Mais notícias da barbárie


Patrícia Reis,

Uma vez mais, notícias da barbárie. Não falo de guerras nem de atentados nem de terrorismo. Falo de outra barbárie, que alastra como mancha ancestral neste nosso admirável século XXI, indiferente às constantes proclamações de irreversível progressismo. Na Somália, uma mulher de 29 anos foi apedrejada até à morte, acusada de ter cometido adultério com um homem de 20. Ele escapou à pena capital graças à ‘benevolência’ do juiz islâmico, que o condenou a cem chibatadas. Halima Ibrahim Abdiraham recebeu um veredicto que nenhum de nós conceberia sequer para o mais reles animal: a lapidação. Nem o facto de ser divorciada lhe serviu de atenuante num país em que os homens são simultaneamente legisladores, acusadores, juízes e carrascos – e às mulheres são negados todos os direitos, a começar pelo direito à dignidade. Sem recurso possível, logo se consumou a execução: a jovem foi de imediato soterrada sob uma chuva de pedras, certamente para gáudio dos duzentos selvagens que assistiram à cena, como relata a BBC, e de todos quantos defendem a ‘pureza’ da justiça corânica, que manda  castigar com as mais severas punições quem se desvia milimetricamente do rigor da norma milenar.

Embalados na retórica da ‘modernidade’ neste doce canto ocidental da Europa, mal nos apercebemos de que num continente vizinho há quem viva mergulhado em cenários de pesadelo semelhantes aos que vigoravam na pré-história. Gostaria que alguns profissionais da indignação por uma vez não fingissem que estas coisas não ocorrem no mundo contemporâneo, porventura com receio de serem acusados de ‘islamofobia’ pelas bem-pensâncias do costume. E ainda não perdi a esperança de ver um dia estas erupções de barbárie serem debatidas num Prós & Contras qualquer. Para ao menos ter a certeza de que esta mulher de que hoje falo e o homem de quem falei há dias não morreram sem uma palavra de consternação das boas almas iluminadas do ocidente.

20 comentários em “Mais notícias da barbárie”

    1. Infelizmente esta é uma triste e chocante realidade do nosso tempo. Não deixarei de falar dela por aqui. Nunca devemos fechar os olhos à banalização do mal, seja em que quadrante for e tenha os pretextos que tiver.

  1. Isto é certamente comevedor. Contudo, o problema da antropolgia é a ignominiosa e obscura mania das analogias racionais. Os antropólogos apenas chamam a atenção para o facto das culturas ocidentais, atacadas por não discutirem nos Prós e Contras as mais relevantes questões de atentado contra a dignidade da vida humana, mas louvadas sempre que remetem para a miséria milhões de pessoas (altura em que normalmente se fala do remorso do homem branco, proibindo opiniões sobre a exploração político-cultural de países sub-desenvolvidos) também soterrarem sob pedras homens, mulheres, crianças e até gatos e piriquitos, contudo através de tecnologia mais eficaz, limpa, enfim, digamos, mais “verde”. A diferença é que o fazem contra elementos estranhos à sua cultura, mas invocando argumentos de valor com a mesma substância absoluta dos valores corânicos. Ou a democracia é um valor discutível? Os antropólogos também explicam isto. É muito chato, reconheço, quando a ciência em vez de fabricar telemóveis e vibradores eléctricos se põe a revelar os limites dos nossos padrões morais.

  2. Cªas Sociais à parte, porque esta malvadez é uma barbaridade sem nomenclatura possível!
    não pode haver tolerãncia com os costumes do outro, se este os usa para humilhar, espezinhar, seja lá em nome de que Deus seja!
    No Ocidente sabe-se disto. O que se tem feito? O que se pode fazer para que contribuamos para o fim destas práticas de crueldade?
    Pedro: há posts que me custam ler. Este foi um deles!

    1. A mim custou-me escrever, acredite – o que raras vezes acontece. Mas custou-me ainda mais ler a notícia na BBC – a segunda do género em poucos dias. E saber que esta já foi pelo menos a quarta execução por lapidação na Somália em 2009.
      Não sei o que pode ser feito, Lúcia. Mas há pelo menos uma coisa que não devemos fazer: ignorar tais factos, por muito que nos repugnem.

  3. Que acontecesse sempre seria mau. A frequência com se passam situações destas dá ares de mal disfarçada insânia. Neste caso global. E não há religião ou juiz que a justifique. É terrível, pois é, mas o mundo está cada vez mais assim. A barbárie atinge todos por igual. Resta-nos este combate, Pedro.

  4. São estes os post´s que custam mais a ler e a escrever, pois são demonstrativos da banalidade dos nossos problemas e preconceitos na nossa sociedade dita ocidental.Haja alguém que se indigne e não se cale.Bem haja Pedro.

  5. Parabens pelo post.

    Junto a minha indignação pelo que aconetceu e pela indifrença dos habituais “profissionais da indignação” que saltam sempre que ouvem a palavra bush

    nota: não morro de amores por bush

  6. Chegam ao cúmulo de regulamentar o tamanho das pedras. Não devem ser demasiado grandes nem demasiado pequenas para garantir a maior tortura no maior espaço de tempo possível, mas também para que não haja um único executor. Se todos atiram pedras não se sabe qual a mão que atira a pedra que desfere o golpe fatal. É uma culpa colectiva, por isso, não é culpa, tornando ainda mais difícil o abandono dessa prática.

    Uma pergunta que me ocorre é se entre os homens que atiram as pedras não haverá quem se repugne, quem ache aquela prática terrivelmente errada e desumana, mas até nisso a barbárie é perversa. Ao incluir toda a comunidade masculina reforça os laços entre os homens e cala a dissidência.

      1. Caro Pedro, o nome da senhora que tinha 29 anos e era divorciada era Halima Ibrahim Abdirahman o homem, um rapaz de 20 anos. O Juiz foi o Sheikh Ibrahim Sheikh Abdirahman a execução foi em Eelboon no sul da Somália.

        A senhora tinha um nome e ele aqui está. Se apanhar uma foto dela em algum lado mando-te.

        Abraço
        Afonso

        1. Obrigado, Afonso. Vou acrescentar no texto. Todos os mortos têm um nome. E esta mulher, ainda mais do que qualquer outro ser humano, merece ter o nome dela escrito aqui.

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