula estão as exclamações, Pedro. Que nervos. Estou a ler neste momento o apocalipse dos trabalhadores do valter hugo mãe e ele não usa maiúsculas para não destacar uma palavra em detrimento da outra, nem outra pontuação além do ponto final e da vírgula. Segundo o próprio são desnecessários. A verdade é que estou quase no fim do livro e não lhes senti a falta. Tem sido uma nova experiência de leitura e que recomendo.
Não estou inteiramente de acordo convosco. Desde que usados adequadamente, os sinais gráficos, a pontuação, etc., enriquecem a escrita.
Têm desaparecido, fruto da pobreza literária actual, mas eles existem para ser utilizados. A sua função é essencial: dão vida à escrita; muitas vezes permitem que a leitura tenha o tom e a cadência que o autor pretende e que o autor usaria se falasse, em lugar de escrever.
Um texto pontuado adequadamente é uma prosa quase ilustrada! E deixar ao leitor uma pontinha da conclusão pretendida torna-se um exercício quase educativo…
Só falta a interrogação, João 🙂
Será que me esqueci?…
Na mouche , João Carvalho (agora acertei…)
A questão está em que já quase ninguém aprende na escola a função, a adequação e sobretudo a oportunidade de certos recursos de pontuação, tidos por obsoletos. Portanto, essas pessoa não os usam (e em idênticas circunstâncias eu tb não os utilizaria, por mera prudência). Mas é exactamente porque não os usam que quando tropeçam neles também não os entendem.
Uma coisa é certa: a pontuação é das ferramentas que mais evolui. E hoje não há apenas UMA modalidade ou estilo correcto de pontuar, há várias. Sendo que dentro de cada opção, a técnica não está isenta de ter de ser virtuosa e coerente.
Ex: virgular de acordo com as ‘regras’ clássicas, ou quase não virgular. Cada um dos estilos é bom mas tem de ser bem usado, não pode ser um patchwork … (como estou a fazer propositadamente agora :- )
Por acaso, também gosto de textos quase sem virgulação (um mero exemplo). Mas para isso há que dominar a técnica, não basta omitir as vírgulas 🙂
Enfim, acho que a linguagem e a escrita são recursos fascinantes, não me oponho minimamente à inovação. É uma espécie de prova de vida!
Para acabar, acho também que cada um de nós é condicionado pela profissão. Por exemplo: um jurista precisa muito desses sinais de pontuação, que se adaptam à complexidade dos textos do foro e introduzem ‘nuances’ essenciais no discurso. E estou a falar apenas dos textos do foro, não exactamente em articulados normativos. Porque aqui, uma virgulazita pode fazer toda a diferença…
(eu sou do tempo em que, nos exames escritos da FDUC , se acrescentavam ou retiravam pontos à classificação final, num ‘item’ que ponderava isoladamente a correcção da forma escrita … Profs . torcidos, muiiiito torcidos 🙂
Refiro-me essencialmente a textos literários, embora continue a achar que o ponto e vírgula deve ser usado com a parcimónia adequada à situação. Tal como não se devem usar pontos ou vírgulas indiscriminadamente, também o mesmo não deve(ria) ser feito com o ponto e vírgula. A título de exemplo, A Ilha de Coetzee é um dos livros em que o ponto e vírgula é usado abusivamente, uma vez que tal não acontece na versão original. As Vozes de Marraquexe são outro exemplo em que abundam os pontos de exclamação. Se a compararmos com a versão original em alemão nada disso aconrece. Há uma alteração no estilo do texto e uma traição ao autor, grave quanto a mim. É óbvio que traduzir é trair, mas não precisava de ser tanto, se o(s) tradutor(es) não se tivesse(m) imposto ao próprio autor. Claro que também neste campo a moda e a inovação se reflectem.
Obrigado pelo apoio, Chloé.
E eu estou inteiramente de acordo com o João. A ausência (ou quase) de pontuação é uma moda a que não consigo aderir e que não faz muito sentido para mim. Cansa-me ler textos sem vírgulas, por exemplo, em que me é exigida uma atenção redobrada em cada linha, em cada parágrafo, em busca do sentido certo e sem possíveis deturpações. A pontuação excessiva é pura poluição, admito, mas a sua ausência empobrece um bom texto.
Quanto ao ponto e vírgula, estou contigo: não uso muito e acho que tira fluência e elegância, como tudo o que esquematiza.
Depende da pontuação, Ana, exclamações e pontos e vírgulas em excesso cansam-me e afastam-me do texto. Os últimos, como muito bem notas, tiram-lhe fluência e elegância. E claro que também nisto a moda e a necessidade bacoca da elevação acima do comum dos mortais é um facto. Contudo, há quem consiga com sucesso, provavelmente porque sabe o que está a fazer em vez de se tornar um pastiche dos outros.
Parece-me óbvio que o excesso é errado. Tal como a omissão. Toda a pontuação é útil e é por isso que existe. Só precisa de ser adequadamente utilizada.
Depois vem a moda. Saramago, Lobo Antunes, etc., são reinvenções. Ora com sucesso, ora sem. Costumam dar mais trabalho a ler, requerem muito mais atenção. Pode resultar, mas são fantasias. A desgraça maior, porém, é a dos imitadores…
Aí é que está, Leonor. Tal e qual como na pintura, em que é preciso saber desenhar bem uma forma para depois poder “desconstruí-la”. O problema é que há para aí muitos pintores abstractos que não aprenderam primeiro a desenhar, e muitos escritores modernaços que não conhecem as regras da pontuação.
Cabe ao leitor distingui-los, Ana. O Rodrigo Guedes de Carvalho, por exemplo, parece-me um pastiche do António Lobo Antunes. Li A casa quieta e fiquei por aí. O que me surpreende é a ausência de autocrítica e a dificuldade em seguir um rumo só seu.
Nunca o li.
Mas sim, o (bom) leitor acaba sempre por distinguir o trigo do joio.
Obrigado pelo apoio, Ana.
É que prefiro as charadas no conteúdo, João. Na forma, dispenso-as.
Absolutamente anti-ponto e vírgula. Declaramente anti ponto de exclamação. Declaramente anti proliferação de aspas a propósito de tudo e de nada. Moderadamente anti reticências. Moderadamente anti parêntesis. Moderadamente anti hífen, como se nota.
E absolutamente contra a inflação de maiúsculas que se nota também na blogosfera.
O excesso de sinais gráficos polui o texto que deve ser limpo e claro.
Quanto às vírgulas: muitas delas substituem-se com vantagem por um ponto final. Não é preciso inventar nada. Hemingway inventou isso no início do século XX. Está lá tudo.
…………………..!!!!!!!!!!!!!!!!! !!!…………………….
…
Posso juntar-me a este teu clube, Pedro?
Já lá estás.
Eu praticamente só utilizo pontos finais e vírgulas, quando escrevo.
É raríssimo utilizar o parêntesis, as reticências, os travessões, as exclamações, as interrogações, as aspas e os dois pontos. Só no inevitável, ou nos diálogos.
Estou a começar a lidar com o ponto e vírgula, vendo-o de uma nova maneira e estou a gostar. Mas ainda utilizo com cautela. Foi uma chamada de atenção de um professor, Pedro Sena-Lino, que me fez ver a ‘coisa’ de outra forma. Dá-nos por vezes uma cadência, que não se atinge só com as vírgulas.
Nas minhas leituras aterrorizam-me principalmente, as exclamações e o excesso de vírgulas; aquelas frases em que cada palavra tem uma vírgula atrelada, fazem-me começar a contá-las de imediato.
Mas faço diferença, entre uma descrição ou narração, onde o abuso de várias pontuações me enerva e o diálogo, onde são bastante necessárias e em muitos casos, imprescindíveis. Penso que escrever diálogos, é muito difícil por isso mesmo.
E apesar de eu praticamente escrever com pontos finais e vírgulas, estou de total acordo com o João Carvalho.
Incongruências minhas (ponto de exclamação, entre parêntesis)
Eu praticamente só utilizo palavras, quando falo.
O Pedro não reconhece Sena-Lino, por causa do hífen. Ainda por cima, com iniciais maiúsculas!!!…
João, quando falo utilizo imensa pontuação junto com as palavras, nas pausas prolongadas, na respiração e nas diferentes intensidades da voz.
Bom fim-de-semana.
Quando fala, o Paulo Bento utiliza muitas reticências…
Não uso parêntesis num texto. Para mim ou faz ou não faz parte do texto. Se não faz, não precisa de lá estar, se faz, estará entre vírgulas ou entre travessões. Nos dias que correm só uso ponto e vírgula e parêntesis para isto 😉
Também prefiro uma frase entre travessões, do que colocá-la entre parêntesis.
Para mim tem duas vantagens: destaca-se imediatamente, por exemplo no caso de uma ironia, ou dá a sensação que continua a pertencer ao texto principal, em vez de ser um extra.
E agora estou de partida, para a segunda ronda da Feira do Livro. Objectivo: alfarrabistas.
Bom fim-de-semana, Leonor.
Bom fim-de-semana, Patti. Vou lá amanhã mas não aos alfarrabistas. Vou libertar livros e tornar Lisboa numa biblioteca 🙂
Travessões e parêntesis têm funções diferentes: servem para uma explicação acessória do discurso, uns; servem para uma nota, explicativa ou não, à margem do discurso, os outros.
Há ainda o caso do travessão isolado, que caiu em desuso e que passou a dar origem a um erro que se tornou comum na maioria dos textos.
Por exemplo: a estrada vai ser construída aqui, disse o ministro.
O texto está errado. Vejamos duas versões certas.
Sem travessão, deve ser assim: a estrada vai ser construída aqui, segundo (ou conforme) disse o ministro.
Com travessão, deve ser assim: a estrada vai ser construída aqui — disse o ministro.
Obrigado pelo apoio, Patti.
Li tudo. Concordo com o João.
O sinais existem para uso. E não é indiferente usar uma vírgula ou ponto e vírgula. Não é vale o mesmo uma expressão entre hifens, ou entre parentesis, ou entre vírgulas.
O problema está em saber usar diferenciadamente e de forma correcta. E, nisso, todos falham – é difícil.
Obrigado pelo apoio. Nem todos falham, Joaquim…
Também li tudo e estou com o João. A pontuação é um auxiliar de leitura. E cada sinal de pontuação tem a sua função. Quando bem aplicada nem se dá por ela. A dificuldade está, como diz o Joaquim, em fazê-lo bem.
É claro que a pontuação também não escapa a modas. O ponto e vírgula está a cair em desuso e a exclamação vai pelo mesmo caminho. Talvez um dia voltem, como voltaram as calças à boca de sino e os tecidos com motivos étnicos 🙂
Obrigado pelo apoio, Teresa. Viva o ponto de espantação!
Estará o João, por acaso, a congregar apoio contra mim no meu próprio post? 😉
Seria uma grande lata da minha parte, coisa em que não sou especialista! De resto, nunca me pareceu que estivéssemos em total desacordo – pelo contrário. Parece-me…
Claro que não. E vê, que bonito, sem um único ponto e vírgula 🙂
Nem sei se me esqueci; ou terá sido de propósito?
Apesar de tudo, parece-me que é preciso distinguir o objectivo da escrita: nestas caixas de comentários, por exemplo, o discurso pretende-se vivo, espontâneo e colorido, o mais parecido possível com a linguagem oral (e coloquial). E nesse contexto a pontuação – mesmo em exagero – não só se admite como tem até uma função importante. Na literatura é outra coisa, não há comparação possível.
Não vos parece? 🙂
Parece-me que sim, apesar de continuar a embirrar com os pontos e vírgulas; e também com as MAIÚSCULAS… Então das reticências nem se fala… (e sou alérgico aos parêntesis a propósito de tudo e de nada). O pior são mesmo os pontos de EXCLAMAÇÃO!!!!! Não sugerem, nem tentam persuadir: BERRAM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
(fiz-me entender???????)
Livra… fiquei surda!
L-I-V-R-A!!!…
😉
Distinguir o objectivo da escrita é fundamental, já o disse num comentário anterior. O meu encanitanço com os pontos e vírgulas é no texto literário. Aqui nos blogues permito-me alguns excessos… 😉
Claro que sim, Ana. Mas o estilo pode como que passar ao lado do objectivo de forma intencional, por vezes. Em casos diversos, apetece-me escrever num tom (digamos) coloquial. E é então que a pontuação e a sinalização gráfica ganham maior relevo, para ‘ilustrar’ esse tom.
Se é intencional, tudo bem. Já o Wilde dizia que só se pode ser mal educado quando se sabe que se está a sê-lo. Conhecer as regras é fundamental para depois saber subvertê-las. 😉
Outra koisa ke detesto é a eskrita kom kapas
Isso nem em mensagens de telemóvel. Quando quero abreviar, uso o “q” sozinho. Sempre é mais português.
Além do mais, acho a letra K feia. Mais feia que C. E muito mais feia que Q.
Curiosa, essa estética das letras.
Dava pano para mangas. 🙂
Sinceramente, não entendo porque se troca um Q por um K. O som é o mesmo e a letra K é muito menos sensual.
Claro vírgula o Q é muito mais sugestivo reticências
Mas sabe muito bem que nas sms o Kapa não serve exactamente para substituir o Q vírgula mas sim as duas letras aspas QU aspas ponto final smiley ou risonho
Q quando vem com U anda sempre bem acompanhado. Já K anda sem par: ninguém dança o tango com ele.
Boa, Chloé.
Também não uso K nem X.
Eu uso o H algo contrariado.
Que coisa engraçada, Pedro.
Hahaha…