Maria de Lourdes Modesto morreu.
Não escreveu nenhum romance onde tivesse retratado uma cidade, um meio social, uns tipos retintamente portugueses; nem nenhuma poesia onde nos retirasse do barro que somos para irmos passear lá onde se passeiam as almas que com os grandes poetas descobrimos ter, ou que tocasse no mistério da nossa condição. E também não compôs, não pintou, não esculpiu, assim como não fez nem investigação nem descobertas ou invenções no âmbito da ciência ou da técnica.
E todavia sentimos a sua morte como não sentimos a dos declarados génios que uns meses sim outros não o país oficial celebra aquando dos respectivos passamentos.
Génios? O que caracteriza a genialidade é a perenidade; e o que caracteriza o talento passageiro é o efémero. A mim ocorrem-me de repente nomes de escritores, poetas, artistas e políticos, aclamados em vida e incensados na morte, que as cinzas do esquecimento já começaram a cobrir.
Maria de Lourdes não será desses. Não é que seja um vulto da alta cultura, é que foi uma diligente formiga a consignar no papel o que nos faz, a comer, diferentes dos outros povos. E como não se prevê que a nacionalidade se extinga, nem que passemos a ser alimentados por invenções de chefs geniais saídos das escolas de hotelaria: a obra dela continuará a ser de consulta e referência.
A gastronomia contemporânea assenta no equívoco de a culinária ser uma arte – não é – e não um artesanato, que é; bem como num desprezo a-histórico pelos nossos antepassados, como se os grandes progressos científicos, técnicos e sociais, nos tivessem afinado o paladar. Mas não: que se saiba, se alguma coisa tem acontecido ao paladar é ter-se vindo a abrutalhar por as novas gerações, em idades em que a base do gosto se firma, serem expostas ao fast-food.
A confusão entre arte e artesanato leva a que se privilegie a inovação, como se uma nova e originalíssima maneira de estragar ostras fosse equivalente à mais recente obra de Elena Ferrante. E a inovação é mesmo um dos fundamentos do mais conhecido dos prémios da indústria da treta gastronómica, o celebrado Michelin. Esta conhecida marca, com o propósito de vender pneus, incentiva cozinheiros engenhosos a inventar pratos que precisam de intérprete para se saber o que sejam, e que por vezes explodem na boca e invariavelmente na carteira.
Caso singular: a mim já me aconteceu ser servido de um cozido à portuguesa que conseguia o prodígio de nenhum dos constituintes ser reconhecível, mas todavia ter os sabores, não do reco criado a lavadura, nem do frango genuinamente pica-no-chão, nem das verduras de uma horta clandestina, mas de tudo isso na versão supermercado. Uma experiência, disse encantado o meu camarada de mesa, que bebeu com indivisa atenção o discurso interminável do chefe de cerimónias que explicava aos crentes o milagre gustativo.
Um clássico: de onde vêm os animais, como são criados e alimentados, e de onde vêm os géneros, aparentemente, não interessa. Como não interessa há quantas horas foi por exemplo pescado o peixe, como se os malditos não tivessem a desgraçada tendência para se degradarem rapidamente.
Isto é estranho. Porque o consumo de animais e géneros criados e produzidos pelas formas tradicionais não pode generalizar-se porque os métodos são geralmente pouco eficientes, e portanto caros – por isso é que a agricultura e a pecuária mudaram. Mas o preço cobrado pela “alta” cozinha moderna lá baixo não é. Donde, haveria talvez espaço para uma cozinha com menos arte e mais respeito pela tradição.
Tradição que Maria de Lourdes Modesto fez mais que qualquer outro para que não morra.
Razões por que seria desejável que sobre esta distinta portuguesa Marcelo não dissesse, por estes dias, nada. Ele banaliza tudo, até a genuína tristeza.

Nunca li Maria de Lourdes Modesto. Tive uma educação tradicional e lá em casa éramos seis, cinco raparigas e eu. Quer isto dizer que, quando era preciso um recado ou uma compra urgente, era eu que avançava mas foi preciso o SMO para pela primeira vez fazer uma cama ou engraxar umas botas. E ainda hoje não sei estrelar um ovo.
Por isso fiquei maravilhado com uma crónica sobre isso mesmo, estrelar um ovo e, a propósito desta, quero deixar o meu testemunho sobre um peixe e um pão.
Em já longínquos Verões, por vezes ficávamos a jogar “poker” até às duas, três da manhã; depois era hora de irmos para Cascais, para uma rua logo atrás da lota e bem perto da praia dos pescadores. Entre as três e meia e as quatro, chegava a primeira traineira e, da padaria próxima, saía a primeira fornada de pão. As sardinhas, de uma caixa que nem chegava à lota, iam ainda vivas para pequenos fogareiros de barro e eram comidas sobre pão quente que se ia impregnando de gordura.
Hoje, quando como sardinhas e alguém comenta que estão muito boas, sorrio.