Machismo? Isso existe?


Marta Caires,

O canil, com as jaulas cheias, arrepia. Os cães ladram eufóricos, percebem que as duas raparigas de jeans e t-shirt querem dois para levar às tias. E saltam, ladram, dizem com a cauda a abanar que são os mais bonitos, os meigos, os mais aptos para guardar uma casa, um jardim, uma fazenda de tias velhas. A senhora das limpezas aponta: estes podem ir, estes não. Machos? Não há, são os primeiros a arranjar dono.

Ninguém quer as fêmeas, ninguém ouve sequer as explicações das veterinárias da Sociedade Protectora dos Animais Domésticos. A esterilização é de graça, não custa mais do que os 40 euros da taxa de adopção. São cadelas e basta, estão condenadas a uma vida de prisão. Os irmãos partem e elas, bonitas ou feias, crescem nas jaulas da Sociedade. Um dia, quando é impossível continuar uma existência de poucos metros quadrados, começam a rodar sobre si próprias, condenam-se à loucura e à eutanásia.

As duas raparigas, surdas pelo barulho, apontam para uma jaula, para duas fêmeas pretas e amarelas. São aquelas, as tias vão protestar, mas na fazenda sempre houve cadelas, gatas e muitas mulheres. A compaixão, o afecto, o carinho, tudo isto se mistura quando a Tia Alzira olha para a caixa e sorri. "Eu não queria, mas são tão bonitas…" E em pouco minutos as cadelinhas estão a correr atrás da tia Encarnação, que é a alma daqueles quintais, da capoeira, da romãzeira em flor e dos gatos a dormir no terraço.

Só a Julieta torce o nariz. Não gosta de cadelas, um cão é outra coisa. Um cão, um gato, um rapaz. Aos 80, é tarde para explicar, para falar de direitos, para insurgir-se contra o preconceito que a leva a encontrar qualidades no que vem dos homens, dos cães, dos gatos. As mulheres são as mulheres, são as que ficam para ajudar nos casamentos, nas festas, para os velórios e para ouvir o choro e o desgosto. Como as gatas, as cadelinhas, esse exército de fêmeas que nunca baixa a guarda.

11 comentários em “Machismo? Isso existe?”

  1. Excelente artigo. Adorei, desde a primeira palavra à ultima constatação de que no século XXI há coisas que ainda são muito peganhentas…

  2. Muito giro, mas seria melhor fazer a pergunta em relação a animais de duas patas: na adoção, os adotantes exprimem preferência por rapazes em vez de raparigas? Eu nunca ouvi dizer que tal aconteça.

    É que com machismo em matéria canina podemos nós bem.

    1. Os adoptantes querem bebés, brancos e saudáveis… Por isso é que as instituições estão cheias de crianças que ninguém quer… E as listas de pais à espera de crianças para adoptar é imensa.
      Mas também, por outro lado, é compreensível.
      Tenho uma amiga e colega de trabalho, solteira que adoptou um adolescente, negro , com percurso de vida problemático. Corresponderam-se primeiro, trocaram fotos e no dia em que ela o foi buscar à instituição (não posso deixar de comparar com a cena dos canis deste post), ele entrou numa sala cheia de mulheres, procurou-a com os olhos, foi direito a ela e perguntou ” És tu a minha mãe?”.
      Um história de muito amor incondicional para dar… Tem sido um percurso com altos e baixos, mas sempre num amor maternal e filial incondicional.

  3. Existe sim, e neste caso chama-se “cãochismo”.
    Mais uma vez, um belíssimo post com que nos brindou. Se algum dia vier a existir aqui um prémio para o melhor blogger…, vá-se preparando! Está muito bem posicionada para vir a receber essa distinção.

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