Recentemente mencionei aqui vários livros com frases ou parágrafos iniciais que de imediato agarram o leitor, levando-o a ficar de olhos presos às linhas que vão seguir-se.
Dois outros com excelentes começos passaram-me entretanto pelas mãos: A Campânula de Vidro, de Sylvia Plath, e Aniquilação, de Michel Houellebecq. O primeiro numa antiga tradução (de Mário Avelar) com chancela da Assírio & Alvim – generosa oferta de um amigo, quando soube que eu andava há anos atrás desta obra esgotadíssima, único volume de ficção que a malograda poetisa norte-americana editou em vida. O segundo num recente lançamento da Alfaguara portuguesa, recomendado pelo Sérgio Sousa Pinto, em cujo critério confio (tradução do José Mário Silva).
A Campânula de Vidro (1963) começa assim:
«Foi um Verão estranho e sufocante, aquele em que electrocutaram os Rosenberg. Estava então em Nova Iorque sem saber ao certo porquê. As execuções incomodam-me. A ideia de ser electrocutado dá-me volta ao estômago, e os jornais não falavam de outra coisa: cabeçalhos após cabeçalhos olhando-me esbugalhados em todas as esquinas e entradas de metro tresandando a amendoim. Embora nada daquilo tivesse a ver comigo, não conseguia deixar de imaginar como seria ser queimado vivo até à mais ínfima parcela do nosso corpo.»
Início que faz todo o sentido num livro em que assistimos ao lento mas contínuo declive psicológico da protagonista, que acaba por ser submetida a violenta terapia envolvendo electrochoques. Pungente romance, de cunho autobiográfico, publicado apenas um mês antes do suicídio da escritora: já não sabemos se é a ficção a inspirar a vida ou esta a imitar a ficção.
Eis o parágrafo inicial de Aniquilação (2022):
«Em certas segundas-feiras do fim de Novembro, ou do início de Dezembro, sobretudo quando somos solteiros, acontece sentirmo-nos no corredor da morte. As férias estivais já lá vão, o novo ano ainda demora a chegar; há uma estranha proximidade do vazio.»
Este ainda não li: permanece em lista de espera. É preciso algum fôlego: tem 640 páginas. Preciso agora de algo menos extenso após as 740 páginas d’A Leste do Paraíso (John Steinbeck) e as 520 páginas de Nostromo (Joseph Conrad).
Mas após as primeiras linhas é difícil resistir à tentação de continuar. Até por notar nestas frases iniciais uma espécie de rima interna com A Campânula de Vidro. Sortilégios da literatura.
Daí a importância de um começo sugestivo e tentador. Nunca há segunda oportunidade para uma boa primeira impressão. Nos livros como na vida.

Excelente tradução do título da Sylvia Plath (campânula é uma palavra lindíssima).
Nunca cheguei a ler “A Campânula de Vidro” (até agora; ainda vou mais do que a tempo), mas a Sylvia Plath é uma das poucas poetas às quais vou regressando ocasionalmente (as outras seriam Emily Dickinson e a nossa Sophia).
Tens toda a razão quando aos inícios. Não me lembro se alguma vez fizemos uma série disso aqui no Delito, mas deixo-te o desafio.
Belíssimo romance, João. Lê-se muito bem. Tem uma cadência dramática que se vai insinuando nas entrelinhas e acentua-se à medida que a acção progride.
Cheguei lá lendo esse monumento – a que também já me referi aqui – que são os ‘Diários’ da Sylvia Plath. Em que ela se expõe de um modo impressionante, muito raro em qualquer escritor. Ficamos a perceber até que ponto nela vida e literatura se fundiam.
Infelizmente, ‘A Campânula de Vidro’ (excelente tradução, concordo contigo). há muito esgotada no mercado editorial português, foi também um livro-testamento. Publicou-o em Janeiro de 1963, sob pseudónimo, no auge do mais gélido Inverno de que há memória em Londres, e suicidou-se no mês seguinte. Tinha apenas 30 anos.
No caso dela, poderemos usar com propriedade aquela velha expressão dos nossos avós: «Estava escrito.»
P. S. – Fizemos séries com inícios e com finais, sim. É altura de retomarmos ambas, tantos anos decorridos e já com tantos novos nomes no nosso elenco.
Li o Nostromo há décadas. Não sei como reagiria agora. Na época adorei. Como tudo de Conrad…
Caramba, eu adorei também. É já um dos meus favoritos dele, com “A Linha de Sombra”, “Tufão” e “O Coração das Trevas”.
«era meia-noite e no entanto chovia »
nunca li nada da sylvia. fiquei curiosa.
Canta, o deusa, a colera de Aquiles, o Pelida
E assim foi o funeral de Heitor, domador de cavalos