
Jorge Luis Borges (1899-1986): retrato do escritor quando jovem
É possível fazer a lista dos cem melhores livros de todos os tempos? Parece que sim. Mesmo que se trate de uma lista como esta, elaborada pela Newsweek, que coloca E Tudo o Vento Levou em 16.º lugar e a Bíblia em 41.º, o que não deixa de ser insólito. Ou esta, que resultou de uma parceria entre o Le Monde e a FNAC, o que talvez justifique a disparatada aparição do Astérix cinco lugares acima do Ulisses, de Joyce.
E é possível fazer a lista das cem melhores frases ou dos cem melhores parágrafos iniciais de livros? Parece que sim também.
Esta, por exemplo, da American Book Review. Que não esquece o inesquecível arranque d’ O Estrangeiro, de Camus: «Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames.” Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.»
Ou o quase insuperável início d’ A História de Duas Cidades, de Charles Dickens: «Foram tempos magníficos, foram tempos tenebrosos, foi a era da sabedoria, foi a era da estultícia, foi a época das convicções, foi a época da incredulidade, foi a idade da luz, foi a idade das trevas, foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, nada tínhamos diante de nós…»
Ou como começa O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald: «Era eu muito mais novo e mais vulnerável do que sou hoje quando o meu pai me deu um conselho que desde então nunca mais me saiu da cabeça. “Sempre que te apetecer criticar alguém”, disse ele, “lembra-te de que nem toda a gente neste mundo teve as mesmas vantagens que tu”.»
Já para não falar da linha iniciais da Lolita, de Vladimir Nabokov: «Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu da boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.»
Ou do modo como Tolstoi começou a escrever a sua imortal Anna Karenina: «As famílias felizes são todas parecidas, mas cada família infeliz vive a infelicidade à sua maneira.»
Sem dúvida um dos melhores começos é o dos Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: «Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.»
E não esqueçamos a arrepiante frase de abertura d’ A Metamorfose, de Kafka: «Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco insecto.»
Mas sinto-me levado a concordar com Jorge Fernández Díaz, no diário argentino La Nación: o parágrafo inicial do conto O Aleph, obra-prima de Jorge Luis Borges, fica-nos gravado na memória para sempre: «Na ardente manhã de Fevereiro em que Beatriz Viterbo morreu, depois de uma imperiosa agonia que não cedeu um só instante nem ao sentimentalismo nem ao medo, notei que os painéis de ferro da Praça da Constituição tinham renovado não sei que anúncio de cigarros louros; o facto doeu-me, pois compreendi que o incessante e vasto universo já se afastava dela e que essa mudança era a primeira de uma série infinita.» Excepcional.
O autor de Ficciones morreu fez agora 36 anos. Mas «Borges se agranda después de Borges», como justamente foi descrito no El País. De quantos autores seus contemporâneos se pode hoje dizer o mesmo?


Que belíssima compilação. Confesso que também gosto de ficar vidrada logo no primeiro parágrafo. Quando não acontece continuo a ler sempre com aquela sensação de que faltou qualquer coisa.
Hei-de falar também das frases e parágrafos de abertura só de autores portugueses. Justifica texto autónomo.
Exacto, “frases e parágrafos de abertura só de autores portugueses”.
Existem traduções para português notáveis.
Não esquecer que “Traduttore, Traditore”.
Devia ter mencionado os nomes dos tradutores dos trechos que menciono acima.
Aqui ficam alguns:
Camus – António Quadros
Dickens – Paulo Faria
Fitzgerald – Ana Luísa Faria
Márquez – Margarida Santiago
Nabokov – Fernanda Pinto Rodrigues
Borges – Flávio José Cardoso
Excelente. Os méritos a quem os merece.
Fica reparada a lacuna do texto.
actualmente temos quem leia para nós.
Borges não cansa: ficções, aleph …
Sim. É um autor intemporal, com um estilo sem data. Funciona para leitores de todas as gerações.
As listas se atentarmos bem, são todas boas. Borges não cansa. Já o Ulisses é muito mau de ler. Nunca teria tentação de o reler. Já o Astérix vou lendo e relendo, principalmente quando acontece alguma coisa que ” eu já li isto num livro do Asterix!”
Bom fim de semana, Pedro.
Obrigado, Dulce. Igualmente.
As listas norte-americanas padecem sempre do mesmo defeito: fazem de conta que o resto do mundo não conta. As mais actuais incluem sempre todas as minorias (étnicas, sexuais, etc), o que as torna irrelevantes. São as tribos a tentarem capturar o cânone – quando este só faz sentido se suplantar a lógica tribal.
Esta da ‘Newsweek’ é das menos más.
Borges é um monumento. Quanto ao postal: enfim, as listas valem o que valem. E a lista do Le Monde é uma votação popular sobre que livros são recordados pelos leitores. É imensamente francesa… Só digo isto para resmungar, se for vista como uma lista de valor literário tem imensas incongruências (é, ela própria, uma incongruência). E para as apontar não era preciso apoucar o magnífico Astérix…. (já agora, indicado pelo primeiro volume, que não é nem de longe o melhor). Por exemplo o destaque dado a Saint-Exupery… E lista tem a vantagem de ter banda desenhada (Jacobs e Franquin, pelo menos).
A lista do ‘Le Monde’ chega a ter heróis da BD como «livro»: Blake & Mortimer, Gaston Lagaffe. Enfim…
Até são belgas, mas os franceses levam o jacobinismo sociológico e o bonapartismo cultural ao ponto de “nacionalizarem” a Bélgica, tornando-a deles para este efeito.
O general De Gaulle costumava dizer que o seu único rival era o Tintim – belga também. É a mesma lógica gaulesa a imitar as antigas legiões romanas.
Sim, aquilo do “francesismo” tem muito de gordurenta “francesinha”…
Bastante, sim. Quanto à tal “francesinha”, suposta tradição gastronómica portuense, passo.
Eu não me fio muito nas listas, já cheguei aquela idade em que pareço um daqueles velhos dos marretas.
Quando as listas são feitas pelas livrarias geralmente é para vender os monos e quando as listas são feitas pelas editoras geralmente é para dar a conhecer os novos autores. Não há almoços grátis e os gostos são sempre muito subjectivos.
Eu sempre gostei de listas. Leio-as, consulto-as e faço-as.
Eu também gosto de listas, mas confio mais nas minhas, parece que traduzem mais as minhas preferências.
Nas listas feitas por outros é muito difícil dissociar o pré julgamento do efeito de grupo. Julgamos sempre primeiro o autor da lista e a nossa apreciação é dada não pela obra em si mas pela consideração que temos pelo autor da lista.
É muito limitada, essa atitude de se confinar às suas próprias listas, sem estar receptivo às opiniões dos outros.
Mas eu estou sempre receptivo às opiniões dos outros.
Fui obrigado pelos outros a ler os Maias na escola porque fazia parte da lista de livros recomendados.
Agora os outros fizeram uma lista de livros racistas em que os Maias fazem parte dos livros a merecer uma atenção redobrada.
Quem sabe que outras listas irão surgir, olhe antes do 25 de Abril tive de queimar alguns livros porque faziam parte de outra lista.
É sempre tudo muito relativo.
Queimar livros? Chiça. O que é que lhe deu?
Só imagino nazis e comunonazis a fazer isso.
Então?
Onde é que você estava antes do 25 de Abril?
Em 72 e 73 houve uma perseguição estúpida aos chamados livros subversivos, e como sempre a bufaria estava em grande.
Antes do 25 de Abril eu lia Verne e Dumas.
Há muitas grandes aberturas. A dos “Cem anos de solidão” é esplêndida. Pode-se estender por algumas páginas até ao momento em que o Buendia mais velho anuncia a todos: “A Terra é redonda como uma laranja”. Para suprema exasperação de Úrsula.
Esta abertura, para mim, figura entre as dez melhores de sempre. Também gosto muito da frase de abertura da “Crónica de uma Morte Anunciada”.
O primeiro parágrafo da obra de Camus (que li no original) parece-me deficientemente traduzido. A frase inicial é “Hoje a mamã morreu” e não “Hoje, a mãe morreu”. A primeira frase do telegrama é “Mãe falecida” e não “Sua mãe falecida”. O original francês é mais seco e cortante que a tradução.
«Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile: Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.»
Eis o original, tão «seco e cortante» como a excelente tradução de António Quadros.
«Mamã», neste contexto, não faz sentido. Os franceses usam essa expressão com o mesmo sentido lexical do nosso Mãe. “Mamã”, em português, tem uma acepção muito mais restrita, inserindo-se numa classe social média-alta, sobretudo no eixo burguês da capital. O que nada se adequa à personagem central do romance de Camus.
Grande Jorge Luís Borges!
A prova , se necessária fosse, da corrupção moral do comité Nobel.
JSP
Esta foi talvez a mais escandalosa de sempre. A reiterada exclusão de Graham Greene, preterido durante décadas a favor de escritores menores, também.
«Ninguém imagina que um dia possa ficar com uma morta nos braços, cujo rosto nunca mais verá, mas cujo nome recorda.»
Amanhã na batalha pensa em mim
de Javier Marías
Muito bom também. Aliás Javier Marias é para mim o melhor escritor espanhol contemporâneo.
Acabo de comprar a colectânea completa dos contos dele, intitulada “Não Mais Amores”.
Recomendo.