Ler o Jorge


Sérgio de Almeida Correia,

A estratégia de ideologização e desvirtuação deliberadas da história, moldando-a aos apetites dos governantes, é uma velha arma das ditaduras, que colocam a história ao serviço do regime. As mais totalitárias procuram não só impor e silenciar como converter a população a uma visão homogénea e adulterada da história, através da adopção de um sistema de valores oficial.

Pretende-se uma visão da história deturpada e vinculativa, fixada por decreto fora dos bancos da universidade. (…)

No 1984, Orwell escreveu que “quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”. Ciente disso, na Ucrânia o regime de Putin começou a adulterar a história já no presente, censurando, desinformando e deturpando o óbvio, lançando as sementes do que se vai tornando a falsa versão oficial da invasão russa, executada através de massacres que constituem crimes contra a humanidade. Lenine disse que a Revolução não precisa de historiadores. A democracia e a liberdade precisam.” 

Se há texto que deva ser lido nos dias que correm foi o que saiu no passado sábado, no Público, da autoria do Jorge Menezes. Notável pela sua lapidar clareza e pela forma como aborda o problema. Tem por título “Putin: crimes contra a História e perseguição de historiadores“. Não o percam.

4 comentários em “Ler o Jorge”

  1. Antes da introdução do tema crimes contra a história importa uma rápida abordagem à história presente, mediática ou imediata.
    Para académicos e outros interessados:
    “Ontem à tarde, a ex-secretária de Estado Victoria Nuland compareceu perante o Comité de Relações Exteriores do Senado. O senador Marco Rubio (R-FL), na esperança de desmascarar as crescentes alegações de que existem laboratórios de armas químicas na Ucrânia, perguntou feio a Nuland: “A Ucrânia tem armas químicas ou biológicas?”
    Rubio, sem dúvida, esperava uma negação plena por Nuland, fornecendo assim mais “provas” de que tal especulação é descaradamente Fake News emanando do Kremlin, do PCC e do QAnon. Em vez disso, Nuland fez algo completamente incomum para ela, para neocons e para altos funcionários da política externa dos EUA: por alguma razão, ela contou uma versão da verdade. Sua resposta visivelmente atordoou Rubio, que – assim que ele percebeu o dano que ela estava fazendo à campanha de mensagens dos EUA dizendo a verdade – interrompeu-a e exigiu que ela afirmasse que, se um ataque biológico ocorresse, todos deveriam ter “100% de certeza” de que foi a Rússia que fez isso. Grato pela balsa salva-vidas, Nuland disse a Rubio que ele estava certo.
    MAS O ACTO DE LIMPEZA DE RUBIO CHEGO TARDE DEMAIS. Quando perguntado se a Ucrânia possui “armas químicas ou biológicas”, Nuland não negou isso: em tudo. Em vez disso – com um desconforto palpável e em parar a fala, um contraste gritante com seu estilo normalmente arrogante de falar em funcionários ofuscantes do Departamento de Estado – reconheceu: “uh, a Ucrânia tem, uh, instalações de pesquisa biológica”. Qualquer esperança de retractar tais “instalações” como benignas ou banais foi imediatamente destruída pelo aviso que ela rapidamente acrescentou: “Estamos agora bastante preocupados que as tropas russas, as forças russas, possam estar buscando, uh, ganhar o controle [desses laboratórios], por isso estamos trabalhando com os ucranianos [sic] sobre como eles podem impedir que qualquer um desses materiais de pesquisa caia nas mãos das forças russas caso eles se aproximem” — [interrupção por Sen. Rubio]:”

    Nota: a versão em Inglês, aqui:
    https://greenwald.substack.com/p/victoria-nuland-ukraine-has-biological?s=r
    Nota: os americanos gastaram 5 mil milhões de USD para degradar a situação politica na Ucrânia na suposta “revoluçao” euromaidaniana. E Nuland não nega isto também.
    Por muito menos e de forma mentirosa, os americanos e outros ocidentais destruíram um país e a história de uma civilização no Iraque.

    Sobre a história e historiadores, de forma breve para académicos e quem mais se interessar:
    após o desmantelamento da USSR em 1991 27 (VINTE E SETE) milhões de habitantes que se consideram russos ficaram fora do espaço da Rússia e a esta desejam pertencer. Não é por um acaso que a intervenção na Geórgia, com a integração da Ossétia do Sul e da Abecássia no espaço russófilo, foi consensual . Aliás, na ex-USSR vários dirigentes pertenciam a várias outras regiões: Stalin era georgiano e Brejnev e Krushev eram ucranianos.
    A Crimeia, com história com mais de 8 mil anos, pertence ao espaço russo desde o século XVIII. Nota: Stalin perpetrou enorme barbaridade contra os tártaros da Crimeia e em 1954 Krushev. um ucraniano, ofereceu a Crimeia à Ucrânia. Porém esta região bem como a região sul e nordeste da Ucrânia mantiveram e mantêm forte ligação russófila que, face à agressão da nato em sua expansão para leste, levou a que Putin sabiamente manobrasse em favor da soberania e segurança russas. Nota: A segurança russa expressa-se também em permitir que a frota russa do mar negro mantenha acesso ao mediterrâneo, por via deste ao atlântico e com direito de regresso ao ponto de partida.
    Quem não entender isto não pode entender a história e de como a história se processa.

    Sobre os crimes contra a história e historiadores, para complementar a oferta do SAC, deixo aqui algumas ligações:
    https://www.cafehistoria.com.br/o-historiador-como-inimigo-antoon-de-baets/
    https://www.nexojornal.com.br/expresso/2021/12/27/As-disputas-em-torno-da-pris%C3%A3o-de-um-historiador-dos-gulags

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